O Banco do Brasil (BBAS3) desembolsou R$ 31,633 bilhões em operações de crédito ao agronegócio entre 1º de julho e 19 de outubro, abertura da safra 2026/27. O valor equivale a 44,1% menos que os R$ 56,543 bilhões liberados no mesmo trecho do ciclo anterior, somados crédito rural e financiamentos à cadeia de valor, conforme informou o próprio banco. Para o encerramento da temporada, em 30 de junho de 2027, a instituição segue projetando R$ 210 bilhões, 0,5% acima do que desembolsou em 2025/26.
O contraste entre o ritmo do desembolso e o plano anual
A convivência entre um tombo de dois dígitos no acumulado e uma meta anual praticamente estável é o ponto que exige atenção de quem acompanha o papel. O calendário de liberação depende de decisões tomadas antes do plantio: o banco adiantou, na temporada passada, o financiamento de pré-custeio — a liberação antecipada de recursos que o produtor aplica na condução da lavoura — para médios produtores usarem no ciclo atual. Esse movimento desloca desembolsos para trás e esvazia a base de comparação. O vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do BB, Gilson Bittencourt, relatou em conversa com jornalistas um adicional de R$ 3,9 bilhões no Pronamp no trimestre entre março e junho deste ano.
| Indicador | Safra 2026/27 (até 19/10) | Safra 2025/26 (mesmo período) | Variação |
|---|---|---|---|
| Desembolso total ao agro | R$ 31,633 bi | R$ 56,543 bi | -44,1% |
| Pronaf | R$ 8,444 bi | R$ 8,301 bi | +1,7% |
| Pronamp | R$ 4,406 bi | não divulgado | -44,2% |
| Títulos do agronegócio | cerca de R$ 3,7 bi | R$ 6,7 bi | queda |
Como os R$ 210 bilhões serão distribuídos
Do total previsto para o ciclo que começou em 1º de julho e termina em 30 de junho de 2027, R$ 170 bilhões ficam com a agricultura empresarial — grandes produtores, cooperativas e agroindústrias —, faixa que abrange custeio, investimento, comercialização e industrialização. Outros R$ 40 bilhões são reservados à agricultura familiar e aos médios produtores. Dentro da fatia empresarial, R$ 25 bilhões devem ser direcionados à cadeia de valor, incluindo crédito agroindustrial e capital de giro.
Pronaf avança 1,7% e Pronamp recua 44,2%
No Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, os desembolsos chegaram a R$ 8,444 bilhões, 1,7% acima dos R$ 8,301 bilhões de igual intervalo da safra passada. O comportamento destoa do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural, que somou R$ 4,406 bilhões e recuo de 44,2%. Considerada a antecipação feita em março, o desempenho do Pronamp supera o do ciclo anterior, na avaliação do executivo — o que muda o significado do número lido de forma isolada.
Inadimplência encolhe a captação via títulos do agronegócio
Na agricultura empresarial, a retração não é exclusiva do BB: cooperativas e outras instituições também reduziram a concessão ao grupo, segundo Bittencourt. O motivo apontado é o avanço da inadimplência, que eleva a percepção de risco e torna os bancos mais seletivos — inclusive com clientes que não estão em atraso. O efeito aparece na captação por títulos do agronegócio, que caiu de R$ 6,7 bilhões para cerca de R$ 3,7 bilhões na comparação entre os dois períodos. A modalidade de investimento, com exceção do Pronaf, é a que exibe maior cautela, com produtores ajustando operações em meio a menor liquidez. Produtores capitalizados e adimplentes, porém, mantêm projetos de expansão de área.
Por que a safra pesa na carteira do banco
O BB é o líder do crédito rural no país, o que faz da temporada agrícola uma frente relevante para a originação de operações. Um avanço mais lento no desembolso tende a se refletir na composição da carteira ao longo do ciclo, enquanto a maior percepção de risco no campo costuma pressionar a qualidade dos ativos e levar a critérios mais rígidos de aprovação. O equilíbrio entre volume e seletividade é o que deve definir o resultado da safra para a instituição.
O que observar até 30 de junho de 2027
Três variáveis concentram a atenção daqui para frente: a velocidade com que os desembolsos retomam ritmo, a evolução da inadimplência na carteira rural e o espaço que os títulos do agronegócio terão para ocupar o lugar do crédito tradicional. Nenhum desses movimentos é automático — todos dependem de como a safra evolui e da capacidade de pagamento dos produtores nos próximos meses. O ajuste descrito pelo banco aparece mais no ritmo e na seletividade da concessão do que no tamanho da meta anunciada para o ciclo.
