O Bradesco fechou setembro de 2026 com R$ 7,1 bilhões de lucro líquido recorrente, alta de 14,6% sobre o mesmo trimestre do ano anterior e resultado praticamente colado à média das estimativas do mercado, de R$ 7,145 bilhões, conforme consenso compilado pela Bloomberg. A rentabilidade sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) ficou em 16,1%, levemente acima dos 15,9% esperados. O número saiu em linha com o consenso; a composição dele, não.
O número saiu em linha com o consenso; a composição dele, não.
Provisão de R$ 10,6 bi sobe 24,3% e cresce mais que o lucro
O Bradesco reservou R$ 10,6 bilhões para despesas com provisões para perdas de crédito (PDD), o colchão contábil que cobre a expectativa de calote da carteira. São 24,3% mais que um ano antes e 6,6% mais que no segundo trimestre. No mesmo intervalo trimestral, a carteira de crédito cresceu 1,1% — o risco, portanto, avançou em ritmo bem superior ao do negócio.
O custo de crédito, que mede quanto o banco precisa provisionar para cada real emprestado, subiu a 3,7%, com alta de 0,2 ponto percentual na comparação com o 2T26 e de 0,4 p.p. em 12 meses. Três fatores, segundo o banco, explicam o movimento: carteira maior, vencimentos concentrados no crédito rural e mais atrasos entre pessoas físicas de menor renda.
O conceito de lucro recorrente importa aqui: ele elimina eventos que não devem se repetir, o que aproxima o número da operação cotidiana. Mesmo nessa base mais limpa, o avanço de 14,6% do lucro ficou abaixo do de 24,3% das provisões.
Inadimplência em 4,6% tem MPMEs e John Deere na origem
A carteira de crédito expandida encerrou setembro em R$ 1,15 trilhão, com avanço de 11,1% em 12 meses e de 1,1% sobre o trimestre anterior. Os atrasos acima de 90 dias, porém, subiram 0,5 p.p. em um ano e 0,3 p.p. na base sequencial, terminando em 4,6%.
O banco apontou de onde vem a pressão: micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) responderam por cerca de metade do aumento da inadimplência total no trimestre, com peso maior nas operações de capital de giro com garantia do governo federal. O agronegócio aparece na sequência, por atrasos sazonais nas operações do banco John Deere, que pesaram nos indicadores de crédito para pessoas físicas.
Margem com o mercado salta 783%, para R$ 875 milhões
A margem financeira total — o que o banco ganha com suas operações financeiras, do crédito à tesouraria — somou R$ 21,3 bilhões, 14,2% acima do trimestre anterior. A fatia com clientes cresceu 10,1%, para R$ 20,5 bilhões, sustentada pela carteira de crédito maior.
A linha de mercado chamou mais atenção: R$ 875 milhões, contra R$ 99 milhões um ano antes (+783%) e 30% acima do 2T26. É uma fração pequena diante dos R$ 20,5 bilhões vindos de clientes, mas foi a que mudou de patamar. Receitas de tesouraria tendem a oscilar bem mais que a margem de crédito, o que faz dessa linha um reforço de resultado menos previsível.
ROAE de 16,1% marca o 11º trimestre de melhora
A rentabilidade de 16,1% equivale a 1,4 p.p. a mais que no terceiro trimestre de 2025, ainda que tenha recuado 0,1 p.p. na base trimestral. É o 11º trimestre consecutivo de evolução desde o início do turnaround — termo usado no mercado para o processo de reestruturação e retomada de rentabilidade.
O CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou em nota: “Nosso lucro líquido cresceu mais uma vez com expansão das receitas, controle das despesas e boa gestão de risco. Estamos mais capitalizados, aproveitando oportunidades e investindo na organização”
O que a qualidade do crédito muda para quem acompanha o banco
Para quem tem exposição a BBDC4 ou observa os bancos listados na B3, o balanço do 3T26 desloca o foco do lucro para a qualidade da carteira. Um resultado que avança 14,6% enquanto as provisões sobem 24,3% indica que parte do ganho está sendo consumida pelo custo do risco — dinâmica que tende a persistir enquanto o crédito a MPMEs com aval federal e as operações rurais concentrarem vencimentos.
Três pontos merecem acompanhamento no próximo balanço:
- Custo de crédito: hoje em 3,7%, é o elo entre a carteira que cresce e o lucro que aparece no fim da linha.
- Inadimplência acima de 90 dias: em 4,6%, precisa parar de subir para que a expansão de 11,1% da carteira chegue ao resultado com menos atrito.
- Margem de tesouraria: os R$ 875 milhões do trimestre vêm de uma linha historicamente mais volátil que a receita com clientes.
Se a curva de atrasos estabilizar, a rentabilidade de 16,1% tende a se sustentar com menos provisionamento. Se a deterioração continuar, o lucro passa a depender cada vez mais de linhas menos previsíveis e de um esforço maior de reservas.
Os números do 3T26 em uma tabela
| Indicador | Valor | Variação |
|---|---|---|
| Lucro líquido recorrente | R$ 7,1 bi | +14,6% em 12 meses |
| Consenso Bloomberg | R$ 7,145 bi | referência de mercado |
| ROAE | 16,1% | -0,1 p.p. no trimestre; +1,4 p.p. em 12 meses |
| Carteira de crédito expandida | R$ 1,15 tri | +11,1% em 12 meses; +1,1% no trimestre |
| Inadimplência acima de 90 dias | 4,6% | +0,5 p.p. em 12 meses; +0,3 p.p. no trimestre |
| PDD | R$ 10,6 bi | +24,3% em 12 meses; +6,6% no trimestre |
| Custo de crédito | 3,7% | +0,4 p.p. em 12 meses; +0,2 p.p. no trimestre |
| Margem financeira | R$ 21,3 bi | +14,2% no trimestre |
| Margem com clientes | R$ 20,5 bi | +10,1% |
| Margem com mercado | R$ 875 mi | +783% em 12 meses; +30% no trimestre |
