As ações preferenciais da Braskem (BRKM5) consolidaram nova valorização expressiva na B3 nesta quarta-feira (13), acumulando um salto de 29% na sessão anterior e fechando em R$ 12,21, alta de 2,86%. O movimento ocorreu na véspera da divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026 (1T26), após a cotação máxima intradiária tocar R$ 13,38, variação de 12,72%. A trajetória recente combina expectativas de recuperação operacional, mudanças na recomendação de grandes bancos e um fenômeno técnico de ajuste de posições no mercado de aluguel de ações, chamando a atenção para os indicadores de margens e gestão de caixa.
Desempenho Operacional por Região: Normalização Heterogênea
A petroquímica apresentou indicadores de atividade díspares conforme a localização das unidades. No Brasil, a taxa de utilização (percentual da capacidade produtiva instalada efetivamente empregado) atingiu 69%, expansão de 10 pontos percentuais na comparação trimestral. As vendas de resinas avançaram 5%, impulsionadas por polietileno e cloreto de polivinila (PVC), reflexo da retomada das operações no complexo da Bahia e da antecipação de compras. Contudo, o volume de exportações recuou de forma relevante, e o desempenho caiu em relação ao mesmo período do ano anterior, pressionado pela entrada de produtos estrangeiros e por uma demanda interna mais contida.
Nos Estados Unidos e na Europa, a atividade superou projeções. A taxa de utilização chegou a 79%, acréscimo de 8 pontos percentuais ante o quarto trimestre de 2025 (4T25). As vendas cresceram 3%, amparadas pelo retorno da demanda europeia e pela normalização pós-manutenção das plantas. Apesar do avanço, os spreads (diferença entre o preço de venda do produto final e o custo da matéria-prima) ainda não sinalizam a retomada dos patamares de rentabilidade históricos.
O México enfrenta obstáculos estruturais severos. A taxa de utilização despencou para 55%, contração de 30 pontos percentuais versus o 4T25. As vendas recuaram 37% na variação t/t (trimestre contra trimestre anterior), consequência direta da escassez de etano. A Petroliós Mexicanos (Pemex) entregou volumes reduzidos e o fluxo de importações pelo terminal também encolheu, evidenciando restrições logísticas permanentes.
| Região | Taxa de Utilização | Var. Trimestral (p.p.) | Var. Vendas | Contexto Operacional |
|---|---|---|---|---|
| Brasil | 69% | +10 p.p. | +5% | Normalização da Bahia e antecipação de demanda, mas exportações e desempenho a/a pressionados. |
| EUA e Europa | 79% | +8 p.p. | +3% | Demanda europeia retoma e pós-parada sustenta produção; spreads ainda abaixo do histórico. |
| México | 55% | -30 p.p. | -37% (t/t) | Restrições severas de etano pela Pemex e redução no terminal de importações. |
Dinâmica de Preços e Recuperação das Margens em Abril
O Bank of America destacou um cenário excepcional para os spreads petroquímicos em abril, com aceleração visível em relação a março. Enquanto março foi marcado por alta de 50% na nafta (derivado de petróleo usado como insumo na rota integrada), restringindo a expansão das margens, abril apresentou estabilidade relativa nos insumos. A nafta valorizou 11%, o etano recuou 13% e as resinas responderam com força. Nos Estados Unidos, o polietileno saltou 47% em relação ao mês anterior, e o propileno na Ásia avançou 12%.
Os spreads de polietileno registraram expansão entre 60% e 120%, e os principais produtos químicos de referência da companhia recuperaram 90%, revertendo a fraqueza observada no período anterior. Esse comportamento indica uma melhora cíclica na formação de preços, ainda que sujeita à volatilidade cambial e às tensões geopolíticas no Oriente Médio.
Revisão de Projeções e Dinâmica de Mercado
O JPMorgan atualizou a recomendação, migrando para “overweight” (exposição acima da média do mercado, equivalente a uma visão positiva de compra) e elevou o preço-alvo de R$ 10,50 para R$ 15,00. A justificativa reside na melhora dos fundamentos de mercado, no aperto da oferta global e no fortalecimento da governança corporativa após o processo de reestruturação da empresa.
A analista Milene Clifford Carvalho avalia que a companhia se encaminha para um ano de 2026 mais sólido, com o conflito no Oriente Médio e os entraves logísticos restringindo a oferta e sustentando as margens. A normalização completa demandará vários meses devido a interrupções em instalações e prazos de transporte estendidos. Para 2027, a expectativa é de retorno do desempenho financeiro a patamares de meio de ciclo. A reabertura do Estreito de Ormuz pode limitar ganhos adicionais, mas os fundamentos já aprimorados ainda estariam parcialmente precificados, mesmo com a valorização acumulada de quase 17% no ano.
O BB Investimentos adota tom mais cauteloso. Embora reconheça a melhora sequencial na utilização, alerta que os resultados financeiros permanecerão limitados por questões discutidas ao longo de 2025: excesso de oferta global de resinas, spreads pressionados na comparação anual e perda de competitividade ligada ao uso da nafta. A alavancagem (nível de endividamento da empresa em relação ao patrimônio) segue elevada, acompanhada de queima de caixa e restrições de liquidez, fatores que ditam a redução de exportações e a contração da operação mexicana. Paralelamente, a ação foi impulsionada por um “short squeeze” (fenômeno em que investidores posicionados na venda a descoberto são forçados a recomprar papéis quando o preço sobe, gerando pressão compradora), fenômeno amplificado pelas elevadas taxas de aluguel do papel na B3.
O que isso significa para o investidor
A convergência entre recuperação operacional pontual, melhoria cíclica de margens e ajustes de posicionamento especulativo cria um ambiente de alta volatilidade e expectativa renovada. Para o investidor pessoa física, a divulgação do 1T26 trará dados concretos sobre a geração de caixa e a gestão da dívida, pontos críticos para a validação da tese de médio prazo.
Em um cenário otimista, a manutenção da oferta global restrita e a estabilidade de matérias-primas podem sustentar a expansão dos spreads, validando o retorno gradual aos níveis históricos de lucratividade até 2027. Na linha mais conservadora, a sobreoferta de resinas e a dependência de importação de etano no México podem continuar a drenar liquidez, exigindo atenção redobrada ao fluxo de caixa operacional. O movimento recente também demonstra sensibilidade a variáveis macroeconômicas, como a desinflação global e as decisões logísticas em rotas marítimas estratégicas, tornando essencial o monitoramento do relatório contábil para calibrar projeções.
Riscos em Monitoramento
- Estruturais: excesso de oferta global de resinas e perda de competitividade da rota da nafta frente ao etano em mercados externos.
- Operacionais: escassez crônica de etano no México, dependência de volumes da Pemex e logística de importação limitada por infraestrutura.
- Financeiros: elevada alavancagem, queima de caixa recorrente e restrições de liquidez que impactam a capacidade de investimento e manutenção de plantas.
- Macro e Geopolíticos: volatilidade no preço do petróleo, tensões no Oriente Médio (Estreito de Ormuz) e flutuações cambiais que afetam spreads e custos de insumos.
- Mercado: taxas de aluguel elevadas e potencial para movimentos de cobertura de posições vendidas, amplificando oscilações de preço independentes dos fundamentos.
Perspectiva e Próximos Passos
O calendário corporativo coloca a divulgação do 1T26 no centro das atenções. A análise dos números contábeis revelará se a recuperação operacional se traduz em melhoria sustentável do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e na redução do endividamento líquido. Investidores devem acompanhar a evolução dos spreads em maio, as diretrizes da gestão para a operação mexicana e eventuais atualizações sobre a governança pós-reestruturação. A confirmação da tendência de normalização da demanda e a resolução de gargalos logísticos serão os catalisadores determinantes para a consolidação da trajetória nos próximos trimestres.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
