A CBA (CBAV3) fechou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 616 milhões, resultado recorde e 366% superior ao do mesmo período de 2025. R$ 315 milhões desse total, já descontados os tributos, vieram de um acordo para encerrar obrigações futuras — um ganho que não deve se repetir na mesma escala e que separa o desempenho recorrente da companhia do número que estampa a manchete.

O acordo de Uso do Bem Público por trás de R$ 526 milhões

A renegociação e a liquidação antecipada de obrigações de Uso do Bem Público (UBP) — contrapartida devida pela exploração de áreas públicas — geraram benefício econômico de R$ 526 milhões. A operação exigiu desembolso líquido de R$ 262 milhões, amparado pela Lei nº 15.235/2025, e encurtou compromissos de caixa futuros da companhia, segundo informou a empresa. Depois dos efeitos tributários, o ganho líquido somou R$ 315 milhões.

O lucro contábil do trimestre, portanto, combina economia real de caixa com um evento de ocorrência única. O desempenho recorrente aparece com mais nitidez na linha operacional do que no lucro líquido.

Receita de R$ 2,7 bilhões e margem operacional de 21%

As vendas líquidas somaram R$ 2,7 bilhões, o maior valor trimestral da história da companhia e 18% acima de igual intervalo de 2025. O impulso veio de preços realizados mais altos do alumínio e de uma fatia maior de produtos de maior valor agregado no mix vendido.

O Ebitda ajustado — sigla de lucro antes de juros, tributos, depreciação e amortização, usado no mercado como aproximação da geração operacional de caixa — atingiu R$ 565 milhões, alta de 142% em um ano. A margem correspondente subiu de 10% para 21%. Além do preço, ajudou o recuo do efeito negativo de contratos futuros e derivativos de energia: de R$ 208 milhões para R$ 47 milhões, diferença que ajuda a explicar o salto do indicador.

Alumínio a US$ 3.226 na LME e a expectativa de preços sem solavancos

Na London Metal Exchange (LME), a bolsa de metais de Londres, o preço médio do alumínio ficou em US$ 3.226 por tonelada no trimestre — 23% acima de um ano antes e 9,7% abaixo do segundo trimestre. A cotação seguiu em patamar historicamente elevado, sustentada por estoques globais baixos, recuperação gradual da demanda chinesa e limitações de oferta fora da China.

O CEO Luciano Alves disse que a CBA trabalha com um cenário sem quedas abruptas da commodity. Unidades do Oriente Médio que pararam por causa da guerra retomam a produção aos poucos, sem mexer de forma relevante nos preços, na avaliação dele; já a capacidade nova vinda da Indonésia tende a pesar mais, ainda que as entradas devam ocorrer de maneira gradual.

Indicador3º tri/2026Comparação
Lucro líquidoR$ 616 milhões+366% em um ano
Receita líquidaR$ 2,7 bilhões+18% em um ano
Ebitda ajustadoR$ 565 milhões+142% em um ano
Margem Ebitda ajustada21%era 10% um ano antes
Dívida líquidaR$ 2,8 bilhões-16% em um ano
Alavancagem (dívida/Ebitda)1,38 vez—
Alumínio na LMEUS$ 3.226/tonelada+23% em um ano; -9,7% no trimestre

Dívida de R$ 2,8 bilhões e 80% atrelada ao dólar

A dívida líquida ficou em R$ 2,8 bilhões em setembro, 16% menor do que um ano antes. A alavancagem — razão entre dívida líquida e Ebitda ajustado dos últimos 12 meses — recuou para 1,38 vez.

A CFO Camila Abel afirmou que o patamar de endividamento é confortável, inclusive para atravessar períodos de dólar alto, moeda em que está denominada cerca de 80% da dívida. A estrutura financeira, segundo ela, deixa a companhia pronta para investir quando aparecerem oportunidades.

Venda do controle pela Votorantim segue em aberto

A CBA aguarda a conclusão da venda do controle pelo Grupo Votorantim à empresa resultante da joint venture entre a chinesa Chinalco (Chalco) e a Rio Tinto. Alves disse que o tema é tratado com tranquilidade, enquanto a equipe se concentra em ganhos de produtividade.

O que a composição do lucro muda para quem acompanha

Três variáveis concentram o risco do caso. A primeira é o preço do alumínio: com a cotação referenciada em dólar e sem previsão de recuos bruscos na visão da empresa, uma correção da commodity tende a atingir receita e margem ao mesmo tempo. A segunda é o câmbio — a maior parte da dívida está atrelada ao dólar, o que amplia o custo do serviço da dívida quando o real se desvaloriza. A terceira é o desfecho da venda do controle, ainda em aberto.

Como o trimestre carregou um ganho não recorrente de R$ 315 milhões, as bases de comparação dos próximos balanços tendem a ficar mais exigentes: o lucro recorrente precisará vir de preço, mix de produtos e controle de custos. Parte do avanço do Ebitda também tem componente de comparação — o efeito negativo de derivativos de energia encolheu de R$ 208 milhões para R$ 47 milhões em um ano, e essa folga dificilmente se repetirá na mesma proporção.