A temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026 foi encerrada na quarta-feira, 13, revelando um cenário de desempenho heterogêneo e, em diversos casos, aquém das expectativas para os quatro maiores bancos listados na B3. O dado de maior impacto imediato veio do Banco do Brasil, que reportou uma retração de 54% no lucro líquido, sinalizando um ajuste estrutural forçado por revisões de projeções e pressões setoriais. A leitura agregada indica que, mesmo instituições com trajetórias de recuperação recente enfrentam testes significativos na alocação de capital e na geração de receitas.

Banco do Brasil: revisão de margens e exposição climática

Os números apresentados pelo Banco do Brasil (BBAS3) foram classificados como fracos pela análise de mercado. A instituição revisou para baixo sua estimativa de lucro líquido para o ano-calendário, ajustando a faixa de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões para um novo intervalo entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões. Essa correção reflete um ambiente desafiador para a qualidade dos ativos, com o Bank of America (BofA) sinalizando postura cautelosa e identificando riscos de novas baixas nas estimativas. Paralelamente, o fenômeno climático Super El Niño surge como variável crítica, ameaçando a produção agrícola e pressionando potencialmente os resultados da companhia estatal e do setor de seguros correlato. Mesmo com o balanço considerado abaixo da curva, as ações BBAS3 encerraram a sessão seguinte à divulgação com estabilidade.

Bradesco e Santander: disciplina de custos sob teste de provisões

O Bradesco (BBDC4) manteve sua tendência de melhora contínua, registrando alta no retorno sobre patrimônio (ROE, indicador que mensura a rentabilidade em relação ao capital próprio investido pelos acionistas) e no lucro líquido pelo nono trimestre consecutivo. A recuperação operacional apoia-se em expansão de receitas, ganhos de eficiência e aporte robusto da área de seguros. Contudo, as despesas de provisão (reservas contábeis constituídas para cobrir perdas esperadas com operações de crédito inadimplentes) superaram em 10% a expectativa do BofA, levantando alertas sobre pressão na qualidade de crédito e consumo de capital. No dia 7 de maio, o mercado precificou essas tensões com os papéis fechando em queda de 3,89%, a R$ 18,52.

Na mesma linha de resultados abaixo do consenso, o Santander Brasil (SANB11) reportou lucro líquido recorrente de R$ 3,8 bilhões. O montante representa recuo de 7% frente ao quarto trimestre de 2025 e contração de 1,9% na comparação anual, ficando cerca de 6% abaixo da mediana das estimativas. A rentabilidade também cedeu espaço, com o ROE recuando para 15,7%, em contraste com 17,2% no trimestre anterior e 17,0% um ano antes. O JPMorgan ressalta que o desempenho já era precificado pelo mercado, dado o histórico recente de subperformance frente a pares diretos. Na sessão de divulgação, SANB11 recuou 2,65%, negociado a R$ 28,64.

InstituiçãoMétrica PrincipalVariação / DesvioReação de Mercado
Bradesco (BBDC4)ROE e lucro em alta (9º tri)Provisões +10% vs consensoR$ 18,52 (-3,89%)
Santander (SANB11)Lucro recorrente de R$ 3,8 bi-7% QoQ / -1,9% YoYR$ 28,64 (-2,65%)
Itaú (ITUB4)EBT 2% abaixo do esperadoLucros estáveis trimestralmenteR$ 41,78 (-1,60%)

Itaú Unibanco: estabilidade e controle de inadimplência

O Itaú (ITUB4) apresentou dados considerados positivos, embora tenha registrado desaceleração no lucro líquido, reflexo de geração de receita mais modesta e aumento das provisões. O lucro antes de impostos (EBT, métrica que avalia o resultado operacional antes do recolhimento de tributos) ficou 2% abaixo das projeções do JPMorgan, mantendo os lucros praticamente estáveis na variação trimestral. O diferencial destacado pelos analistas reside na métrica de inadimplência (percentual de operações com atraso superior a 90 dias), que se mantém próxima da metade da média setorial para a maioria das linhas de produtos. Essa solidez operacional sustentou recomendações de compra por parte de Genial e Goldman Sachs, mas não evitou a aversão temporária do mercado, com os ativos encerrando em baixa de 1,60%, cotados a R$ 41,78.

O que isso significa para o investidor

O quadro do primeiro trimestre de 2026 desenha um ambiente de seletividade para a renda variável bancária. A disciplina de custos e o crescimento orgânico de receitas, observados em Bradesco e Itaú, atuam como amortecedores diante da normalização do crédito. Para o investidor pessoa física, a análise deve focar na capacidade de cada instituição de absorver choques provisionais sem comprometer a política de distribuição de proventos. Cenários macroeconômicos com taxa Selic em patamares restritivos tendem a favorecer a margem financeira, ao passo que uma inflação (IPCA) mais persistente pode pressionar a inadimplência nas camadas de menor renda. A postura do mercado indica que resultados consistentes serão precificados, mas falhas pontuais na qualidade de ativos geram volatilidade imediata.

Riscos mapeados

  • Pressão na qualidade dos ativos e aumento de provisões para devedores duvidosos, especialmente no Bradesco e no Santander Brasil.
  • Impacto do fenômeno climático Super El Niño sobre a carteira do agronegócio e as operações da área de seguros do Banco do Brasil.
  • Consumo acelerado de capital regulatório, limitando a capacidade de expansão de crédito ou manutenção de dividendos acima da média.
  • Desaceleração da receita de crédito em um cenário de política monetária restritiva e concessão mais seletiva.

Para os próximos ciclos, o mercado monitorará a evolução dos índices de inadimplência no segundo trimestre e o cumprimento das novas faixas de lucro projetadas, com foco especial nos relatórios de risco de crédito e na performance das carteiras corporativas e varejistas sob a ótica do Banco Central.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.