O volume de crédito em circulação no Brasil alcançou R$ 7,398 trilhões em agosto, alta de 0,5% sobre julho e de 9,2% em doze meses, conforme números apresentados pelo Banco Central nesta terça-feira. O total agregado esconde dois movimentos opostos: as carteiras de pessoas físicas seguem crescendo em ritmo firme, enquanto o crédito concedido às empresas ficou praticamente estagnado.

Famílias puxam o avanço; empresas perdem tração

Os saldos das pessoas físicas subiram 0,8% de julho para agosto e acumulam 10,5% de expansão em 12 meses. Já a carteira das empresas recuou 0,1% na comparação mensal e avançou 7,1% na janela anual. Esse descompasso sugere que a demanda das famílias continua sendo o principal combustível do crédito brasileiro, enquanto o lado corporativo opera com apetite menor.

A mesma divisão reaparece dentro do crédito livre — a modalidade em que os bancos decidem livremente para quem emprestar, sem destinação obrigatória de recursos. Nesse segmento, as pessoas físicas avançaram 0,8% em agosto e as jurídicas recuaram 0,6%. Nas concessões dessazonalizadas — recorte que elimina efeitos previsíveis de calendário, como a quantidade de dias úteis —, o recuo das empresas chega a 3,2%, contra alta de 0,7% das famílias.

A fatia do crédito no PIB recuou no mês

A proporção entre o saldo devedor do sistema e o Produto Interno Bruto caiu de 55,5% para 55,4% entre julho e agosto. O dado de julho levou revisão: era 55,6% e passou a 55,5%. Quando essa relação encolhe, o crédito avança menos que a atividade econômica nominal do período.

Na comparação entre modalidades, o crédito direcionado — aquele cujos recursos têm destino definido por regras públicas, como os repasses do BNDES e o funding da poupança — subiu 0,8%, enquanto o livre ficou em 0,2%.

Imobiliário e veículos sustentam a ponta das famílias

Duas linhas explicam boa parte do fôlego das pessoas físicas. O saldo direcionado para habitação alcançou R$ 1,431 trilhão, com alta de 1,1% em agosto e de 13,8% em 12 meses. Já o financiamento livre para compra de veículos chegou a R$ 415,527 bilhões, avanço de 1,4% no mês e de 10,9% no acumulado anual.

Os dois ritmos anuais superam os 10,5% da carteira total de pessoas físicas, o que mostra que a expansão não está distribuída de forma homogênea entre as linhas.

Setores: serviços e indústria à frente, agro quase parado

SegmentoSaldo em agostoVariação mensalVariação em 12 meses
IndústriaR$ 1,018 trilhão+0,5%+6,1%
ServiçosR$ 1,669 trilhão+0,4%+7,0%
AgropecuárioR$ 57,584 bilhões+0,1%+5,6%
PJ no exterior e créditos não classificadosR$ 8,507 bilhões+16,6%+35,0%

A rubrica que reúne empresas com sede fora do país e operações não classificadas registrou a maior variação de todo o relatório, com +16,6% no mês e +35,0% em 12 meses. O saldo, porém, é pequeno diante do estoque total do sistema, o que ajuda a explicar a volatilidade dessa linha.

BNDES: agroindustrial acelera, investimento não sai do lugar

Os desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para empresas cresceram 0,4% em agosto, com alta de 10,3% em 12 meses. Dentro das linhas, a disparidade é grande.

As linhas voltadas ao financiamento agroindustrial subiram 4,2% no mês, o capital de giro avançou 2,1% e o financiamento de investimentos ficou praticamente estável, com 0,1%.

Concessões: o sinal muda conforme o ajuste sazonal

As concessões de crédito livre — que medem o fluxo de novas operações, e não o estoque já contratado — somaram R$ 647,9 bilhões em agosto, recuo de 0,4% no mês e avanço de 11% em 12 meses, sem ajuste sazonal. Para pessoas físicas houve queda de 2,1%, com R$ 346,6 bilhões, e para empresas alta de 1,7%, somando R$ 301,3 bilhões. No acumulado de 12 meses, os dois grupos caminham em ritmo semelhante: 10,6% e 11,6%.

Com o ajuste sazonal, parte do quadro se inverte: o total cresce 1,7%, as pessoas físicas sobem 0,7% e as empresas caem 3,2%. No crédito livre dessazonalizado, o avanço é de 3,3%, sendo 1,0% para pessoas físicas e 5,2% para empresas. O direcionado recua 12,2%, com quedas de 7,5% no segmento de pessoas físicas e de 9,7% no de empresas.

O conjunto dos dados aponta para expansão moderada do estoque de crédito, com composição cada vez mais dependente das famílias. Para quem acompanha o setor bancário e o consumo doméstico, a distância entre uma carteira de pessoas físicas aquecida e empresas reticentes é o ponto que deve seguir em observação — as concessões direcionadas, que dependem de recursos com subsídio, ainda não encontraram ritmo estável.

Crédito ampliado chega a R$ 21,996 trilhões

Na métrica mais abrangente do relatório, que agrega empréstimos do Sistema Financeiro Nacional e operações com títulos públicos e privados, o saldo atingiu R$ 21,996 trilhões em agosto, o equivalente a 164,9% do PIB, com avanço de 0,6% sobre julho. Nessa base ampliada, a parcela destinada às empresas recuou 1,1% no mês e corresponde a 54,6% do PIB.