A premissa consolidada de que o CDI (Certificado de Depósito Interbancário, taxa de referência para operações entre bancos) funciona como a referência absoluta de ativo livre de risco foi colocada em xeque por uma análise técnica conjunta da XP Inc. e da Atlantiqis Consulting. O trabalho intitulado “Repensando o ativo sem risco”, assinado por Artur Wichmann, Ruy Ribeiro e Eduardo Marinho, demonstra que aplicações lastreadas na taxa de curto prazo falharam em preservar o poder de compra dos investidores em ciclos inflacionários recentes. Dados empíricos apontam retorno real negativo entre 2020 e 2021 e estagnação do patrimônio real no intervalo de 2019 a 2023, sugerindo que a verdadeira isenção de risco deve ser mensurada pela capacidade de proteger a riqueza contra a erosão monetária.

A fragilidade do CDI na preservação do poder de compra

O estudo detalha que episódios de estagflação (combinação de crescimento econômico estagnado com inflação elevada), repressão financeira e crises de liquidez historicamente corroem os ganhos de instrumentos nominais. O comportamento observado entre 2019 e 2023 não foi isolado: o acumulado nominal do CDI foi praticamente anulado pelo avanço de preços, zerando o ganho real. Os autores reforçam que a métrica nominal protege o valor facial do capital, mas ignora a perda de capacidade de compra, falha crítica para famílias, poupadores de longo prazo e fundos de previdência.

Índices como IMAB5 e IMAB5+ como novas referências de segurança

Em contraposição, carteiras indexadas ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), representadas pelos índices de mercado IMAB5 (títulos públicos indexados à inflação com prazo entre 1 e 5 anos) e IMAB5+ (vencimentos superiores a 5 anos), demonstraram eficiência superior na preservação da riqueza. No horizonte de 2010 a 2026, esses ativos entregaram retorno real médio consistentemente acima do CDI, mantendo vantagem inclusive em prazos mais curtos. A dinâmica de risco opera de forma inversa ao tempo: quanto mais alongado o prazo de aplicação, menor a volatilidade real, graças à previsibilidade das taxas reais e ao fenômeno de reversão à média, que naturalmente compensa oscilações de curto prazo.

Ativo/ReferênciaPeríodo AnalisadoDesempenho RealPerfil de Risco
CDI2019 a 2023Estagnação (nominal anulado pela inflação)Elevado em termos reais no curto prazo
Índices IMAB5 / IMAB5+2010 a 2026Retorno real médio superior ao CDIDecrescente com o alongamento do horizonte
T-bills (EUA)Últimas 2 décadasRetorno real médio negativoVulnerável a choques inflacionários
TIPS (EUA)Últimas 2 décadasMelhor relação retorno/riscoImunização contra variações do CPI

Custo da proteção e imunização no gerenciamento de passivos

Alocar capital em títulos indexados à inflação exige, em tese, o pagamento de um prêmio de proteção, mensurado pela diferença entre juros nominais e reais, conhecida como inflação implícita. No mercado brasileiro, esse custo permanece atrativo: em março de 2026, o prêmio girava em torno de 1,93 ponto percentual ao ano para operações com vencimento em cinco anos. A análise indica que o desembolso compensa historicamente, uma vez que a inflação realizada frequentemente superou as expectativas embutidas no mercado, ampliando o retorno líquido real. Simulações de ALM (Asset-Liability Management, ou gestão de ativos e passivos) confirmam que o CDI frequentemente se mostra insuficiente para honrar compromissos futuros ajustados pela inflação, como custeio de educação superior. Estruturar carteiras com títulos públicos indexados e vencimentos casados ao prazo do objetivo elimina o risco inflacionário, aproximando a volatilidade real de zero.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física, a migração conceitual implica recalibrar a função de cada ativo no portfólio. O CDI mantém utilidade estratégica como reserva de liquidez e alocador de caixa para capital excedente, sem passivos futuros relevantes. Já a alocação de longo prazo, focada em preservação de riqueza e aposentadoria, demanda ativos com lastro real. No cenário macroeconômico atual, com a Selic (taxa básica de juros da economia) e o IPCA determinando o custo de capital, a escolha entre prefixados, pós-fixados e híbridos deve considerar a trajetória real projetada. A disponibilidade de instrumentos como Tesouro IPCA+, RendA+ e Educa+ oferece ao varejo mecanismos de casamento de fluxos que antes eram restritos a grandes fundos, elevando o patamar de governança financeira pessoal.

Riscos e pontos de atenção

  • Marcação a mercado: títulos indexados de longo prazo apresentam volatilidade de preço no curto prazo, exigindo horizonte compatível para evitar prejuízos na venda antecipada.
  • Comportamento da inflação: quedas bruscas e persistentes do IPCA podem reduzir o prêmio real capturado, embora o capital permaneça protegido nominalmente.
  • Cenários de estagflação: ambientes de juros reais elevados e crescimento baixo podem tensionar a curva de juros, impactando temporariamente o valor de liquidação.
  • Risco de liquidez: ativos com vencimentos longos possuem spreads de negociação mais amplos em momentos de tensão sistêmica, diferentemente da liquidez imediata do CDI.

Perspectiva e Próximos Passos

O mercado deverá monitorar a trajetória da inflação implícita e a curva de juros nominal para avaliar se o prêmio de 1,93% ao ano se mantém ou se comprime. Investidores devem acompanhar os leilões de títulos públicos e a evolução dos índices IMAB5 e IMAB5+ para validar a eficácia da imunização patrimonial proposta. A discussão técnica tende a influenciar a reformulação de estratégias de alocação de renda fixa, consolidando a proteção real como métrica central na construção de carteiras conservadoras e previdenciárias.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.