Em recente declaração pública ao canal Primo Rico, o megainvestidor Luiz Barsi confirmou que o Banco do Brasil (BBAS3) saiu temporariamente de sua lista de compras. A decisão, tomada após mais de meio século de investimentos na instituição, reflete uma avaliação criteriosa sobre o preço atual da ação em relação ao patrimônio líquido da companhia, além de um posicionamento pessoal sobre o cenário político-econômico e os impactos da crise no setor agropecuário. O movimento do chamado "Rei dos Dividendos" levanta discussões importantes sobre alocação de capital, valorização de papéis e a busca por proventos consistentes no mercado brasileiro.

Avaliação Patrimonial e a Pausa no Banco do Brasil (BBAS3)

Barsi destacou que, em sua visão analítica, o Banco do Brasil deveria ser negociado acima do seu valor patrimonial. O indicador Preço sobre Valor Patrimonial (P/VP) mede quanto o mercado está pagando pela conta contábil de uma empresa. De acordo com os cálculos do investidor, a ação do BB possui um valor patrimonial estimado em R$ 32, enquanto no mercado a cotação gira abaixo de R$ 20 na B3. Barsi reforçou que essa decisão de não ampliar a posição é uma "opinião muito pessoal", mas demonstra seu foco rígido em comprar ativos descontados em relação aos fundamentos contábeis, mesmo diante da recente queda do papel.

Crise no Agronegócio e Pressão no Lucro e Payout

A desvalorização recente das ações do BBAS3 está diretamente atrelada a um ciclo desafiador para o setor agropecuário. A alta da inadimplência entre produtores rurais obrigou a instituição a elevar as provisões para perdas, o que impactou diretamente o lucro líquido e o payout (percentual do lucro distribuído aos acionistas nos últimos trimestres). A avaliação de casas de análise, como o Itaú BBA, aponta que o setor ainda não superou o pior momento, o que justifica a cautela de investidores focados em resultados trimestrais consistentes e previsibilidade de proventos no curto prazo.

Comparativo de Dividendos: Governo Lula x Governo Bolsonaro

Apesar da cautela recente, os dados oficiais revelam um desempenho robusto dos proventos do banco no cenário atual. Um levantamento da Elos Ayta Consultoria mostra que, entre 2019 e 2022 (gestão de Jair Bolsonaro), o BB liberou R$ 33,5 bilhões em dividendos. No período de 2023 até o primeiro trimestre de 2026 (gestão de Luiz Inácio Lula da Silva), o volume distribuído já alcança R$ 42,8 bilhões, uma alta de 27,9%. Vale ressaltar que, no período governamental, a ação acumulou valorização superior a 30%, contrastando com uma leve queda de 1,3% no mandato anterior. O dado reforça que a geração de caixa da instituição tem se mantido resiliente, independentemente das oscilações políticas de curto prazo.

A Estratégia "Quantidade sobre Preço" e Novas Preferências

Barsi aproveitou para detalhar sua filosofia de investimento em renda variável, priorizando a quantidade de cotas em detrimento do preço unitário. Para o investidor, é mais eficiente adquirir um volume maior de ações baratas de empresas sólidas do que concentrar capital em papéis caros. Ele citou explicitamente a Vale (VALE3) e a Petrobras (PETR4), negociadas por volta de R$ 80, como ativos que não entrariam no radar agora. Na ponta oposta, apontou o BMG (BMGB4), cotado próximo a R$ 5, como exemplo de aplicação que permite diluir riscos e ampliar o recebimento de proventos trimestrais.

Além do BMGB4, o megainvestidor mantém foco em outras companhias para compor renda passiva, incluindo:

  • Caixa Seguridade (CXSE3)
  • BB Seguridade (BBSE3)
  • Cemig (CMIG4)
  • Taurus (TASA4), destacada pelo potencial de desenvolvimento tecnológico e defesa

Barsi também relembrou que já aproveitou quedas abruptas para entrar em novos papéis, como foi o caso do Banrisul (BRSR5) após as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, reforçando que crises pontuais costumam abrir janelas de oportunidade para quem tem liquidez.

Braskem (BRKM5): A Próxuma Aposta com Riscos e Potencial

Um dos pontos de atenção atual no radar de Barsi é a Braskem (BRKM5), que recentemente tocou mínimas anuais devido a preocupações com sua estrutura de dívida e a possibilidade de uma recuperação extrajudicial. A empresa ainda enfrenta passivos judiciais relacionados a impactos socioambientais em Maceió, o que pode pressionar o caixa. Contudo, o investidor vê potencial de alta com a recente mudança de controle e o interesse demonstrado pela Petrobras na petroquímica. É importante notar que mudanças de controle frequentemente desencadeiam uma OPA (Oferta Pública de Aquisição), processo que pode, inclusive, resultar na retirada do papel da bolsa, exigindo atenção redobrada dos acionistas minoritários.

O que muda para investidores

A saída do BBAS3 da lista de compras de um ícone do mercado não sinaliza necessariamente uma tendência de baixa para o ativo, mas reflete uma disciplina rígida de preço e timing. Para o investidor de varejo, o cenário reforça a importância de olhar para o valor patrimonial e para a geração de caixa real, e não apenas para narrativas políticas de curto prazo. A estratégia de Barsi evidencia que, em momentos de estresse setorial, a diversificação em empresas de baixo valor de cota e alto payout pode oferecer um colchão de segurança e maior previsibilidade de renda. O mercado seguirá acompanhando de perto se a recuperação do agronegócio trará os papeis do BBAS3 de volta ao radar de grandes investidores e se a reestruturação da BRKM5 trará o desfecho esperado.

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