O Bitcoin devolveu o patamar de US$ 80 mil e opera a US$ 79.622 nesta terça-feira (27), com recuo de 0,7% nas últimas 24 horas, mesmo com o apetite por risco dando sinais de recuperação nos mercados acionários. A maior criptomoeda do mundo acumula perda de aproximadamente 5% desde a máxima de US$ 84.800 anotada na semana passada. A decisão de juros do Federal Reserve, marcada para quarta-feira (28), é o que trava qualquer tentativa mais firme de recuperação.

Os números da sessão

O Ethereum acompanhou o movimento e cedeu 0,6%, para US$ 2.304. Entre as demais, o XRP foi a exceção positiva, com ganho de 0,5%, enquanto Solana recuou 1,3% e BNB, 0,1%. Na conversão para o real, o Bitcoin aparecia a R$ 430.029.

AtivoVariação em 24hCotação
Bitcoin (BTC)-0,7%US$ 79.622
Ethereum (ETH)-0,6%US$ 2.304
XRP+0,5%—
Solana (SOL)-1,3%—
BNB-0,1%—
Bitcoin em reais—R$ 430.029

Ásia e tecnologia devolvem parte do otimismo

A sessão asiática trouxe alívio parcial. O Kospi, da Coreia do Sul, subiu cerca de 3,9%, e o Nikkei, do Japão, avançou 1,9%, impulsionados pela recuperação de fabricantes de semicondutores como Samsung Electronics e SK Hynix.

O gatilho veio de notícias corporativas ligadas a inteligência artificial: a Meta pretende captar até US$ 95 bilhões em capital, e a Anthropic se prepara para uma oferta pública de ações. Nos Estados Unidos, o movimento já havia começado na segunda-feira, com o Nasdaq em alta de 0,8% e o S&P 500 avançando 0,7%.

Bolsa firme costuma abrir espaço para ativos de risco, o Bitcoin entre eles, sobretudo quando volta o interesse por empresas de inovação.

O petróleo também ofereceu algum respiro. O barril do Brent recuava nesta manhã diante da expectativa de avanço diplomático no conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. Ainda assim, a commodity segue acima de US$ 110, patamar que mantém a preocupação com a inflação global.

O câmbio explica o salto em reais

O mercado brasileiro viveu cenário distinto. Na segunda-feira, o dólar disparou 8,21%, a R$ 5,403, e o Ibovespa perdeu 13,88% após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Com o real mais fraco, o Bitcoin chegou a subir 8,66% em reais na tarde de segunda, perto de R$ 436 mil.

A mecânica é direta: como a criptomoeda é precificada em dólar no exterior, a valorização da moeda americana eleva o preço em reais mesmo sem movimento equivalente lá fora.

Fed: taxa em 3,75% a 4% e o risco de dezembro

A decisão do Fed concentra as atenções da semana. A expectativa predominante é de manutenção da faixa de 3,75% a 4% ao ano. O ponto sensível está no sinal que o presidente da instituição, Kevin Warsh, dará sobre um possível aperto em dezembro. Petróleo elevado, inflação resistente e tensão geopolítica aumentam a chance de política monetária restritiva por mais tempo — e juro alto costuma reduzir a atratividade de ativos sem fluxo de caixa, caso do Bitcoin.

A consultoria FxPro, em análise divulgada na segunda-feira, avaliou que os compradores vêm contendo parte da pressão vendedora, mas que a criptomoeda ainda encontra dificuldade para engatar uma recuperação consistente. A casa aponta cenário de correção até a região dos US$ 75 mil e trabalha com a possibilidade de quarta semana seguida de queda. Análises de mercado citam que a reconquista de US$ 82.500 seria o primeiro indício de demanda mais firme.

Fluxo institucional e agenda corporativa

A pressão também vem dos fundos. Na semana passada, os ETFs de Bitcoin à vista negociados nos Estados Unidos — veículos de bolsa que compram a criptomoeda diretamente — registraram resgates expressivos, incluindo saída de US$ 635,6 milhões em um único pregão.

Nesta terça, o mercado acompanha os balanços da Galaxy Digital e da Robinhood; na quinta-feira (29), saem os números da Coinbase e da Strategy, que operam dentro do setor. Resultados de gigantes de tecnologia como Microsoft, Alphabet e Amazon também influenciam o humor. A agenda inclui ainda decisões de juros do Banco Central Europeu (BCE) e do Banco do Japão, além de novos dados de inflação e atividade dos Estados Unidos.

O que isso significa para o investidor

A semana concentra risco elevado de volatilidade: decisão do Fed, balanços de empresas ligadas a cripto e dados de inflação dividem o mesmo intervalo. Qualquer indicação de juro americano mais alto por mais tempo tende a manter o Bitcoin sob pressão, e o nível de US$ 80 mil funciona como referência psicológica para o mercado.

Vale separar o efeito cambial do movimento próprio do ativo. A alta em reais registrada na segunda-feira diz mais sobre o real enfraquecido do que sobre demanda por criptomoedas. Quem olha apenas a cotação local pode ter a impressão errada de força.

Os resgates de ETFs, por sua vez, são o termômetro mais direto do apetite institucional. Enquanto o fluxo não virar, a recuperação tende a depender de fatores externos: o tom do Fed e o desempenho das ações de tecnologia.