O mercado de crédito brasileiro apresentou sinais mistos em janeiro: aceleração geral (0,2% no mês) coexistiu com aumento de empréstimos de maior risco, segundo relatório da Febraban divulgado um dia antes do BC. O volume total mantém expansão anual de 10,4%, mas o desempenho divergente entre famílias (+0,9% mensal) e empresas (-1,1% mensal) revela fragilidades estruturais.

Composição do crescimento

A expansão do crédito voltado às famílias se concentrou no segmento livre (+1% mensal), puxado por linhas rotativas de curto prazo e maior custo. Essas modalidades compensaram a queda no cartão de crédito à vista, utilizado para regularizar despesas como IPTU e IPVA. Paralelamente, o crédito direcionado (como rural e imobiliário) cresceu 18,7% na base anual, impulsionado por programas governamentais.

SegmentoCrescimento MensalCrescimento Anual
Famílias+0,9%+11,2%
Empresas-1,1%+9,0%
Total+0,2%+10,4%

Dinâmica dos empréstimos corporativos

O recuo do crédito para empresas está associado à sazonalidade típica do início de ano, quando a atividade econômica desacelera. Os recursos livres caíram 2,3% no mês - menos do que os 3,2% de janeiro/2023 - enquanto o segmento direcionado cresceu 0,8% mensal, puxado pela linha do BNDES voltada para PMEs. Rubens Sardenberg, diretor da Febraban, observa que "a sustentação do mercado vem de políticas públicas, especialmente as destinadas ao setor produtivo".

Alerta sobre inadimplência

A aceleração das concessões (+18,6% na comparação anual) ocorre em contexto de maior risco: as famílias atraídas por linhas rotativas enfrentam pior capacidade de pagamento. "A composição da carteira reflete priorização de empréstimos mais voláteis, aumentando a exposição ao calote", ressalta Sardenberg. O índice de inadimplência, embora ainda dentro do esperado, merece atenção na medida em que as taxas reais permanecem elevadas.

"A sustentação do mercado vem de políticas públicas, especialmente as destinadas ao setor produtivo"

O que isso significa para o investidor

Investidores devem observar com cautela os fundamentos do setor financeiro. A expansão do crédito direcionado (crédito rural com garantias governamentais e imobiliário via SFH) indica menor exposição a riscos específicos, enquanto o aumento das linhas livres pode pressionar a qualidade dos portfólios bancários. Com a Selic a 12,75% e projeções de desemprego acima de 10%, os juros reais elevados manterão o custo de captação das instituições financeiras em patamares elevados, limitando margens.

Riscos

  • Altas sucessivas na inadimplência das famílias
  • Desaceleração mais acentuada no crédito corporativo
  • Redução dos programas de subsídio federal

Perspectiva e próximos passos

A divulgação da Nota de Crédito do Banco Central (24/02) e o relatório de inadimplência de fevereiro (primeira quinzena de março) serão os próximos indicadores-chave. A manutenção do ritmo atual depende da recuperação da confiança empresarial, que enfrenta incertezas regulatórias, e da retomada do consumo com a inflação ainda elevada (IPCA de 12 meses em 10,3%).

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.