O apetite do investidor brasileiro por criptoativos negociados fora do país voltou a crescer em setembro de 2026. As operações classificadas pelo Banco Central como criptoativos com passivo correspondente — a categoria que abriga as stablecoins — somaram US$ 842,7 milhões, cerca de 20% acima de agosto. A reação, porém, mantém o indicador 49% abaixo dos US$ 1,65 bilhão registrados em setembro de 2025, conforme as Estatísticas do Setor Externo divulgadas na segunda-feira (26).
Dois meses de alta não fecham a cratera de julho
A retomada tem apenas dois meses e partiu de uma base bastante baixa. Em julho, o volume havia desabado para US$ 571,5 milhões, perto de um quinto do patamar de junho — aproximadamente US$ 2,6 bilhões —, tombo próximo de 80%. Agosto trouxe o primeiro avanço, com US$ 702,3 milhões, e setembro confirmou a trajetória de alta. Ainda assim, o fluxo atual segue cerca de 68% menor que o pico de junho.
| Referência | Volume movimentado |
|---|---|
| Setembro de 2025 | US$ 1,65 bilhão |
| Junho de 2026 | ~US$ 2,6 bilhões |
| Julho de 2026 | US$ 571,5 milhões |
| Agosto de 2026 | US$ 702,3 milhões |
| Setembro de 2026 | US$ 842,7 milhões |
| Jan-set de 2026 | US$ 16,8 bilhões |
| Jan-set de 2025 | US$ 11 bilhões |
A régua usada pelo Banco Central
A separação adotada pela autoridade monetária ajuda a interpretar os números. De um lado ficam os criptoativos com passivo correspondente: transações internacionais com tokens que contam com emissor ou vínculo de obrigação. As stablecoins — moedas digitais lastreadas em ativos de referência, em geral o dólar, como USDT e USDC — são o exemplo mais representativo desse grupo. Do outro lado estão os ativos sem emissor, caso do Bitcoin, contabilizados em linha distinta, na conta de capital do balanço de pagamentos.
Regulação redesenhou o mercado em poucos meses
O tombo de julho coincidiu com o avanço das normas do Banco Central que passaram a disciplinar a atuação de empresas de criptomoedas no Brasil. O arcabouço reúne exigência de autorização prévia, capital mínimo, controles internos e regras próprias para remessas internacionais com ativos digitais.
Fernando Rocha, à frente do Departamento de Estatísticas do Banco Central, comentou o movimento quando os números de julho vieram a público, ligando-o ao período de adaptação do mercado às exigências regulatórias.
Desde então, a Binance reduziu o escopo de serviços e de criptomoedas oferecidos aos brasileiros, enquanto a Revolut suspendeu temporariamente as operações com ativos digitais no país. Bybit, OKX e a própria Binance formalizaram pedidos de licença para seguir atuando; o prazo da primeira fase de solicitações termina nesta sexta-feira (30).
Bitcoin caminha na direção oposta
A conta que reúne criptomoedas sem emissor — o Bitcoin é o exemplo mais conhecido — não acompanhou a recuperação das stablecoins. As despesas com esses ativos, que medem aquisições feitas por residentes no Brasil junto a contrapartes estrangeiras, ficaram em US$ 30,2 milhões em setembro, contra US$ 88,7 milhões um ano antes, recuo de aproximadamente 66%. No acumulado de janeiro a setembro, somaram US$ 469,5 milhões, ante US$ 797,6 milhões no mesmo intervalo de 2025 — baixa de cerca de 41%.
As receitas ligadas a essa categoria, por sua vez, alcançaram US$ 52,2 milhões em setembro e deixaram saldo positivo de US$ 22 milhões na conta de capital. Doze meses antes, o mesmo mês havia fechado negativo em US$ 67,9 milhões.
O que os números agregam para quem investe
O retrato do ano é bem diferente do retrato do mês. De janeiro a setembro, as operações internacionais com criptoativos que têm passivo correspondente somaram US$ 16,8 bilhões, contra US$ 11 bilhões no mesmo período de 2025 — expansão de aproximadamente 52%. O valor já equivale a cerca de 99% dos US$ 16,94 bilhões contabilizados em todo o ano passado, sustentado pela forte atividade do primeiro semestre, quando a demanda mensal superou US$ 2 bilhões em várias ocasiões.
Três leituras se destacam. A primeira: o recuo recente é de nível, não de tendência anual — o choque regulatório reduziu o fluxo mensal, mas não apagou o crescimento acumulado.
A segunda: as categorias acompanhadas pelo Banco Central reagiram de formas distintas. O segmento com emissor, ligado às stablecoins, recupera volume mês a mês; o segmento sem emissor, ligado ao Bitcoin, segue com despesas em queda e inverteu o sinal do saldo na conta de capital.
A terceira: os dados de setembro ainda não permitem afirmar se o mercado voltará ao patamar anterior às mudanças regulatórias. Com o prazo da primeira fase de licenças vencendo nesta sexta-feira (30), a composição das exchanges autorizadas a operar no país deve definir o novo normal do fluxo internacional.
Para o investidor pessoa física, a série mensal do Banco Central funciona como termômetro do dinheiro que brasileiros levam para plataformas no exterior — não como medida de preço do Bitcoin nem de valorização de stablecoins. O que se observa é uma troca de ritmo entre as duas metades da conta: a compra de ativos com emissor voltou a subir, enquanto a aquisição de ativos sem emissor continua em retração.
