Após a onda de venda observada no segundo trimestre nos mercados de renda variável da América Latina, o Bradesco BBI sinaliza a reabertura de uma janela de alocação estratégica para o terceiro trimestre de 2026. O relatório, coordenado pelo estrategista Ben Laidler e com contribuições dos analistas Francisco Navarrete e Bruno Mendonça, aponta que o ajuste recente nos preços das ações recalibrou as avaliações, criando condições para uma possível valorização agregada de 25% no segundo semestre.
Alocação Geográfica e Direcionamento de Portfólio
A equipe de estratégia mantém a recomendação de overweight (exposição acima da média do mercado, indicando preferência por compra) para os ativos brasileiros e chilenos, enquanto adota postura neutra em relação a México e Peru. Argentina e Colômbia receberam classificação de underweight (exposição abaixo da média, sinalizando cautela ou venda). A seleção de papéis prioriza companhias com crescimento qualificado, destacando Itaú Unibanco (ITUB4), Coca-Cola FEMSA, Embraer (EMBJ3), Equatorial (EQTL3) e Yduqs (YDUQ3) entre as grandes capitalizações. No segmento de média capitalização, XP Inc. (XP; BDR; XPBR31), Ternium (TX) e Smart Fit (SMFT3) figuram como novas inserções na carteira modelo.
Commodities e Materiais Básicos: Fluxo de Caixa e Execução
O banco mantém projeção positiva para a dinâmica de oferta e demanda de minério de ferro e cobre, fundamentando a sustentação de preços das commodities acima das expectativas iniciais. No segmento siderúrgico latino-americano, a Ternium surge como a escolha prioritária. Mesmo com pressão pontual sobre custos operacionais, a combinação de preços elevados de minério e metais básicos, aliada à eficiência logística, mantém inalteradas as estimativas de Ebitda (lucro operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e FCF (Fluxo de Caixa Livre). O Bradesco BBI projeta que as estimativas da Ternium estão 16% acima do consenso de mercado, com a redução de capex (investimentos de capital) atuando como vetor direto para a geração de caixa.
A Vale (VALE3) recebe avaliação atrativa, com projeção de rendimento de fluxo de caixa livre de 9% para 2026, patamar superior à média de 5% das empresas comparáveis. O cenário aumenta a probabilidade de distribuições extraordinárias de proventos no segundo semestre. No setor de celulose, a Suzano (SUZB3) apresenta a melhor relação risco-retorno, sustentada por preços firmes e operação eficiente. A estratégia de hedge cambial (proteção contra variação do dólar) pode gerar aproximadamente R$ 5 bilhões entre 2026 e 2027, considerando câmbio a R$ 5,00 por dólar. O valuation atua como amortecedor, projetando rendimento de FCF de 16% para 2027, mesmo em cenário conservador com celulose a US$ 550 por tonelada e dólar a R$ 5,00.
Petróleo, Gás e Serviços: Navegando a Geopolítica
O analista Vicente Falanga adota postura cautelosa com o segmento exploratório devido às negociações para resolução do conflito no Irã. O viés defensivo direciona o capital para distribuidoras e prestadoras de serviços. A Vibra (VBBR3) lidera a seleção de grande porte, beneficiada pelo combate à informalidade no setor de combustíveis. A margem recorrente do segundo trimestre de 2026 deve superar o patamar anterior, atingindo cerca de R$ 350 por metro cúbico, com expansão expressiva do FCFE (Fluxo de Caixa Livre para o Acionista). A ação é negociada a menos de 9 vezes o lucro estimado para 2027 (múltiplo P/L, ou Preço sobre Lucro), refletindo atratividade frente ao ROIC (Retorno sobre Capital Investido) e ao crescimento projetado.
Entre as empresas de menor capitalização, a OceanPact (OPCT3) ganha destaque após a reavaliação da tese de investimento motivada pela fusão com a CBO. O preço-alvo foi revisado de R$ 10 para R$ 15, internalizando as sinergias operacionais esperadas. No complexo energético, Francisco Navarrete identifica cenário favorável para distribuidoras de eletricidade, impulsionado por avanços regulatórios, e mantém viés positivo para saneamento pós-privatizações. A Equatorial (EQTL3) se consolida pela capacidade de alocação de capital e participação acionária em Copasa (CSMG3) e Sabesp (SBSP3). A Eneva (ENEV3) representa a aposta em crescimento de média capitalização, alavancada pela expansão de térmicas que complementam a matriz renovável.
Consumo, Varejo e Tecnologia: Resiliência e Revisão de Preços
Alimentos, bebidas e agronegócio mantêm viés construtivo. A Coca-Cola FEMSA ocupa a primeira posição entre grandes empresas, com expectativa de expansão volumétrica no México, mesmo diante do IEPS (Imposto sobre Produtos Industrializados e Serviços). A avaliação atual negocia com desconto histórico frente ao par Arca. No agronegócio, a 3tentos (TTEN3) apresenta tese de crescimento menos atrelada ao ciclo de commodities, projetando expansão média de 20% ao ano nos lucros nos próximos três ciclos, cotada a cerca de 9 vezes o lucro projetado para 2026.
O analista Pedro Pinto projeta desafios para o varejo doméstico no segundo semestre, citando recuo na confiança empresarial, consumo contraído e endividamento familiar. O MercadoLivre (MELI34) absorve a maior parte das revisões negativas, enquanto indicadores operacionais validam a tese de longo prazo. Na categoria de média capitalização, a Smart Fit (SMFT3) reduz incertezas sobre concorrência e precificação após os resultados do primeiro trimestre, com avanço operacional nas unidades brasileiras e na plataforma TotalPass. O setor de tecnologia (software) atrai preferência por negociar múltiplos mais baratos após o ajuste relacionado à inteligência artificial e pela natureza de serviços essenciais. A Totvs (TOTS3) registra forte demanda por ERP e cotas a aproximadamente 15 vezes o lucro de 2026, patamar 35% inferior à média histórica. A LWSA (LWSA3) complementa a tese com expansão de margens e valuation atrativo. Telefonia (Vivo/VIVT3 e TIM/TIMS3) permanece fora do radar devido à incerteza competitiva e ausência de gatilhos para reajustes.
Industrial, Saúde e Educação: Múltiplos e Geração de Caixa
Daniel Federle direciona a exposição industrial para ônibus em detrimento de caminhões, motivado pela alavancagem excessiva e volatilidade operacional dos fabricantes de pesados. A Marcopolo (POMO4) projeta receita com crescimento de 8% em 2026, sustentada por entregas do Ministério da Saúde e contrato integral no programa Caminho da Escola. O papel é cotado a 5,5 vezes o lucro projetado para 2026, com dividend yield de fluxo de caixa livre próximo a 9%. A WEG (WEGE3) segue com cautela devido a obstáculos de crescimento imediato e valuation elevado. A Embraer (EMBJ3) é vista como subvalorizada frente a preocupações macroeconômicas desproporcionais, com perspectiva de aumento de volumes, expansão de margens e possível revisão positiva do guidance (orientação financeira oficial) de 2026. O ativo negocia a aproximadamente 9,5 vezes o EV/Ebitda (Valor da Empresa sobre Ebitda) de 2026, representando deságio de 20% em relação à média de concorrentes globais.
Na saúde, Marcio Osako identifica assimetria positiva. A Raia Drogasil (RADL3) teve sua recente desvalorização considerada excessiva, dado o perfil defensivo e valuation abaixo da média histórica. A Mater Dei (MATD3) oferece atratividade em menor capitalização, com perspectiva de geração de caixa e expansão de resultados. Na educação, a Yduqs (YDUQ3) lidera a seleção com balanço saudável do primeiro trimestre, endividamento controlado e fluxo de caixa robusto. A Vitru (VTRU3) complementa a tese de menor porte com visibilidade para 2026, baixa alavancagem e atratividade na geração de recursos. No segmento imobiliário, a Cury (CURY3) se destaca pela rentabilidade, crescimento de lucro projetado e distribuição de proventos próxima a 10%. A Tenda (TEND3) apresenta risco-retorno favorável, lastreado na estabilidade do programa Minha Casa, Minha Vida e potencial de dividendos.
O que isso significa para o investidor
A reavaliação estratégica do Bradesco BBI reflete um mercado em transição de precificação. A janela de oportunidade identificada depende diretamente da manutenção de juros reais em patamares que não sufoquem o consumo e da estabilização cambial em torno da base projetada de R$ 5,00 por dólar. Para o investidor pessoa física, a configuração sugere a necessidade de realocação gradual de recursos de aplicações de renda fixa com vencimento para o terceiro trimestre de 2026 em direção a papéis de caixa livre elevado e múltiplos descontados. Cenários otimistas dependem da continuidade da queda na informalidade e da efetivação das sinergias de fusões anunciadas. Em contrapartida, um prolongamento do aperto monetário ou a materialização de choques de oferta globais podem pressionar as margens das companhias com menor poder de repasse. A estratégia exige monitoramento contínuo dos resultados trimestrais e da atualização das orientações de gestão.
Fatores de Risco
- Resolução acelerada do conflito no Irã, que pode alterar a dinâmica de preços do petróleo e afetar a competitividade do segmento downstream.
- Manutenção da Selic em níveis restritivos por período prolongado, pressionando o custo de dívida e o endividamento das famílias, com impacto direto no varejo e na construção civil.
- Efeitos da tributação IEPS no México sobre a recuperação volumétrica e a elasticidade-preço da demanda por bebidas.
- Retomada cíclica dos preços de celulose abaixo de US$ 550 por tonelada, o que exigiria maior eficiência operacional para sustentar os yields projetados.
- Incerteza regulatória no setor elétrico e saneamento, que pode impactar a previsibilidade de investimentos e a remuneração do capital investido.
Os catalisadores imediatos concentram-se nos relatórios de resultados do primeiro semestre de 2026, na confirmação das revisões de estimativas de lucro e na execução dos cronogramas de fusão e expansão de capacidade. A trajetória do câmbio e a sinalização do Banco Central sobre a curva de juros permanecem como vetores macroeconômicos determinantes para a validação das teses de investimento.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
