Os combustíveis no Brasil registraram retração generalizada no mês de maio, sinalizando um ciclo de estabilização após as elevações expressivas dos períodos antecedentes. O levantamento da ValeCard, que considerou a apuração entre o dia 1º e 26 de maio, foi concluído antes do anúncio de reajuste pela Petrobras na quinta-feira (29). O etanol liderou a desvalorização, acumulando queda média de 5,31%, enquanto a gasolina e o diesel S-10 apresentaram recuos mais contidos de 0,77% e 0,41%, respectivamente.

Trajetória dos preços e heterogeneidade regional

A movimentação reflete um mercado em fase de ajuste, com a oferta interna e a dinâmica internacional pressionando a formação de tarifas. Na média nacional, os biocombustíveis e derivados de petróleo apresentaram o seguinte desempenho:

CombustívelVariação média nacional (maio)
Etanol hidratado-5,31%
Gasolina comum-0,77%
Diesel S-10 (baixo teor de enxofre)-0,41%

A retração da gasolina foi observada em 20 unidades federativas, com quedas mais acentuadas nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul. Já as regiões Centro-Oeste e Norte mantiveram pressão de alta em pontos específicos. O diesel S-10 acompanhou a leve média negativa, mas exibiu comportamento bastante fragmentado: Sul, Sudeste e Centro-Oeste registraram reduções, enquanto Norte e Nordeste ainda conviveram com elevações significativas.

Oferta canavieira e a regra de paridade etanol/gasolina

A expressiva desvalorização do etanol decorreu do avanço da safra de cana-de-açúcar e do consequente aumento de oferta nos postos, intensificando a competitividade do derivado vegetal frente ao fóssil, sobretudo nas regiões Centro-Sul. Para que o abastecimento com o combustível hidratado apresente vantagem econômica real, descontadas as variações de autonomia veicular, o preço por litro deve se manter igual ou inferior a 70% do valor da gasolina. Este índice representa o parâmetro técnico de equilíbrio entre custo e eficiência energética para o consumidor final.

Com base nessa métrica, as seguintes unidades federativas oferecem condição favorável ao etanol:

  • Amapá
  • Bahia
  • Distrito Federal
  • Goiás
  • Mato Grosso do Sul
  • Mato Grosso
  • Paraná
  • Roraima
  • São Paulo

O que isso significa para o investidor

A trajetória de acomodação nos preços da bomba impacta diretamente a projeção de inflação ao consumidor, uma vez que os combustíveis possuem peso relevante no IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) e nos custos operacionais de empresas listadas na B3. O recuo inicial alivia pressões de curto prazo sobre o poder de compra, beneficiando indiretamente setores de logística e varejo. A sustentabilidade desse patamar, contudo, depende de variáveis externas e domésticas. O mercado observa como a política de preços da estatal (atrelada à paridade internacional) e eventuais mecanismos de compensação fiscal do governo federal se traduzirão na margem de refino e na repassabilidade de custos. Em um cenário de taxa Selic ainda em patamar restritivo, a contenção de itens sensíveis auxilia no alinhamento das expectativas para o custo da dívida pública e para os rendimentos do CDI (Certificado de Depósito Interbancário).

Fatores de risco e volatilidade

A estabilização recente não elimina a exposição a choques imprevistos. Marcelo Braga, diretor de Mobilidade e Operações da ValeCard, ressalta a necessidade de atenção contínua aos vetores de pressão:

“As discussões envolvendo novos subsídios federais para gasolina e diesel ajudam a reduzir parte da pressão de alta no curto prazo, mas a volatilidade internacional do petróleo e as incertezas relacionadas ao conflito no Oriente Médio seguem impactando a formação de preços no Brasil.”

Os principais riscos estruturais incluem:

  • Oscilações abruptas no preço do barril no mercado externo;
  • Tensões geopolíticas em rotas de escoamento no Oriente Médio;
  • Dispersão logística e tributária entre as regiões brasileiras, mantendo o diesel S-10 com preços assimétricos;
  • Intervenção estatal via subsídios ou alterações regulatórias na política de precificação.

O mercado acompanhará a efetiva implementação do anúncio da Petrobras no dia 29, a cadência do corte de cana nas usinas do Centro-Sul e os desdobramentos das discussões no Executivo federal sobre mecanismos de proteção à bomba. A convergência entre oferta doméstica e custos de importação definirá o patamar de equilíbrio para os próximos trimestres.