A Braskem (BRKM5) vendeu mais no terceiro trimestre de 2026, e ao mesmo tempo viu o spread do polipropileno (PP) na Europa encolher 88% na comparação com o segundo trimestre. Os dados operacionais saíram nesta quinta-feira (29), e a avaliação do JP Morgan sobre eles separa dois movimentos que caminham em direções opostas: mais produto vendido, menos prêmio por unidade negociada.
Spread é a diferença entre o preço de venda do produto petroquímico e o custo da matéria-prima usada para fabricá-lo — na prática, é a linha que define a margem por tonelada. Quando volumes sobem e spreads caem, a receita pode até avançar, mas a rentabilidade tende a não acompanhar. É esse contraste que organiza a leitura do trimestre da companhia.
Spread de PP recua 88% na Europa e 7% nos EUA
A variação mais severa está no PP comercializado no mercado europeu: -88% de um trimestre para o outro. O mesmo produto nos Estados Unidos teve recuo de 7%. A operação brasileira seguiu trajetória semelhante, com o spread do polietileno (PE) caindo 52% e o do policloreto de vinila (PVC) cedendo 34%. O agregado dos principais produtos químicos fabricados no país recuou 13% na mesma base de comparação.
| Produto / região | Spread no 3º tri de 2026 vs 2º tri |
|---|---|
| PP – Europa | -88% |
| PP – EUA | -7% |
| PE – Brasil | -52% |
| PVC – Brasil | -34% |
| Principais químicos – Brasil | -13% |
México: utilização de 62% ameniza o quadro da Idesa
A operação mexicana é o ponto em que a leitura do banco americano aparece mais construtiva. A taxa de utilização das unidades — indicador que mostra quanto da capacidade instalada está de fato produzindo — atingiu 62%, o melhor patamar desde a parada para manutenção ocorrida no primeiro semestre de 2026. Na avaliação do JP Morgan, essa evolução carrega peso extra porque acontece em meio às dificuldades de liquidez que a Idesa vem enfrentando.
Brasil: resinas avançam 16%, químicos recuam 3%
Na operação nacional, produção e vendas ficaram acima do que o JP Morgan projetava. A taxa de utilização das centrais de matérias-primas repetiu o patamar do mesmo trimestre do ano anterior. A normalização das atividades no Rio Grande do Sul compensou a produção menor registrada na Bahia e em São Paulo.
Os volumes de resinas cresceram 16% frente ao segundo trimestre, enquanto a soma das vendas dos principais químicos recuou 3% — resultado alinhado ao que o banco esperava. No México e no Brasil houve melhora sequencial, enquanto a Europa ficou praticamente parada em volumes.
EUA e Europa: 2% menos volume e compras adiantadas
Fora desses dois mercados, os volumes recuaram 2% entre um trimestre e outro. Na Europa, a oferta de produtos foi menor. Nos Estados Unidos, clientes adiantaram pedidos para o trimestre anterior, o que inflou a base de comparação e ajudou a explicar o recuo posterior.
Reestruturação financeira: o dado que ainda falta
Mesmo com o quadro misto, o JP Morgan sustenta que o desempenho operacional deve ficar em segundo plano por enquanto. Segundo o banco, os investidores parecem mais atentos aos detalhes da reestruturação financeira da Braskem, que segue sem data definida para divulgação.
Para quem acompanha a ação, o trimestre se divide em duas camadas. A primeira é operacional: volumes e produção vieram em linha ou acima das estimativas do banco no Brasil e no México, o que sustenta o discurso de retomada de atividade. A segunda é de preço relativo: os spreads caíram em todas as frentes relevantes, da Europa ao mercado brasileiro, e é essa camada que costuma determinar a conversão de receita em resultado.
O dado mexicano merece atenção à parte. Uma utilização de 62% ainda significa quase dois quintos da capacidade ociosa, mas representa alívio depois da parada de manutenção do primeiro semestre e ganha significado justamente porque a Idesa convive com restrições de liquidez — ou seja, o avanço ocorre apesar de um parceiro sob estresse financeiro.
A ordem dos fatores, portanto, importa. Volume maior sem spread maior tende a produzir crescimento de receita com margem comprimida, e o mercado já sinalizou, na leitura do JP Morgan, que não é aí que está sua principal preocupação neste momento. A agenda que realmente move a percepção de risco da companhia é a reestruturação financeira — e, enquanto ela não ganha data, os números operacionais funcionam como pano de fundo.
