A eventual chegada de Flávio Bolsonaro à Presidência da República desenha dois vetores opostos para as companhias do agronegócio, na avaliação do Citi: de um lado, um custo de dívida menor; de outro, uma receita de exportação pressionada por um real mais forte. O banco enviou a análise a clientes em 5 de outubro, segunda-feira, logo depois da votação de domingo, mapeando os desdobramentos de uma troca de governo para os setores que cobre. Quatro variáveis sustentam a leitura: o custo do crédito, a taxa de câmbio, os preços agrícolas e o fluxo de capital para a Bolsa.

Para quem tem exposição ao tema, a questão não é uma direção única do setor, e sim a convivência de forças que se anulam em parte. O mesmo ambiente político capaz de baratear o crédito tende a retirar o amortecedor de receita de quem fatura em dólar — e o saldo, companhia a companhia, depende de quanto cada uma deve e de qual parcela da produção é embarcada para o exterior.

Endividamento elevado faz do juro baixo um alívio de peso

O fator juros ganha peso pelo perfil dos balanços analisados. Boa parte das empresas do agronegócio carrega endividamento elevado, segundo o banco, tanto por aportes recentes em expansão quanto por margens que vêm se estreitando. Um custo de crédito menor tende a aparecer mais rápido justamente nesse grupo.

Alavancagem é a parcela de capital de terceiros que sustenta a operação; quanto mais alta, maior a sensibilidade do lucro a cada movimento da taxa básica. Com juros em queda, esse mecanismo trabalha a favor do caixa das companhias mais endividadas.

Dólar mais fraco corrói a receita de quem vende fora

No câmbio, o sinal se inverte. A perspectiva de valorização do real surge no relatório como o principal obstáculo, porque boa parte do agronegócio embarca produção para fora: com a moeda americana mais barata, cada contrato fechado em dólar se converte em menos reais no resultado.

O efeito é assimétrico dentro do setor. Companhias com receita dolarizada e custos em reais sentem o câmbio pelo lado da receita; quem vende no mercado interno tem exposição menor a esse vetor.

Fluxo para a Bolsa não chega igual a todos os papéis

Há ainda uma limitação para o setor capturar uma eventual entrada de recursos na renda variável. Na visão dos analistas, quem mais se beneficia desse movimento são empresas com liquidez elevada e peso relevante no Ibovespa — características menos frequentes entre as companhias agrícolas.

Mesmo que uma troca de governo favoreça o mercado acionário brasileiro como um todo, a transmissão desse impulso para os papéis do agro tende a ser mais restrita do que para os nomes de maior giro.

Quatro vetores e o sinal de cada um

Vetor analisadoEfeito potencial sobre o agro
JurosAlívio: dívida elevada do setor fica mais barata
CâmbioObstáculo: real mais forte reduz receita de exportadoras
Preços de commoditiesVisão positiva no curto prazo, com riscos à oferta
Fluxo de recursosRestrito: agro tem menos liquidez e menos peso no Ibovespa

El Niño entra no radar da safra

O clima completa o quadro de riscos. O banco chama atenção para o receio em torno de um El Niño forte, que poderia prejudicar a produtividade das lavouras brasileiras nesta safra. Preços de commodities com viés positivo no curto prazo, portanto, convivem com a possibilidade de quebra de produção — dois fatores que puxam o resultado em sentidos distintos.

Juro, câmbio e clima puxam em direções diferentes

O cenário que sai do relatório é de forças que não se somam. Juro menor alivia o serviço da dívida; dólar mais fraco e clima adverso limitam a melhora dos resultados. Para quem acompanha o setor, o que importa é a composição de cada carteira: quanto está exposto a crédito e quanto depende de preço de commodity e de câmbio.