O advogado Marcelo Trindade, ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), escolheu o IV Congresso de Direito de Fundos de Investimento — promovido pela Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), em 22 de outubro de 2026 — para deslocar o eixo do debate sobre o caso Banco Master. Na avaliação dele, a autarquia do mercado de capitais foi transformada em bode expiatório enquanto o supervisor com poder de agir antes, o Banco Central, permaneceu em segundo plano.

Trindade sustenta que o Banco Central reunia os instrumentos necessários para enxergar o problema antes que ele eclodisse. A supervisão prudencial, explica ele, é a rotina de acompanhar a saúde financeira das instituições — e é nela que se espera o questionamento sobre o ritmo de crescimento de um banco e sobre o preço atribuído aos ativos que ele carrega.

Fundos no noticiário, supervisão bancária fora do radar

Desde que o caso veio a público, a atenção se concentrou nos fundos de investimento que o Banco Master usava para carregar papéis de avaliação difícil, os chamados ativos podres. Parte das análises passou a atribuir a esses veículos — e à CVM — a demora em identificar os problemas. O ex-presidente da autarquia recusa essa chave de leitura e afirma que a pergunta foi mal colocada: o que está em jogo não é o tempo de reação da indústria de fundos, mas a ausência de cobrança sobre quem acompanha os bancos.

Os instrumentos que o BC já tinha, segundo o ex-presidente da CVM

Na visão do advogado, a legislação brasileira assegura ao Banco Central acesso amplo aos dados de aplicações e investimentos mantidos por instituições financeiras, além de prever canais formais de cooperação com a CVM. Daí a conclusão que ele extrai: a informação sobre os ativos estava ao alcance do supervisor bancário, mesmo quando os veículos envolvidos estavam sob regulação da autarquia do mercado de capitais.

Frente de supervisãoA quem a fonte atribui
Saúde financeira das instituiçõesBanco Central
Regulação dos fundos de investimentoCVM
Acesso a dados de ativos mantidos em fundosBanco Central, segundo Trindade
Cooperação entre os dois órgãosPrevista em lei, segundo Trindade

Com esse acesso, argumenta, o BC teria base para questionar a precificação das posições do Banco Master e o avanço acelerado da instituição muito antes de o tema virar escândalo. É um ponto que desloca a discussão do desenho jurídico dos veículos para a prática cotidiana de fiscalização — terreno em que o supervisor bancário, na leitura dele, dispõe de mandato e de ferramentas.

O que a CVM admite — e por que, para ele, isso não fecha a conta

Trindade não blinda a própria casa. Reconhece que a fiscalização de fundos tem flancos a corrigir, entre eles estruturas que aplicam em cotas de outros fundos — os fundos de fundos — e casos de documentação incompleta. O ponto dele é que essas deficiências não são a origem do problema do Banco Master. O que falhou foi a cobrança sobre a saúde do banco, e não o desenho dos veículos que ele utilizava.

Pix, fundos e a lógica de atribuir a falha ao instrumento

Para dar corpo ao raciocínio, o advogado recorreu aos golpes praticados no Pix. A existência de fraudes não indica defeito no sistema de pagamentos instantâneos, ainda que o criminoso se sirva dele. Transportado para o caso em discussão, o argumento leva à conclusão de que o uso dos fundos por uma instituição não contamina o instrumento nem desloca para ele a responsabilidade pela crise.

O que muda para quem tem cota de fundo

Para o investidor pessoa física com dinheiro em fundos, o ponto sensível do episódio não é o rótulo de quem supervisiona, mas a capacidade de o supervisor identificar risco antes que ele apareça no preço da cota. O vetor relevante, numa carteira diversificada, é a assimetria de informação entre quem estrutura o fundo e quem compra a cota — e essa distância encurta ou aumenta conforme a rotina de fiscalização funciona.

Se o diagnóstico de Trindade ganhar tração no debate regulatório, o escrutínio tende a migrar do desenho dos fundos para a qualidade dos ativos que os lastreiam e para o acompanhamento da saúde das instituições que os estruturam — uma frente que, historicamente, costuma anteceder ajustes em exigências de transparência e em rotinas de fiscalização.

A ponderação necessária é que se trata da leitura de um ex-dirigente do regulador que hoje é criticado, e não de um consenso. As duas versões — falha na supervisão de fundos e falha na supervisão bancária — seguem em campo no debate público sobre o caso.

A agenda que o caso coloca na mesa

Para o ex-presidente da CVM, o episódio deveria servir de ponto de partida para uma revisão mais ampla da arquitetura regulatória, envolvendo Banco Central, CVM e os mecanismos de acompanhamento do mercado. No relato do painel não há proposta formal, minuta ou prazo — o que ficou entregue foi o diagnóstico e a provocação ao setor.

O que observar daqui em diante:

  • Se o eixo do debate público sai do papel dos fundos e passa para a supervisão prudencial dos bancos.
  • Como os canais de cooperação entre BC e CVM citados por Trindade são operados na prática.
  • Se a discussão evolui para mudanças nas exigências de informação sobre os ativos que compõem as carteiras dos fundos.