Principais pontos

  • O comunicado do BC não entregou um caminho claro para os juros ao afirmar que o quadro de incerteza demanda serenidade e cautela na condução da política monetária.
  • A decisão veio na véspera de o Federal Reserve elevar sua taxa básica em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4%, com sinalização de mais aperto à frente.
  • A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg mostrou o senador Flávio Bolsonaro com 47,2% e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 46,8% em um eventual segundo turno.
  • A Petrobras informou que aumentará o preço médio do diesel para distribuidoras em R$ 1 por litro pelo prazo de 30 dias, a partir desta quinta-feira.

O Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, e deixou os próximos passos da política monetária em aberto na última reunião antes da eleição presidencial de outubro. A decisão veio na véspera de o Federal Reserve elevar sua taxa básica em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4%, com sinalização de mais aperto à frente. Para o investidor brasileiro, o contraste entre um Banco Central que começa a afrouxar e uma autoridade monetária americana que volta a apertar redesenha o cálculo de risco que envolve renda fixa local, câmbio e bolsa.

O Ibovespa havia encerrado a quarta-feira em queda de 0,51%, aos 185.547,66 pontos, com volume de R$ 29,80 bilhões e diferença de -954,98 pontos em relação à abertura. A mínima do dia ficou em 184.753,98 pontos e a máxima, em 186.738,25. O dólar comercial recuou 0,06%, a R$ 5,151 na venda, com mínima de R$ 5,137 e máxima de R$ 5,166. Na manhã desta quinta, os índices futuros de Nova York subiam e as praças europeias acompanhavam, num dia em que a agenda doméstica ainda reserva nova rodada de pesquisas eleitorais.

O recado em aberto do BC e o que ele trava para o investidor

O comunicado do BC não entregou um caminho claro para os juros ao afirmar que o quadro de incerteza demanda serenidade e cautela na condução da política monetária. Foi a última reunião antes da eleição presidencial de outubro, e a leitura é que o colegiado preferiu preservar graus de liberdade em vez de sinalizar o ritmo dos próximos cortes.

Para quem acompanha a renda fixa, a consequência prática é uma visibilidade menor sobre a trajetória da Selic nos próximos meses — exatamente no intervalo em que o mercado costuma exigir prêmios mais altos para carregar risco doméstico. Historicamente, a combinação de eleição próxima com orientação aberta tende a deixar a curva de juros mais sensível a cada novo dado de inflação, atividade ou intenção de voto.

Na véspera, a curva de juros futuros fechou com baixas ao longo de todo o trecho acompanhado, do vencimento de janeiro de 2027 ao de 2035.

O movimento mais forte apareceu nos vencimentos longos: o DI para janeiro de 2035 cedeu 0,195 ponto percentual, a 14,195%, enquanto o contrato de 2027 ficou estável, em 13,580%. O encurtamento do prêmio embutido na ponta longa costuma sinalizar alguma acomodação das expectativas de inflação futura, ainda que a leitura exata dependa do conjunto de dados das próximas semanas.

VencimentoTaxa (% a.a.)Variação (pp)
DI1F2713,5800,000
DI1F2813,625-0,045
DI1F2913,865-0,075
DI1F3114,070-0,160
DI1F3214,160-0,165
DI1F3314,190-0,180
DI1F3414,205-0,180
DI1F3514,195-0,195

Brasil corta, EUA sobe: a divergência que mexe com o câmbio

Do outro lado, o Fed elevou a taxa básica americana para a faixa de 3,75% a 4% e sinalizou mais aumentos nos próximos meses. A decisão era amplamente esperada, mas o comunicado e a entrevista do presidente da instituição, Kevin Warsh, entregaram pouco em termos de alívio — e o tom mais duro do dirigente foi o que ficou para os mercados.

A combinação de um BC brasileiro afrouxando e de um Fed apertando é o dado mais relevante do dia para quem tem exposição ao câmbio.

A leitura é direta: um diferencial de juros ainda amplo sustenta a atratividade do carrego em reais, mas esse carrego passa a competir com uma alternativa americana que ficou mais remunerada na margem. Quando o rendimento pago nos Estados Unidos sobe, o investidor global tende a exigir retornos mais altos para manter posições em moedas emergentes — o que costuma aparecer primeiro no preço do dólar futuro e nos prêmios da curva local.

O sinal externo reforçou esse pano de fundo. O índice dólar (DXY, que mede a moeda americana contra uma cesta de divisas desenvolvidas) avançou 0,64%, aos 100,25 pontos, na véspera, mesmo com o dólar comercial recuando levemente ante o real. Segundo o estrategista Art Hogan, da B. Riley Wealth, o mercado se apoia agora na alta do rendimento dos títulos de 10 anos dos Estados Unidos, que voltou a superar 5% — "um nível psicológico enorme", nas palavras dele. Na Ásia, o iene caiu para cerca de 155,50, recuando da máxima de sete meses de 152,89 registrada no mês.

O governo japonês afirmou que seguirá atuando para manter o mercado cambial ordenado. "Continuaremos a nos comunicar estreitamente com o Departamento do Tesouro dos EUA", declarou o secretário-chefe do Gabinete, Minoru Kihara, lembrando a intervenção conjunta de Japão e Estados Unidos no fim de julho. A postura do Japão interessa ao investidor brasileiro porque é um dos poucos episódios recentes de atuação coordenada em câmbio — e serve de termômetro para o apetite global por risco.

A reação dos mercados foi dividida na véspera: Wall Street fechou no vermelho e a renda fixa americana voltou a pressionar; já nesta quinta, os futuros subiam e as bolsas europeias ganhavam terreno. Essa alternância entre aversão e acomodação é típica de sessões que sucedem comunicados de banco central com pouca clareza sobre o ritmo do aperto.

Eleição: empate técnico e a agenda de pesquisas desta quinta

A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg mostrou o senador Flávio Bolsonaro com 47,2% e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 46,8% em um eventual segundo turno. A diferença de 0,4 ponto mantém os dois em empate técnico. Nos votos válidos, o senador aparece com 50,2% e o presidente, com 49,8%.

Está prevista para esta quinta a divulgação de pesquisa Datafolha, o que adiciona mais um ponto de volatilidade à sessão. Levantamento Atlas citado na fonte também aponta avanço de 12,9 pontos na associação do escândalo conhecido como Caso Master ao campo bolsonarista, enquanto a percepção sobre aliados de Lula ficou praticamente estável.

Ao longo do calendário eleitoral, os ativos domésticos historicamente passam a responder mais rápido a variações nas pesquisas do que a fundamentos corporativos de curto prazo — o que ajuda a explicar por que a agenda de levantamentos virou parte relevante do noticiário de mercado. Quanto maior a indefinição, maior costuma ser a exigência de retorno embutida nos preços.

No noticiário político, o presidente Lula afirmou que o país não aceita "político vira-lata" e acusou, sem provas, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro de estar nos Estados Unidos para tentar fazer com que Donald Trump interfira nas eleições. A fonte também destaca revisões de lucro para 2027 que trazem cautela ao setor bancário, ainda que a expectativa sobre eleições e juros siga sustentando o interesse dos investidores por bancos.

Petrobras: R$ 1 no diesel com desconto igual e efeito neutro no preço final

A Petrobras informou que aumentará o preço médio do diesel para distribuidoras em R$ 1 por litro pelo prazo de 30 dias, a partir desta quinta-feira. O ajuste, porém, será acompanhado da concessão de desconto no mesmo valor no âmbito da subvenção econômica instituída pelo governo federal.

O efeito prático é neutro: os preços de venda da estatal para as distribuidoras permanecem inalterados. A leitura é que o desenho da subvenção funcionou como um amortecedor entre a política de preços da companhia e o bolso do consumidor final. Ainda assim, o precedente interessa a quem acompanha o setor, porque qualquer mecanismo que isole a estatal do repasse integral da volatilidade do petróleo mexe com a percepção de risco sobre a política de preços.

Entre os papéis mais negociados da véspera, a ação preferencial da Petrobras (PETR4) liderou em número de negócios, com 71.952, e caiu 3,53%, a R$ 48,65. A ação ordinária (PETR3) recuou 4,27%, a R$ 53,83.

Agenda externa: petróleo em queda e o que observar hoje

Os contratos futuros de petróleo operavam em baixa, com o WTI recuando 1,74%, a US$ 100,65 o barril, e o Brent cedendo 2,20%, a US$ 103,50 o barril. O movimento reflete o aumento da oferta de petróleo saudita, que aliviou as preocupações com possíveis interrupções nas exportações do reino. Cotações menores de energia tendem a reduzir a pressão inflacionária global, o que ajuda a explicar parte da melhora do humor nos índices futuros americanos.

O minério de ferro negociado na bolsa de Dalian subiu 0,28%, a 710,50 iuanes (US$ 105,94), na segunda sessão consecutiva de alta, com siderúrgicas chinesas intensificando compras por via marítima antes de um feriado nacional.

Na Europa, as ações subiam em meio ao recuo do petróleo e à acomodação da onda global de vendas de títulos. A atenção do dia se volta ao Banco da Inglaterra, que — segundo ampla expectativa — deve manter os juros inalterados.

ReferênciaVariação
Dow Jones Futuro+0,70%
S&P 500 Futuro+0,81%
Nasdaq Futuro+1,05%
STOXX 600+0,46%
DAX (Alemanha)+0,49%
FTSE 100 (Reino Unido)+0,24%
CAC 40 (França)+0,23%
FTSE MIB (Itália)+0,50%

Na véspera, os três principais índices de Nova York fecharam em queda, digerindo a decisão do Fed: Dow Jones -1,18%, aos 51.462,55 pontos; S&P 500 -0,44%, aos 7.552,24; e Nasdaq -0,01%, aos 25.978,42.

Empresas: WEG, Bradsaúde e Rede D'Or na agenda corporativa

A WEG (WEGE3) anunciou a troca do vice-presidente de Transmissão e Distribuição para 2027. Carlos Diether Prinz deixará o cargo em 31 de dezembro de 2026. Troca de comando em área operacional é o tipo de evento que costuma passar em branco no pregão, mas merece registro por sinalizar reorganização interna de médio prazo.

A Bradsaúde (SAUD3) e a Rede D'Or (RDOR3) ampliaram a parceria com um novo projeto em Jundiaí. O anúncio representa mais uma iniciativa de crescimento orgânico da parceria entre as duas companhias, segundo a fonte.

Pano de fundo global: Japão, Índia e a disputa por chips de IA

No Japão, a primeira-ministra Sanae Takaichi manteve seus principais ministros em uma reforma de gabinete, incluindo Minoru Kiuchi na Economia, e prometeu acelerar políticas de estímulo ao crescimento. A decisão de promover um corte de impostos de dois anos sobre itens alimentícios já havia provocado uma onda de vendas de títulos públicos japoneses e críticas dos Estados Unidos. "Sem crescimento econômico, não podemos manter a sustentabilidade fiscal", disse a premiê.

Nos Estados Unidos, o Congresso aprovou uma lei de sanções contra a Rússia, e a Índia afirmou estar monitorando os desdobramentos, reiterando que seguirá garantindo segurança energética para sua população por meio da diversificação de fornecedores. Donald Trump, por sua vez, ameaçou cortar o comércio com a União Europeia após o convite para que o Canadá se torne membro associado do bloco.

Na frente tecnológica, a Huawei declarou que a demanda por chips de inteligência artificial supera a oferta e que está limitando vendas no exterior. O presidente rotativo do conselho, Eric Xu, disse que os testes com o chip Ascend 950DT trouxeram bons resultados e que muitos desenvolvedores chineses podem começar a treinar modelos nesse sistema no próximo ano.

Bolsa: altas, baixas e o placar da semana

Entre as maiores altas da véspera, o destaque ficou com o varejo e a construção: MGLU3 subiu 6,64%, a R$ 5,94; ASAI3 ganhou 4,66%, a R$ 10,10; CSNA3 avançou 4,03%, a R$ 6,46; RADL3 somou 4,01%, a R$ 20,23; e LREN3 teve alta de 3,14%, a R$ 11,50.

TickerVariaçãoPreço (R$)
MGLU3+6,64%5,94
ASAI3+4,66%10,10
CSNA3+4,03%6,46
RADL3+4,01%20,23
LREN3+3,14%11,50

Do lado negativo, o petróleo e a mineração puxaram as perdas: PRIO3 caiu 4,72%, a R$ 62,58; PETR3 recuou 4,27%, a R$ 53,83; PETR4 perdeu 3,53%, a R$ 48,65; USIM5 cedeu 3,17%, a R$ 7,03; e BRAP4 teve baixa de 2,93%, a R$ 20,85.

TickerVariaçãoPreço (R$)
PRIO3-4,72%62,58
PETR3-4,27%53,83
PETR4-3,53%48,65
USIM5-3,17%7,03
BRAP4-2,93%20,85

Considerando o número de negócios, as cinco ações mais movimentadas foram PETR4 (71.952 negócios, -3,53%), VALE3 (56.739, -2,14%), BBAS3 (37.520, +3,04%), BPAC11 (36.223, +1,05%) e SBSP3 (35.880, +0,59%).

Na semana, o Ibovespa acumula -0,89%. No mês, sobe 4,58%; no terceiro trimestre de 2026, 7,86%; e no ano, 15,16%.

O que fica da sessão

O dia combina dois movimentos que puxam em direções opostas. De um lado, o BC brasileiro inicia um ciclo de afrouxamento e mantém a porta aberta para os próximos passos; de outro, o Fed volta a apertar e empurra o rendimento do título de 10 anos americano de volta acima de 5%. Essa assimetria tende a manter o câmbio e a curva de juros domésticos no centro das atenções, enquanto a eleição adiciona uma camada própria de incerteza, com nova pesquisa Datafolha prevista para hoje.

Para quem acompanha a bolsa, o placar da semana mostra um índice ainda positivo no mês e no ano, mas sensível ao humor externo e ao noticiário político. A agenda desta quinta — com a pesquisa Datafolha, a decisão do Banco da Inglaterra e o comportamento do petróleo — oferece os próximos insumos para calibrar esse cenário.