Tese em 3 pontos

  1. A privatização da Semig saiu do radar de curto prazo e o mercado pode voltar a precificar a companhia pelo que realmente importa: os fundamentos.
  2. O Banco do Brasil vive uma divergência entre a cotação, impulsionada pelo trade eleitoral, e o balanço, que ainda carrega a deterioração do crédito no agronegócio.
  3. Na Petrobras, a descoberta na margem equatorial amplia o valor futuro, mas o pedido do MPF para suspender a licença de perfuração cria um risco capaz de travar o próximo passo.

Semig (CMIG4): privatização sai do radar e fundamentos assumem o centro

A privatização da Semig saiu do radar de curto prazo e o mercado pode voltar a precificar a companhia pelo que realmente importa: os fundamentos. O cenário político em Minas Gerais mudou, e os principais nomes na disputa pelo governo declararam que não pretendem privatizar a companhia. Cleitinho Azevedo, à frente das pesquisas com mais de 30% das intenções de voto, afirmou que só vê sentido na privatização de empresas que dão prejuízo — o que não é o caso da Semig.

A Constituição de Minas Gerais exige referendo popular para a desestatização de empresas que prestam serviços de geração, transmissão ou distribuição de energia elétrica. Isso significa que mesmo um futuro governo favorável à venda não teria uma operação simples ou imediata.

Com isso, a tese de investimento tende a ficar menos dependente de um evento societário extraordinário e mais atrelada a três variáveis tradicionais: investimentos, rentabilidade e dividendos. Em 2025, a companhia apresentou lucro líquido de R$ 4,9 bilhões e distribuiu R$ 2,5 bilhões em dividendos, superando o payout obrigatório de 50%.

Os múltiplos seguem descontados: o PL está em menos de 7 vezes, o PVP mostra a empresa 10% acima do valor patrimonial e o dividend yield é de 11,43%. A valorização nos últimos 12 meses foi de apenas 9,72%. Para quem analisa a decisão, o caso parece ter migrado de uma aposta em privatização para uma aposta em consistência operacional e renda.

Banco do Brasil (BBAS3): trade eleitoral vs. deterioração de crédito

O Banco do Brasil vive uma divergência entre a cotação, impulsionada pelo trade eleitoral, e o balanço, que ainda carrega a deterioração do crédito no agronegócio. As ações BBAS3 saíram de aproximadamente R$ 17,60 em agosto de 2026 e dispararam 31% até os dias atuais, aos R$ 23,16.

Parte do movimento é atribuída ao chamado trade eleitoral, que busca posições em estatais com base em expectativas sobre o resultado das eleições. A campanha de Flávio Bolsonaro citou o Banco do Brasil como uma estatal que poderia ser avaliada para privatização em um eventual governo, embora seja uma posição de campanha, não uma proposta aprovada.

A pesquisa Datafolha de 17 de setembro mostrou Lula com 46% e Flávio Bolsonaro com 44% em simulação de segundo turno. O mercado, no entanto, recomenda cautela porque os números operacionais contam outra história. No segundo trimestre, o lucro líquido ajustado foi de R$ 1,9 bilhão, com retorno sobre patrimônio de 8,3% e inadimplência acima de 90 dias em 5,61%. O custo de crédito atingiu R$ 5,5 bilhões.

O JP Morgan reduziu a projeção de lucro recorrente para R$ 1,9 bilhão em 2026, com ROE de 9% e estimativa de recuperação para R$ 23,5 bilhões em 2027. O banco manteve recomendação neutra e preço-alvo de R$ 22 para dezembro de 2027. O PL está em 10,83, o PVP mostra a ação 29% abaixo do valor patrimonial e o dividend yield atual é de 2,94%, embora a média dos últimos cinco anos seja de 8,81%.

A questão para o investidor é separar o ruído eleitoral da capacidade de o banco recuperar rentabilidade sem deteriorar ainda mais a carteira de crédito, que supera R$ 1,3 trilhão.

Petrobras (PETR4): petróleo na Foz do Amazonas e o risco do MPF

Na Petrobras, a descoberta na margem equatorial amplia o valor futuro, mas o pedido do MPF para suspender a licença de perfuração cria um risco capaz de travar o próximo passo. A estatal afirmou ter encontrado hidrocarbonetos de boa qualidade no poço de Mor, a cerca de 175 km da costa do Amapá.

O Ministério Público Federal pediu ao TRF da 1ª Região a suspensão da licença de perfuração. Segundo o MPF, 17 municípios do Pará estariam na área de influência logística do projeto, e embarcações de apoio saindo de Belém atravessariam regiões utilizadas por indígenas, quilombolas e pescadores artesanais. O órgão citou relatos de redes de pesca danificadas, afastamento de peixes e risco de acidentes.

A Petrobras sustenta que seus estudos não identificaram impactos socioambientais diretos sobre comunidades ou terras indígenas decorrentes da atividade. Para quem tem as ações, é importante notar que Mor é uma operação exploratória, não um campo comercial produzindo petróleo. Uma eventual paralisação não fecha a torneira do caixa da companhia, mas atrasa a descoberta de quanto petróleo existe na região e a avaliação de viabilidade econômica.

O IBAMA ampliou recentemente a autorização para incluir as regiões de Manga, Crotalos e uma extensão de Mor, poços que podem ajudar a delimitar melhor os reservatórios. As ações PETR4 estão em R$ 48,47, com valorização de 64,64% nos últimos 12 meses. O PL é de 4,69, o valor patrimonial está 30% abaixo do valor de mercado e o dividend yield é de aproximadamente 7,5%. Pela fórmula de Benjamin Graham, o preço justo seria de quase o dobro: R$ 93, um upside potencial acima de 92%.

Pix: Banco Central muda conta salário e cobrança híbrida

O Banco Central prepara novas mudanças no Pix que atingem conta salário, boletos e segurança. A partir de 1º de julho de 2027, contas salário poderão ser usadas para pagamento de recorrências via Pix automático, como aluguel, mensalidades e assinaturas. Essa será a única modalidade do Pix permitida para conta salário; o recebimento de Pix comum continua proibido, exceto devoluções e transferências específicas do Tesouro Nacional.

A partir de fevereiro de 2027, entra em vigor a cobrança híbrida, na qual o mesmo documento pode trazer código de barras e outro mecanismo de pagamento, simplificando a quitação de contas e reduzindo erros. As alterações reforçam o Pix como infraestrutura central do sistema financeiro brasileiro e podem afetar a operação de bancos e fintechs.

FII TRBL11: aumento de capital para R$ 10 bilhões

No mercado de fundos imobiliários de tijolo, o FII TRBL11 surge com um aumento de capital para R$ 10 bilhões. O movimento pode alterar a dinâmica do setor, mas os detalhes sobre a operação ainda são limitados. A tese para o investidor depende de como o fundo pretende alocar os recursos e qual será o impacto sobre o dividend yield e o valor patrimonial.

O que muda para investidores

  • CMIG4: a tese perde o catalisador de privatização e ganha peso de fundamentos. O múltiplo descontado e o dividend yield elevado sustentam a renda, mas a ausência de um evento societário reduz a assimetria de curto prazo.
  • BBAS3: o trade eleitoral empurra a cotação, enquanto o balanço mostra deterioração. A divergência entre preço e fundamento exige cautela; o preço-alvo de R$ 22 do JP Morgan está abaixo da cotação atual de R$ 23,16.
  • PETR4: a descoberta na margem equatorial é um ativo de longo prazo, mas o risco jurídico pode atrasar o cronograma. O múltiplo baixo e o dividend yield robusto compensam parte do risco, mas o upside de R$ 93 da fórmula de Graham depende da viabilização do projeto.
  • Pix: as mudanças ampliam o uso da conta salário e a eficiência dos pagamentos, com impacto indireto sobre bancos e meios de pagamento.
  • TRBL11: o aumento de capital para R$ 10 bilhões pode mexer com o mercado de FIIs de tijolo, mas faltam detalhes sobre a operação.

A leitura para quem decide é que os três tickers vivem momentos distintos: CMIG4 troca privatização por dividendos, BBAS3 enfrenta a tensão entre eleição e crédito, e PETR4 carrega um prêmio de longo prazo com risco jurídico no caminho. Nenhuma das teses é binária, e o investidor pode acompanhar os catalisadores — referendo, resultados trimestrais e licenças ambientais — para calibrar o risco/retorno.