O Estreito de Ormuz (principal passagem para petroleiros no Golfo Pérsico) responde por 20% do tráfego mundial de óleo e gás, e o atual conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã já provoca elevação nos custos de frete, conforme avaliação de Cristiano Pinto da Costa, presidente da Shell Brasil.

Pressões Imediatas no Transporte de Hidrocarbonetos

O bloqueio parcial à navegação pelo Estreito de Ormuz gera perturbações no fluxo global de óleo e gás, com reflexos diretos nos preços de frete. De acordo com o executivo, esses custos já registram forte alta nos últimos dias e tendem a se manter elevados nas próximas semanas. A China e a Europa, maiores importadores, escapam por ora da rota direta do conflito, mas a duração da tensão definirá os desdobramentos maiores.

Demanda Sustentada por Óleo e Desaceleração na Transição Energética

A instabilidade reforça a necessidade contínua de hidrocarbonetos (termo que engloba petróleo e gás natural), com projeções de demanda aquecida até meados da próxima década. Eventos como a pandemia de Covid-19 e a invasão russa à Ucrânia já haviam moderado o ritmo da transição para fontes renováveis. Assim, o cenário atual pode atrair capitais para produção e exploração em áreas distantes do Oriente Médio, desde que haja regulação ambiental ágil, marco legal estável e incentivos fiscais atrativos.

O preço do petróleo, que tocou US$ 83 por barril recentemente, ainda não altera planos estratégicos de longo prazo na indústria. Decisões de investimento priorizam fundamentos de médio e longo prazos, não oscilações semanais. Uma fonte da Petrobras corrobora: mudanças no cronograma dependem de persistência no patamar elevado por meses, considerando efeitos na oferta do Golfo Pérsico, inflação global e variáveis macroeconômicas.

Expansão Acelerada da Shell no Brasil

Enquanto o Oriente Médio ferve, a Shell registra aportes recordes no território nacional. No ano passado, o desembolso atingiu R$ 12,5 bilhões, superando a média histórica de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão anuais. Avanços incluem o desenvolvimento dos campos Tupi e Lapa, além da aprovação final para Gato do Mato. Com Atapu no horizonte, os volumes de investimento devem crescer nos próximos anos.

A empresa ampliou sua presença de 10 para 50 blocos desde 2021, intensificando a exploração em regiões como a Bacia de Pelotas, no Rio Grande do Sul. A companhia monitora todos os leilões da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) para sustentar o crescimento. Em 24 de fevereiro de 2026, a produção atingiu recorde de 495,9 mil barris de óleo equivalente por dia (unidade padrão que converte gás em equivalência de barris de petróleo).

IndicadorValor Recente/Histórico
Investimento anual médio históricoUS$ 1 bi a US$ 1,5 bi
Investimento ano passadoR$ 12,5 bi
Blocos exploratórios (2021 → atual)10 → 50
Produção recorde (24/02/2026)495,9 mil boe/dia

Reestruturação em Andamento na Raízen

A Shell, controladora da Raízen junto à Cosan, destinou R$ 3,5 bilhões em capitalização para aliviar a dívida superior a R$ 55 bilhões da companhia. A expectativa é de aporte similar da Cosan, preservando a proporcionalidade e evitando consolidação da dívida no balanço da Shell. Negociações prosseguem sem prazo definido, respeitando restrições de cada acionista.

A preferência é manter integradas as unidades de etanol e distribuição de combustíveis, dada a interdependência operacional. Uma cisão em duas empresas independentes é opção secundária, priorizando primeiro a recapitalização — alinhada à visão dos credores. Tentativas de atrair novos investidores via data room (espaço virtual com dados confidenciais para due diligence) não prosperaram, limitando o diálogo a sócios atuais e bancos privados. Nos últimos anos, a Raízen vendeu ativos para conter endividamento.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física brasileiro, a tensão no Oriente Médio pode pressionar a inflação via combustíveis, influenciando a trajetória do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) e, por extensão, decisões do Banco Central sobre a Selic. Cenário otimista: conflito curto eleva frete temporariamente, beneficiando produtores fora da região como o pré-sal brasileiro, com retornos potenciais via royalties e fluxo de caixa de estatais e multinacionais. Pessimista: prolongamento trava fluxos, amplia volatilidade no câmbio (dólar vs. real) e freia transição energética, adiando ganhos em renováveis. Exposições indiretas à Raízen, via Cosan ou Shell, demandam monitoramento da reestruturação para evitar surpresas no balanço patrimonial.

Riscos

  • Incerteza sobre duração e intensidade do conflito, com potencial para maior disrupção no fluxo de 20% do óleo e gás global.
  • Persistência de preços elevados no petróleo impactando inflação interna e margens de refinarias.
  • Demora nas negociações da Raízen, elevando risco de default ou diluição acionária.
  • Dependência regulatória para novos investimentos no Brasil, como licenças ambientais e leilões da ANP.

Os desdobramentos dependem da evolução do conflito nas próximas semanas, além do cronograma de investimentos em campos como Gato do Mato e Atapu, e do desfecho da capitalização da Raízen junto a credores e Cosan.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.