O Banco do Brasil (BBAS3) encerrou a temporada de resultados dos grandes bancos com uma nova rodada de indicadores abaixo do esperado, refletindo um ciclo de crédito significativamente mais exigente. Na sessão matutina, os papéis despencaram 3,42%, cotados a R$ 20,05, após a instituição estatal divulgar lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões para o primeiro trimestre de 2026. O número representa retração de 53,5% ante o mesmo período de 2025 e queda de 40,2% na comparação sequencial, ficando ligeiramente abaixo do consenso de mercado, que projetava R$ 3,495 bilhões. A presidente-executiva, Tarciana Medeiros, atribuiu o desempenho a um ambiente desafiador para o risco de crédito, com pressão concentrada, mas não restrita, à carteira de agronegócio.
Resultados do 1T26 e Dinâmica da Carteira de Crédito
O balanço apresenta um quadro misto, onde o crescimento do volume concedido contrasta com a deterioração da qualidade dos ativos. A carteira de crédito expandida atingiu R$ 1,3 trilhão ao final de março, avançando 2,2% na base anual e 0,7% frente a dezembro de 2025. Em contrapartida, o indicador de inadimplência com atraso superior a 90 dias, conhecido como NPL (Non-Performing Loans, ou carteira vencida que indica dificuldade de pagamento), escalou para 5,05%. O patamar representa aumento expressivo frente aos 3,63% registrados um ano antes, ainda que mostre leve recuo em relação aos 5,17% de dezembro de 2025. As receitas, contudo, mantiveram-se como ponto de apoio: a NII (Receita Líquida de Juros, que mede o diferencial entre o rendimento dos ativos e o custo dos passivos) ficou 4% acima da projeção da XP Investimentos, com revisão positiva em seu próprio guidance. A deterioração da qualidade de crédito, no entanto, consumiu esse fôlego e elevou o custo de provisão.
| Indicador | 1T26 | Variação Trimestral | Variação Anual |
|---|---|---|---|
| Lucro Líquido Ajustado | R$ 3,4 bilhões | -40,2% | -53,5% |
| Carteira de Crédito Expandida | R$ 1,3 trilhão | +0,7% | +2,2% |
| Inadimplência (> 90 dias) | 5,05% | -0,12 p.p. (vs dez/25) | +1,42 p.p. |
Revisão do Guidance e Pressão Estrutural no Agronegócio
A mensagem mais relevante para o mercado veio das projeções oficiais (guidance, termo que designa as estimativas de resultados divulgadas pela administração para o ano corrente). O Banco do Brasil reduziu sua meta de lucro líquido para 2026 para uma faixa de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões, abandonando o patamar anterior de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões. O ponto médio de R$ 20 bilhões situa-se aproximadamente 10% abaixo do consenso de analistas. Paralelamente, a instituição elevou sua estimativa para o custo de crédito (despesas contábeis constituídas para cobrir perdas esperadas em empréstimos) no ano para R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões, ampliando significativamente o intervalo prévio de R$ 53 bilhões a R$ 58 bilhões. Nos três primeiros meses, o custo de crédito já atingiu R$ 18,9 bilhões, salto de 85,8% ano a ano e alta de 5% no trimestre.
A Genial Investimentos e a XP Investimentos destacam que a dinâmica no segmento rural exige monitoramento ampliado. As recuperações judiciais reaceleraram, somando cerca de R$ 650 milhões apenas em abril. No primeiro trimestre, foram 162 processos, enquanto abril já registrou 61 novos casos; ritmo que, se anualizado, retornaria aos níveis do segundo trimestre de 2025. A safra 26/27 apresenta assimetria de risco negativa, e a maior parte dos vencimentos relevantes até julho refere-se a safras anteriores a julho de 2025, originadas em contexto de qualidade de crédito inferior. O crescimento da carteira continua concentrado em Pessoa Física, com expansão de 7,8% na base anual. Esse segmento responde por aproximadamente 49% do fluxo de perda esperada e demanda provisionamentos mais elevados. Os índices iniciais de inadimplência de pessoa física já avançaram quase 0,90 ponto percentual frente ao quarto trimestre de 2025 e 2 pontos na comparação anual, sugerindo pressão adicional adiante. O ponto de aprovação de R$ 465,7 milhões em proventos pelo banco foi mantido, mas o foco do mercado permanece na rentabilidade futura.
Visão das Corretoras e Multiplos de Valuation
O JPMorgan alertou para o impacto na credibilidade da administração, visto que esta é a quinta revisão consecutiva do guidance desde o primeiro trimestre de 2025, feita poucas semanas após o Dia do Investidor da instituição. A casa americana nota que a projeção revisada implica, no ponto médio, recuperação de mais de 50% em relação à taxa de execução atual de R$ 3,4 bilhões. O JPMorgan projeta R$ 20,6 bilhões para o ano, enquanto o mercado ainda trabalha com R$ 22,5 bilhões. A instituição também aponta distorções contábeis: vendas de carteiras impactaram descontos concedidos em R$ 3,5 bilhões, contaminando indicadores de formação de inadimplência. O impacto das renegociações da Medida Provisória 1314 também permanece nebuloso. O Morgan Stanley classificou o trimestre como decepcionante, impulsionado pelo maior custo do risco e despesas operacionais, com a maioria dos KPIs (Key Performance Indicators, ou indicadores-chave de desempenho) fracos. O ponto médio da projeção de lucro ficou 11% abaixo do consenso.
A compilação da LSEG mostra que, entre dez casas de análise, 6 mantêm recomendação de manutenção, 2 recomendam venda e apenas 2 sugerem compra. A XP reforça a posição neutra, citando baixa visibilidade e negociação do papel a cerca de 6 vezes o múltiplo de preço sobre lucro (P/L, razão que divide a cotação pelo lucro por ação estimado) para 2026. A Genial projeta ROE (Return on Equity, ou retorno sobre o patrimônio líquido, métrica que mede a eficiência na geração de lucro a partir do capital dos acionistas) próximo de 10% em 2026, patamar abaixo do custo de capital. A expectativa é que as ações continuem abaixo de 1 vez o valor patrimonial por ação (P/VP) por mais tempo. O preço-alvo da Genial é R$ 23,30. O Bradesco BBI e o JPMorgan mantêm recomendação neutra, com alvo do BBI em R$ 21. O Goldman Sachs mantém alvo de R$ 21, mas com recomendação de venda.
O que isso significa para o investidor
O cenário atual impõe um ajuste de expectativas para quem acompanha o banco estatal. A revisão agressiva do guidance indica que a normalização do ciclo rural será mais lenta do que o mercado precificava inicialmente. Para o investidor pessoa física, a leitura deve considerar que a deterioração da qualidade de crédito não é um evento isolado, mas um processo em expansão que afeta diretamente as margens e a capacidade de distribuição de resultados. O múltiplo de 6 vezes o lucro de 2026 reflete um desconto severo, mas a falta de visibilidade sobre o novo patamar estrutural de rentabilidade pós-ciclo do agro limita o potencial de valorização de curto prazo. A volatilidade eleitoral mencionada pelo JPMorgan adiciona uma camada de incerteza macro, podendo impactar o sentimento do mercado e a disponibilidade de capital para o setor bancário. A relação com os indicadores macroeconômicos, como a Selic e o ritmo do crédito, permanece intrínseca: se os juros permanecerem em patamares restritivos, a pressão sobre a inadimplência e o custo de captação tende a se prolongar, dificultando a recomposição do ROE.
Riscos em Destaque
- Prolongamento da assimetria de risco negativa na safra 26/27 e reaceleração de recuperações judiciais no agronegócio.
- Pressão estrutural na inadimplência de pessoa física, que responde por 49% do fluxo de perda esperada e exige provisionamentos robustos.
- Deterioração contínua da credibilidade da gestão devido às cinco revisões consecutivas de projeções desde 1T25.
- Incerteza sobre o impacto permanente da Resolução 4.966 nas regras de provisionamento e capital regulatório.
- Volatilidade eleitoral e possível restrição de liquidez no mercado de capitais, limitando a recomposição de múltiplos.
- Distorções contábeis decorrentes de vendas de carteiras com impacto de R$ 3,5 bilhões em descontos, que dificultam a leitura limpa da formação de NPLs.
Perspectiva e Próximos Passos
O acompanhamento deve priorizar a estabilização dos indicadores de qualidade de crédito ao longo do segundo semestre, especialmente os vencimentos concentrados até julho e o comportamento das renegociações agro sob a MP 1314. O mercado aguardará sinais claros de que o ciclo de inadimplência atingiu seu pico e que a gestão consegue executar o ponto médio da nova projeção de R$ 20 bilhões sem novas revisões. A recuperação do ROE para patamares acima do custo de capital e a resposta aos novos requisitos da Resolução 4.966 serão os catalisadores fundamentais para uma reavaliação sustentável dos papéis. Investidores devem monitorar os comunicados trimestrais, as atas do Comitê de Crédito e a evolução dos indicadores macro de risco setorial para calibrar suas posições com base na materialização dos fluxos de provisão.
