Os quatro maiores bancos do sistema financeiro nacional elevaram drasticamente suas reservas para perdas creditícias no início do ano, registrando R$ 44,8 bilhões em despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD) entre janeiro e março. O montante representa um salto de 33% na comparação com igual período do ano anterior, refletindo a combinação de um ciclo monetário restritivo, incertezas geopolíticas e a entrada em vigor de novas regras contábeis que antecipam o reconhecimento de riscos.

Transmissão Monetária e Regras Contábeis

O ambiente macroeconômico atua como pano de fundo para os ajustes nos balanços. A taxa Selic, levada ao patamar recorde de 15%, ainda ecoa nos orçamentos de famílias e corporações por meio do efeito defasado da política monetária. A eclosão do conflito no Oriente Médio e a consequente disparada nos preços do petróleo adicionam camadas de complexidade ao cenário, ao mesmo tempo em que retardam o ritmo esperado de afrouxamento da política monetária pelo Banco Central.

Paralelamente ao fator conjuntural, a Resolução CMN 4.966 do Conselho Monetário Nacional introduziu um novo paradigma para o setor. O normativo exige a antecipação do reconhecimento de perdas esperadas e endurece os critérios de classificação de risco, o que, por si só, eleva mecanicamente o volume de provisões e os indicadores de inadimplência reportados. A fórmula de custo de crédito — que desconta valores recuperados de créditos já baixados para oferecer uma leitura mais fidedigna do provisionamento — capta essa dinâmica com precisão.

“Estamos em um momento de inflexão do ciclo, com o efeito atrasado da política monetária. Isso ainda deve causar algum dano ao longo de um período”, avalia o analista Nícolas Merola, da EQI Research.

Foco no Agronegócio: O Caso Banco do Brasil

A deterioração não foi homogênea entre as instituições. O Banco do Brasil (BBAS3) concentrou a maior pressão, constituindo R$ 18,9 bilhões em custo de crédito no trimestre, uma expansão anual de 86%. Desde o segundo semestre do ano passado, a instituição enfrenta turbulências em sua carteira mais expressiva, o agronegócio, impactada pela volatilidade das commodities e pela recorrência de eventos climáticos adversos.

Indicador1T (Atual)1T (Ano Anterior)
Custo de Crédito TotalR$ 18,9 bilhõesBase de cálculo para alta de 86%
Inadimplência Rural (>90 dias)6,22%2,76%
Provisão para o AgronegócioR$ 7,4 bilhõesNão divulgado
Recuperação Esperada vs. ObtidaR$ 2,0 bi – R$ 2,5 bi (meta)R$ 1,2 bilhão (realizado)

A carteira rural foi diretamente responsável por R$ 7,4 bilhões de todo o provisionamento. A expectativa de recuperação de ativos situava-se entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões, mas a instituição concretizou apenas R$ 1,2 bilhão. A pressão se estende à carteira de pessoa física, onde o endividamento das famílias avança. O vice-presidente de Gestão Financeira do BB, Geovanne Tobias, admitiu que a recuperação de ativos ainda não ganhou tração e que as esteiras de negociação estão passando por normalização, o que motivou o reforço antecipado nas provisões, com ênfase no segmento de cartões de crédito.

Qualidade de Crédito nos Bancos Privados

As instituições privadas também apresentaram deterioração nos indicadores de qualidade, ainda que em magnitudes distintas. O Santander (SANB11) reportou o movimento mais acentuado, com sua taxa de inadimplência (acima de 90 dias) avançando 0,6 ponto percentual em doze meses, atingindo 3,3%. No Bradesco (BBDC4), a elevação foi de 0,1 ponto percentual, enquanto o Itaú Unibanco (ITUB4) manteve a estabilidade em 1,9%.

Mesmo com a estabilidade no agregado do Itaú, a métrica avançou mecanicamente para micro, pequenas e médias empresas devido ao encerramento do período de carência de linhas apoiadas pelo Fundo Garantidor de Investimentos (FGI). O presidente Milton Maluhy Filho projeta um avanço adicional de 0,1 a 0,2 ponto percentual nos próximos meses, embora ressalte que os patamares permanecem inferiores aos ciclos históricos e que a perda esperada segue alinhada às projeções. No Bradesco, o custo de crédito atingiu 3,5% e deve girar próximo a 3,3% ao longo do exercício. Analistas do Citi alertam que qualquer retrocesso nessa linha pode comprometer a trajetória gradual de expansão do RoE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido), indicando que o crédito para o varejo de massa continuará demandando volume expressivo de provisões.

No Santander, o CEO Mario Leão afastou preocupações estruturais, mas monitora atentamente pequenas empresas, agronegócio e portfólios específicos de cartões. Para o agro, a expectativa é de melhora gradual em 2026 em relação a 2025. Leão encontra-se em processo de sucessão para entregar o cargo a Gilson Finkelsztain, atual presidente da B3.

Grandes Corporações e Políticas Públicas

Na carteira de grandes empresas, operações isoladas pressionaram os resultados. Embora o sigilo bancário impeça a divulgação nominal, o mercado identifica dificuldades em grupos como Pão de Açúcar e Raízen, que protocolaram pedidos de recuperação extrajudicial recentemente. Esses ruídos corporativos reforçam a necessidade de constituição de reservas.

No nível macro, o Banco Central reportou que a inadimplência total do crédito no Brasil atingiu 4,3% em março, contra 3,3% um ano antes. Para mitigar a pressão social e financeira, o governo federal lançou uma nova edição do programa Desenrola. A iniciativa atende trabalhadores com renda mensal de até cinco salários mínimos e débitos limitados a R$ 15 mil, com atrasos entre 90 dias e dois anos. Os descontos podem chegar a 90%, lastreados por garantias do Fundo Garantidor de Operações (FGO).

A iniciativa foi acolhida pelo setor, mas instituições estimam impacto limitado nos grandes bancos. O JPMorgan avalia que, embora não resolva estruturalmente a alavancagem das famílias, o programa facilita a recuperação parcial de créditos deteriorados. A instituição americana aponta o Nubank (BDR: ROXO34) como o principal beneficiário da medida.

O que isso significa para o investidor

O aumento expressivo nas provisões sinaliza que o ciclo de crédito entrou em uma fase de maior exigência de capital. Para o investidor pessoa física, isso se traduz em um período de transição onde a rentabilidade dos bancos pode ser comprimida temporariamente pela necessidade de proteger o balanço contra inadimplências futuras. A dinâmica entre juros elevados, transmissão defasada e regras contábeis mais rigorosas cria um ambiente onde a qualidade da carteira de crédito se torna o principal vetor de avaliação.

Cenários otimistas pressupõem que o pico da Selic a 15% já esteja totalmente precificado e que a normalização do Desenrola, aliada à recuperação lenta da renda, contenha a escalada da inadimplência. Em um cenário mais conservador, a persistência do estresse no agronegócio e a deterioração no crédito de varejo de massa podem manter o custo de crédito pressionado por mais trimestres, exigindo paciência na análise dos indicadores de capitalização e fluxo de caixa dos emissores.

Riscos Estruturais e Conjunturais

  • Ciclo Monetário Prolongado: A manutenção dos juros em patamares restritivos por mais tempo que o esperado pode elevar o custo do serviço da dívida para famílias e empresas, alimentando novos calotes.
  • Pressão no Agronegócio: Volatilidade cambial, preços de commodities e eventos climáticos extremos continuam ameaçando a saúde da carteira rural, especialmente em bancos com alta concentração no setor.
  • Regulamentação Contábil: A aplicação integral da CMN 4.966 tende a elevar a volatilidade reportada dos indicadores de inadimplência e exigir maior capital regulatório.
  • Geopolítica e Inflação: Conflitos internacionais e choques no preço do petróleo podem frear cortes futuros na Selic, prolongando o ciclo restritivo e impactando a capacidade de pagamento dos tomadores de crédito.

A observação contínua do custo de crédito, da evolução das carteiras de varejo e agro, e dos desdobramentos do novo Desenrola será determinante para calibrar as expectativas de retorno e a alocação de capital nos próximos trimestres.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.