O cenário para o setor bancário brasileiro no primeiro trimestre de 2026 (1T26) apresenta-se como um divisor de águas entre a resiliência operacional e os desafios impostos pela manutenção da taxa Selic em patamares elevados por um período prolongado. Conforme relatório recente do Goldman Sachs, o mercado deve voltar suas atenções para o ciclo de crédito, que apresenta sinais de deterioração em frentes específicas, como o endividamento das famílias e o estresse no segmento corporativo e rural. Dentro desse panorama, o Itaú Unibanco (ITUB4) emerge como a instituição mais protegida, enquanto o Banco do Brasil (BBAS3) deve enfrentar o trimestre mais desafiador do grupo de incumbentes.

A Dinâmica de Juros Altos e o Desafio do Crédito em 2026

A persistência de juros restritivos no Brasil tem gerado um impacto direto na capacidade de pagamento dos tomadores de crédito. Os analistas do Goldman Sachs apontam que o principal debate da temporada de balanços será a qualidade dos ativos. Três pilares sustentam essa preocupação: o aumento da alavancagem das famílias (relação entre dívida e renda), a fragilidade das condições para o crédito ao consumidor e o risco de estresse em empréstimos para grandes empresas. Além disso, a deterioração do crédito rural é apontada como um fator crítico, afetando de forma desproporcional as instituições com maior exposição ao agronegócio.

Abaixo, detalhamos as projeções de rentabilidade, medida pelo ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido), que reflete a eficiência do banco em gerar lucro a partir do capital próprio investido pelos acionistas. A disparidade entre os líderes e retardatários é evidente nas projeções das principais casas de análise.

Instituição FinanceiraTickerProjeção de Lucro Líquido (GS/BBA)ROE Projetado (1T26)
Itaú UnibancoITUB4R$ 12,3 bilhões24,9%
Santander BrasilSANB11R$ 4,0 bilhões16,7%
BradescoBBDC4R$ 6,7 bilhões15,3%
Banco do BrasilBBAS3R$ 3,0 - 3,8 bilhões8,5%

Itaú Unibanco (ITUB4): A Fortaleza da Resiliência

O Itaú Unibanco (ITUB4) deve confirmar sua posição de destaque com um lucro projetado de R$ 12,3 bilhões, representando um crescimento de 10% na comparação anual. O banco desafia a sazonalidade negativa do primeiro trimestre, período em que historicamente há menores receitas com tarifas de desempenho e cartões de crédito. O Goldman Sachs projeta um ROE de 24,9%, um patamar significativamente superior aos seus pares privados e estatais.

Um ponto de atenção para o investidor é a NII (Margem Financeira Líquida) com clientes, que deve permanecer estável. A NII representa a diferença entre os juros que o banco cobra ao emprestar dinheiro e os juros que ele paga para captar recursos. Apesar dos dividendos robustos pagos no trimestre anterior terem reduzido o capital de giro, a recuperação na NII de mercado deve compensar essa pressão. As PDD (Provisões para Devedores Duvidosos) — reservas financeiras que os bancos mantêm para cobrir eventuais calotes — devem subir 2% sequencialmente, mas permanecem sob controle, refletindo uma gestão de risco conservadora.

Bradesco (BBDC4): Sinais de Recuperação e Foco em Eficiência

O Bradesco (BBDC4), sob análise do Itaú BBA, deve apresentar melhorias consistentes em sua execução operacional. A projeção é de um lucro recorrente de R$ 6,7 bilhões, uma alta de 14% em relação ao primeiro trimestre do ano anterior. O mercado observa atentamente o avanço da carteira de empréstimos, que deve manter um ritmo de crescimento de 10% ao ano, impulsionando a margem financeira.

As despesas com SG&A (Despesas Gerais e Administrativas), que englobam custos com pessoal e administração, devem mostrar desaceleração, gerando ganhos de eficiência operacional. O segmento de seguros, historicamente um braço forte do Bradesco, deve iniciar o ano com crescimento de dois dígitos. Um catalisador específico para a ação é o acordo com a Bradsaude, cujos detalhes sobre o impacto no Índice CET1 (Capital Principal Nível 1) — indicador que mede a solvência e a força do capital do banco — são aguardados pelos analistas.

Santander Brasil (SANB11): Equilíbrio entre Tesouraria e Risco Corporativo

O Santander Brasil (SANB11) abre a temporada em 29 de abril com uma expectativa de lucro líquido de R$ 4,0 bilhões. Embora a margem financeira de mercado ainda apresente resultados negativos, há uma tendência de melhora gradual ao longo de 2026. A alíquota efetiva de imposto deve se normalizar para o patamar de 12,5%, após ter atingido apenas 2,5% no último trimestre de 2025 devido a benefícios tributários.

O risco de queda (downside) reside nas provisões, especialmente pela exposição do banco a casos específicos de crédito corporativo. O Itaú BBA projeta um custo de risco de aproximadamente R$ 6,5 bilhões, influenciado pela sazonalidade de inadimplência em pessoas físicas e Pequenas e Médias Empresas (PMEs). O ROE deve situar-se em 16,7%, uma leve contração frente aos períodos anteriores.

Banco do Brasil (BBAS3): O Desafio do Crédito Rural

O Banco do Brasil (BBAS3) surge como o ponto de maior preocupação para os analistas nesta temporada. Com um lucro projetado entre R$ 3,0 bilhões e R$ 3,8 bilhões, a instituição deve reportar uma queda expressiva de quase 50% na comparação anual, segundo estimativas do Bradesco BBI. O principal vilão é a deterioração do crédito agropecuário, setor onde o banco possui liderança absoluta.

As provisões para perdas com empréstimos devem permanecer elevadas, alcançando R$ 17,4 bilhões na visão do Itaú BBA. Além do agronegócio, o banco enfrenta pressões na receita de tesouraria e o fim de efeitos tributários não recorrentes que inflaram os resultados passados. Com um ROE projetado de apenas 8,5% pelo Goldman Sachs, o BB precisará de uma aceleração substancial nos trimestres seguintes para cumprir seu guidance (projeção oficial) anual de lucro, situado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física, a temporada do 1T26 reforça a necessidade de seletividade no setor bancário. O cenário de juros altos, que outrora beneficiava uniformemente os spreads (diferença entre juros de captação e empréstimo), agora atua como uma faca de dois gumes, pressionando a inadimplência.

  • Itaú (ITUB4): Mantém-se como a opção defensiva por excelência, com rentabilidade muito acima do custo de capital e provisões controladas.
  • Bradesco (BBDC4): Representa uma tese de recuperação operacional (turnaround) que começa a dar frutos na eficiência e no braço de seguros.
  • Santander (SANB11): Exige cautela quanto à exposição ao crédito corporativo e PMEs, com rentabilidade em fase de normalização.
  • Banco do Brasil (BBAS3): O momento requer atenção redobrada à carteira agro. A queda expressiva no ROE pode afastar investidores que buscam dividendos imediatos, uma vez que a base de lucro para distribuição será menor.

Fatores de Risco no Horizonte Bancário

As projeções das casas de análise baseiam-se em variáveis que podem sofrer alterações conforme o desenrolar do trimestre. Os riscos estruturais citados incluem:

  • Crédito Rural: Eventos climáticos ou queda nos preços das commodities podem agravar a inadimplência no agro, impactando severamente o Banco do Brasil.
  • Sazonalidade: O primeiro trimestre possui menos dias úteis e concentra despesas de pessoal e administrativas, além de menor volume de transações em cartões e serviços.
  • Alíquota de Imposto: Mudanças na utilização de JCP (Juros sobre Capital Próprio) ou ajustes na base de cálculo de CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) podem alterar o lucro líquido final.
  • Crédito Corporativo: Riscos de estresse financeiro em grandes empresas podem exigir provisões extraordinárias (não recorrentes).

Perspectiva e Próximos Passos

O investidor deve acompanhar o calendário de divulgação, que se inicia em 29 de abril com o Santander e encerra com o Banco do Brasil em 13 de maio. Mais do que o lucro nominal, o mercado reagirá à qualidade das carteiras de crédito e às sinalizações dos executivos sobre o restante de 2026. A manutenção de um cenário de Selic elevada exigirá que os bancos demonstrem capacidade de crescer sem comprometer a saúde do balanço, tornando a execução operacional o principal diferencial competitivo desta temporada.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.