A isenção de cinco anos da SEC abre a porta para a OKXICE
A OKX, corretora de criptoativos, e a Intercontinental Exchange (ICE), controladora da Bolsa de Nova York, montaram uma joint venture — sociedade criada por duas empresas para tocar um projeto comum — batizada de OKXICE. O alvo é uma plataforma de negociação de ações americanas em versão tokenizada, formato em que o papel ganha representação digital registrada em blockchain. A estrutura foi levada à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, por meio de notificação, e a OKX detalhou a operação em comunicado no domingo (4).
O que sustenta o projeto é uma decisão regulatória recente. A SEC concedeu, no mês passado, uma isenção de cinco anos para que plataformas determinadas negociem versões tokenizadas de papéis listados nos EUA sem o registro exigido de uma bolsa de valores. É essa janela que separa a OKXICE de uma operação convencional e define, na prática, o horizonte de validade do modelo.
Mais de 60 empresas e 30 dias para ficar fora
A cobertura pretendida passa de 60 companhias listadas nos Estados Unidos. Cada emissor, contudo, terá 30 dias para recusar a inclusão — prazo que transfere às próprias empresas a decisão sobre aderir ou não à plataforma.
Entre os papéis na mira estão nomes que concentram boa parte da atenção do investidor pessoa física brasileiro:
- Tesla, Apple, Microsoft, Amazon e Nvidia
- Walmart, JPMorgan Chase, Coca-Cola e Goldman Sachs
- IBM, Cisco, Boeing, Netflix e Reddit
- SpaceX, Palantir, AMD, Coinbase, Robinhood e Circle
A negociação aconteceria na X Layer, rede ligada à OKX, com operação autorizada e liquidada na blockchain. Na prática, o formato permite que o ativo mude de mãos fora do horário comercial de Wall Street, algo impossível no pregão tradicional.
O arranjo coloca em evidência uma disputa em curso sobre quem vai intermediar a negociação de ações no ambiente digital. As bolsas tradicionais, caso da NYSE, tentam preservar o posto; as corretoras de cripto, acostumadas a operar sem interrupção, enxergam nos papéis tokenizados uma ponte para o mercado de capitais.
O que a tokenização muda para quem acompanha a bolsa americana
Para o investidor brasileiro, o movimento indica que a tokenização deixa de ser experimento de nicho e entra no radar de infraestruturas tradicionais: a ICE controla a NYSE, e não se trata de uma startup de cripto. Se o modelo se consolidar, a tendência é que a negociação de ações dos EUA ganhe janelas contínuas de horário, algo que hoje não existe nem na B3 nem nas bolsas americanas.
O risco mora na letra miúda. A isenção tem prazo, e não é regra permanente; a adesão depende da escolha de cada emissor dentro de uma janela curta. A estrutura ainda precisa provar que atrai liquidez e que a versão digital preserva os direitos do acionista — ponto que a própria OKX apresenta como central para o modelo funcionar.
Andrew Cuomo, copresidente da OKXICE e ex-governador de Nova York, descreveu a iniciativa como um movimento para levar Wall Street a um alcance global e a um funcionamento ininterrupto. Já Star Xu, fundador e CEO da OKX, sustentou que o avanço da tokenização deve ampliar a abertura, a integração e a disponibilidade contínua dos mercados públicos.
