A XP Investimentos separou as fabricantes de bens de capital com ações na B3 em dois blocos: as que faturam em moeda forte e as que dependem de uma recuperação da demanda doméstica que ainda não se materializou. O relatório da casa sobre o setor coloca WEG (WEGE3), Embraer (EMBJ3) e Tupy (TUPY3) no primeiro grupo e trata Marcopolo (POMO4) e Randoncorp (RAPT4) como casos de preço baixo e visibilidade curta. Bens de capital, no jargão do mercado, são as máquinas e os equipamentos que outras empresas compram para produzir — um segmento cujo resultado depende, ao mesmo tempo, do custo do dinheiro e do humor de quem investe.
WEG, Embraer e Tupy: o amortecedor da receita em moeda forte
A mecânica é conhecida: com o real desvalorizado, cada dólar ou euro faturado no exterior se converte em mais reais no balanço. É o que se chama de proteção cambial natural — não existe contrato de hedge na operação, apenas a moeda da venda atuando a favor do resultado. A XP identifica esse atributo nas três companhias, mas por razões que não se confundem.
WEG: 24 vezes o lucro de 2027, perto do piso da faixa histórica
A WEG soma a proteção cambial a um histórico de crescimento de longo prazo apoiado no ciclo de investimentos recente e numa dependência menor do ritmo da economia brasileira. Depois da correção recente, a XP calcula que a ação seja negociada a cerca de 24 vezes o lucro estimado para 2027, caindo para 21 vezes quando se olha 2028 no cenário estressado — a hipótese mais pessimista adotada pela casa. O múltiplo, aqui entendido como quantas vezes o lucro anual o mercado se dispõe a pagar pela ação, está mais próximo da parte de baixo da banda histórica da companhia, de 20 a 30 vezes o lucro.
Embraer: a proteção mora na carteira de pedidos
No caso da Embraer, o amortecedor não vem do câmbio, e sim da carteira de pedidos já contratada — o volume de aeronaves encomendadas e ainda não entregues. Esse estoque de contratos dá previsibilidade ao crescimento e reduz o peso da atividade doméstica no resultado. A XP vê espaço para expansão de margens e ganho de retorno nos próximos anos e avalia que a ação não está particularmente descontada; ainda assim, sustenta que a combinação de crescimento de lucro, execução operacional e oportunidades de expansão mantém a relação risco-retorno favorável.
Tupy: 60% da receita fora do Brasil e 6 vezes o lucro
A Tupy tem no mercado externo a maior parte do faturamento: cerca de 60% da receita é gerada fora do país, com participação destacada em veículos pesados nos Estados Unidos. Para a XP, isso funciona como amortecedor diante das incertezas domésticas, e a desvalorização do real ainda compensa parte do efeito de juros estruturais mais altos. Com o impacto cambial na conta, a corretora estima a ação a aproximadamente 6 vezes o lucro projetado para 2027 — patamar que chama atenção após a reprecificação recente dos papéis.
| Empresa | Ticker | Múltiplo sobre o lucro de 2027 | Principal amortecedor apontado pela XP |
|---|---|---|---|
| WEG | WEGE3 | cerca de 24 vezes (21 vezes em 2028, no cenário estressado) | proteção cambial natural e menor dependência da economia brasileira |
| Embraer | EMBJ3 | não divulgado no relatório | carteira de pedidos contratada |
| Tupy | TUPY3 | cerca de 6 vezes | 60% da receita gerada no exterior |
| Marcopolo | POMO4 | cerca de 5 vezes | dividend yield perto de 10% e exposição externa relevante |
Marcopolo e Randoncorp: desconto grande, visibilidade pequena
O outro lado da lista reúne companhias que também passaram por correções e hoje exibem múltiplos menores — mas cuja demanda segue sem direção clara. A Marcopolo negocia a cerca de 5 vezes o lucro estimado para 2027 e oferece dividend yield próximo de 10%, a fatia do preço da ação devolvida ao acionista em proventos. A empresa também tem exposição relevante a mercados externos. O ponto de atenção está na demanda por ônibus rodoviários e urbanos: com pouca visibilidade sobre esse mercado, a XP enxerga confiança limitada na evolução dos resultados no curto prazo e risco maior de revisões negativas nas estimativas de 2027.
A Randoncorp ilustra a volatilidade do setor. As ações subiram 55% após o primeiro turno das eleições e devolveram 54% depois do segundo turno — um vaivém que, na leitura da XP, sinaliza investidores incorporando expectativas mais duras de demanda. O mercado de veículos pesados, sensível às taxas de juros, continua sem sinais claros de recuperação.
Por que o múltiplo caiu sem virar sinal de barganha
A XP não atribui a queda recente dos múltiplos do setor apenas ao juro mais alto e ao custo de capital maior. Segundo o relatório, há também uma preocupação crescente com o rumo da demanda e com o ritmo de recuperação dos principais mercados atendidos por essas companhias. Mesmo reconhecendo que algumas ações domésticas ficaram mais baratas, a casa prefere esperar sinais mais nítidos de retomada antes de adotar uma postura mais positiva. É uma distinção relevante para quem acompanha o setor: múltiplo baixo, nesse caso, tende a funcionar menos como convite e mais como termômetro de desconfiança.
Os dois sinais que faltam: ônibus e pesados
O que a XP monitora está delimitado no próprio relatório: a demanda por ônibus rodoviários e urbanos, no caso da Marcopolo, e o comportamento do mercado de veículos pesados, que afeta Tupy e Randoncorp. Nos dois casos, a transmissão passa pelo crédito — juro alto encarece o financiamento de quem compra ônibus e caminhão, e a decisão de investimento do transportador costuma ser adiada quando o custo do dinheiro sobe. Enquanto esses dois indicadores não derem sinal de melhora, o desconto nos papéis tende a persistir, mesmo com o câmbio ajudando quem vende em dólar.
O que muda para quem já tem exposição ao setor
Para o investidor com posição em bens de capital, o relatório desloca o foco da tela de cotações para a composição da receita. Duas empresas do mesmo setor, com múltiplos parecidos, podem responder de formas opostas ao mesmo choque de câmbio e de juros — basta que uma fature em dólar e a outra dependa do mercado interno. A exposição internacional, nesse ambiente, tende a suavizar o resultado; a dependência doméstica, a amplificá-lo.
Há também uma diferença de qualidade entre os amortecedores. Na WEG e na Tupy, o alívio vem do câmbio e pode oscilar junto com ele. Na Embraer, vem de contratos já firmados, o que dá mais previsibilidade — mas a ação não carrega o mesmo desconto das demais. São proteções de naturezas distintas, e o relatório da XP as trata como tal.
Sobra o recado sobre preço. Papéis a 5 ou 6 vezes o lucro de 2027 carregam um desconto que o mercado costuma cobrar quando enxerga pouca visibilidade sobre o futuro — e é justamente essa visibilidade que a XP diz ainda não encontrar no ciclo doméstico. O número baixo, isolado, não conta a história inteira.
