A Adere, que se apresenta como a maior fabricante de adesivos do país, colocou no papel uma meta que praticamente dobra seu tamanho em cinco anos: sair de uma receita anual superior a R$ 500 milhões e chegar a R$ 1 bilhão em 2030. O plano reúne ampliação fabril, novos produtos, mais espaço nas gôndolas e uma frente de exportação que hoje ainda é pequena.

O caminho passa por linhas em que a companhia tem pouca presença. Na fita crepe, a fatia de mercado supera 50%; no conjunto das fitas adesivas, recua para 12%. “A gente tem mais de 50% do mercado de fita crepe, mas no geral de fitas adesivas temos 12%. Então você imagina o que dá para crescer”, resumiu Luiz Gustavo Dias, CEO da Adere, em entrevista ao podcast Do Zero ao Topo.

Do sapato ao carpete de feira

Boa parte dessa receita não passa pelo varejo doméstico. Na indústria calçadista, uma fita de tecido misto — algodão com náilon — recebe uma camada de adesivo e é posicionada sob a costura, onde dá resistência ao couro. A produção dessa linha fica em Novo Hamburgo (RS), em uma fábrica montada com um distribuidor de componentes, o que mantém a operação dentro do polo coureiro gaúcho.

Na construção civil, tiras dupla face prendem placas de vidro às molduras de alumínio; essa família sai de Sumaré (SP), com tecnologia própria. Já em pavilhões de exposição, o carpete é colado ao piso e precisa ser retirado entre a desmontagem de uma feira e a montagem da seguinte. A exigência não está apenas na fixação: qualquer resíduo no piso vira trabalho extra de preparação, o que elimina a dupla face comum — o item existe no catálogo, mas é vendido na loja virtual da empresa, não no comércio tradicional.

Fora dessas aplicações, as fitas atendem montadoras, linha branca — os eletrodomésticos de grande porte, como geladeiras — e hospitais. O portfólio, com mais de mil produtos, inclui colas para madeira, adesivos de cianoacrilato (secagem quase imediata), abraçadeiras e utilidades domésticas. Entre 90% e 95% dos itens saem de fábricas próprias; o restante vem de terceiros, em linhas de marca própria que a companhia segue ampliando.

O volume ajuda a dimensionar a operação: a produção anual de fitas chega a 120 mil quilômetros, extensão que corresponde a cerca de três voltas em torno do planeta.

R$ 100 milhões em máquinas, vapor e solvente recuperado

O programa de investimentos em execução passa de R$ 100 milhões. A expansão da unidade paulista somou 10 mil m², custou perto de R$ 25 milhões e incluiu melhorias logísticas; a área construída chegou a 30 mil m².

Além de espaço, o pacote adiciona capacidade e eficiência. A fábrica já opera com gerador de vapor próprio e instala um recuperador de solventes. O solvente existe para diluir o adesivo e evapora durante a secagem; ao capturá-lo, a empresa consegue devolvê-lo ao processo, reduzindo a compra de insumo.

O laboratório acompanhou o movimento. A ampliação mais recente abriu áreas para desenvolvimento de produtos e controle de qualidade, com equipes separadas: uma verifica matéria-prima e produto acabado, outra cria formulações em uma máquina-piloto.

Vender mais itens para quem já compra

No varejo, a Adere reforçou o time comercial e criou uma área de trade marketing — a equipe que negocia espaço e exposição dentro do ponto de venda. A prioridade é elevar o número de itens que cada cliente leva, e não apenas somar compradores novos. A fita crepe, de maior penetração, funciona como porta de entrada para categorias em que a participação ainda é baixa.

Cone Sul concentra 4% da receita e a promessa de um executivo

A companhia embarca para 17 países, mas o mercado externo responde por cerca de 4% do faturamento. A base está no Cone Sul — Argentina, Paraguai e Uruguai —, sendo o mercado argentino o mais relevante; há vendas também para Estados Unidos e Europa.

A estrutura é enxuta: o próprio CEO acompanha as contas externas, com duas profissionais cuidando da documentação. Sobre a postura comercial, o executivo admite que a área hoje reage a pedidos em vez de perseguir contas, e o plano é contratar um profissional de vendas exclusivo para o exterior. A função já existiu e gerou negócios até a saída do ocupante anterior.

Os alvos mapeados são a Colômbia, onde a fabricante ainda não atua, e a ampliação de vendas em Chile, Peru e Equador.

Os números do plano até 2030

IndicadorNúmero divulgado
Receita anual atualacima de R$ 500 milhões
Meta de receita para 2030R$ 1 bilhão
Participação em fita crepemais de 50%
Participação no mercado geral de fitas adesivas12%
Programa de investimentos em execuçãomais de R$ 100 milhões
Ampliação da fábrica de Sumaré10 mil m² e cerca de R$ 25 milhões
Área construída em Sumaré30 mil m²
Produção anual de fitas120 mil quilômetros
Itens de fabricação própria90% a 95%
Exportações17 países e cerca de 4% da receita

O que a meta de R$ 1 bilhão cobra da operação

Para quem acompanha a indústria nacional, o caso funciona como termômetro de uma cadeia que raramente aparece na tela do home broker. Adesivo é insumo de calçado, construção, automotivo e eletrodoméstico, e o desempenho de uma fabricante desse porte tende a acompanhar o ritmo desses setores.

A meta não vem de uma alavanca só. Dobrar a base em cinco anos exige que três frentes avancem juntas: participação (12% hoje), mix dentro da carteira existente e exportação (4%). Historicamente, planos desse tipo concentram custo antes de receita — área ampliada, automação e reforço comercial aparecem no resultado antes de o volume adicional chegar.

O recuperador de solvente mexe em custo unitário, ganho que costuma sustentar margem quando o preço não sobe. Já os 30 mil m² de área construída precisam ser preenchidos com produção, o que devolve a cobrança para a ponta comercial.

A exportação é a frente menos madura. Um executivo dedicado tende a encurtar o ciclo de vendas, mas a concentração no Cone Sul deixa parte da receita externa sensível ao ciclo econômico dos vizinhos — o que ajuda a explicar a intenção de entrar na Colômbia e ampliar Chile, Peru e Equador.

O ponto de atenção está na aritmética do portfólio. Metade do mercado de fita crepe é uma posição consolidada; 12% no total significa que o crescimento virá de categorias mais pulverizadas, em que preço pesa mais na decisão de compra. Se o mix não avançar, a meta depende de volume em um ambiente de negociação mais dura.

A agenda a monitorar é objetiva: a contratação do executivo de exportação, o ritmo de lançamentos do laboratório e a evolução da participação fora da fita crepe — os três indicadores que dizem se o plano de 2030 está saindo do papel ou seguindo apoiado na categoria em que a empresa já é líder.