O Bank of America subiu o preço-alvo do Assaí (ASAI3) de R$ 12 para R$ 17 e manteve a recomendação de compra do papel, segundo relatório público da instituição. A revisão combina dois vetores que o banco trata como interdependentes: o quadro político desenhado após as eleições, que na avaliação da casa ampliou a chance de reformas e de mais disciplina fiscal, e a possibilidade de um ciclo de queda de juros mais profundo do que o projetado.
Para quem acompanha o varejo alimentar, a mudança relevante vai além do novo alvo: está na matemática que o sustenta. Cada 1 ponto percentual de recuo na taxa básica de juros se traduz em 6% mais de lucro por ação, segundo os cálculos do banco. O lucro por ação (LPA) é o resultado líquido dividido pelo número de papéis em circulação — indicador que mostra quanto do ganho da companhia corresponde a cada ação.
A conta que liga juros ao resultado por ação
A sensibilidade estimada é o elo entre a agenda fiscal e o caixa da rede varejista. Caso o ambiente político permita juros menores, a transmissão para o LPA é direta, o que pode abrir espaço para uma nova rodada de reprecificação dos papéis — expressão usada para o movimento em que o mercado eleva o preço que aceita pagar pelos lucros futuros de uma empresa.
O relatório projeta ainda vendas mais fortes nos canais B2B e B2C — siglas para a venda a outras empresas e para a venda direta ao consumidor final — se o consumo ganhar tração com juros menores. Em um cenário que combina 5% de crescimento nas vendas em mesmas lojas e Selic a 10%, o LPA estimado para 2028 seria 10% maior. Vendas em mesmas lojas, ou SSS na sigla em inglês, medem a receita de lojas abertas há mais de um ano e isolam o efeito de inaugurações.
| Indicador | Valor citado pelo BofA |
|---|---|
| Preço-alvo para ASAI3 | R$ 17 (antes: R$ 12) |
| Múltiplo sobre o LPA de 2028, sem IFRS 16 | 13x (antes: 9x) |
| Ganho de LPA a cada 1 p.p. de queda na taxa | 6% |
| LPA de 2028 com SSS de 5% e Selic a 10% | +10% |
Múltiplo passa de 9x para 13x na projeção de 2028
A elevação do alvo não decorre apenas de um lucro projetado maior. O banco passou a trabalhar com 13 vezes o LPA estimado para 2028, desconsiderando os efeitos do IFRS 16 — norma contábil que leva os aluguéis ao balanço como dívida e altera o resultado operacional —, contra 9 vezes na avaliação anterior.
Pagar mais por cada real de lucro futuro embute mais confiança na execução e no cenário macro, mas encolhe a margem de segurança embutida no preço. Quanto mais alto o múltiplo, maior a dependência de que as premissas de juros e consumo se confirmem; revisões para baixo tendem a ter efeito amplificado sobre a cotação.
Inflação de alimentos entra na equação das vendas
Preços de comida em alta também aparecem como vento a favor. A projeção média para a inflação dos alimentos consumidos em casa aponta pico de 10,1% na comparação anual em fevereiro, com média de 8,0% em 2027. Petróleo e grãos mais caros, somados aos riscos do El Niño, deixam essa trajetória mais próxima.
Para a rede, a alta dos alimentos tende a inflar o faturamento nominal mesmo quando o consumidor troca marcas ou procura itens mais baratos — a casa sinaliza que esse comportamento, na sua leitura, não impede vendas mais robustas.
Passivo de R$ 12,9 bilhões do GPA e o risco herdado
O relatório aponta um efeito indireto vindo da reestruturação da dívida do Grupo Pão de Açúcar (PCAR3). A negociação de passivos tributários históricos, com possibilidade de descontos e parcelamentos, poderia reduzir um estoque contingente de quase R$ 12,9 bilhões. Concluída a operação e cumpridas as obrigações pela antiga controladora, o Assaí ficaria menos sujeito a cobranças e responsabilidades herdadas.
O que muda, na prática, é o conjunto de gatilhos a monitorar: a trajetória da Selic, o repasse da inflação de alimentos às vendas e o desfecho da reorganização do GPA. São variáveis já quantificadas no relatório e que devem orientar a leitura dos próximos balanços da companhia.
