O veterano de Wall Street Jordi Visser olha para o mesmo motor que domina o mercado — a expansão da inteligência artificial — e chega a uma conclusão desconfortável para quem concentrou carteira em chips: a melhor forma de capturar o ciclo pode estar nos tokens que sustentam pagamentos e ativos digitais. A cesta de 100 ações de IA que ele acompanha acumula ganho de cerca de 40% em 2026, mas passou a oscilar mais do que o Bitcoin em uma janela móvel de 126 dias, e o fundador da Visser Labs ampliou suas posições para além de Bitcoin, Ether e Solana.
Um currículo de três décadas e uma tese simples
Visser não é um entusiasta improvisado de cripto. A trajetória dele soma cerca de 30 anos no mercado, com passagens por cargos de direção no Morgan Stanley e na Weiss Multi-Strategy Advisers; hoje ele comanda a pesquisa AI Macro Nexus na 22V e a Visser Labs. A tese que sustenta as apostas parte dos agentes de IA — programas autônomos capazes de executar tarefas, inclusive financeiras, a partir de uma instrução em linguagem natural.
Na leitura dele, esses agentes farão pelas criptomoedas algo parecido com o que a App Store e o smartphone fizeram pelos aplicativos: entregam a camada de distribuição que faltava para o usuário final. Com isso, a atividade migraria para pagamentos em cripto e para ativos tokenizados — representações digitais de ações, títulos ou imóveis registradas em blockchain, negociáveis 24 horas e sem intermediário central. O próprio boom atual do setor, na avaliação dele, tem a IA como combustível: sem ela, o mercado cripto não estaria no ciclo de valorização em curso.
O outro lado: os números que esfriaram a convicção
A cautela com ações veio antes do discurso otimista sobre cripto. Visser começou a reduzir a exposição à Micron em meados de maio, depois de concluir que fundos de hedge e investidores pessoa física haviam se amontoado na mesma tese. Os fundamentos por trás do entusiasmo, porém, eram concretos: no relatório de 29 de abril, a Microsoft informou que o negócio de IA gerava receita anualizada de US$ 37 bilhões, mais que o dobro de um ano antes. A Micron, por sua vez, relatou em março receita de US$ 23,86 bilhões no segundo trimestre fiscal, quase o triplo na comparação anual.
O gargalo aparece quando o custo de erguer a infraestrutura supera o caixa que a operação já existente produz. A Oracle ilustra o desequilíbrio: US$ 55,7 bilhões em despesas de capital (capex, o investimento em ativos físicos como data centers) no ano fiscal de 2026, contra US$ 32 bilhões de fluxo de caixa operacional, além de US$ 43 bilhões levantados em dívida.
| Referência | Valor |
|---|---|
| Receita anualizada do negócio de IA da Microsoft | US$ 37 bilhões |
| Receita da Micron no 2º trimestre fiscal | US$ 23,86 bilhões |
| Capex da Oracle no ano fiscal de 2026 | US$ 55,7 bilhões |
| Fluxo de caixa operacional da Oracle | US$ 32 bilhões |
| Dívida captada pela Oracle | US$ 43 bilhões |
| Valorização da cesta de 100 ações de IA em 2026 | cerca de 40% |
Gráficos do setor, como o da JPMorgan Asset Management usado para acompanhar hiperescaladores — operadores de nuvem em escala industrial, cujo volume de processamento exige investimento contínuo em data centers —, mostram justamente o divórcio entre capex e fluxo de caixa livre, além de múltiplos de valuation comparados ao S&P 500.
A cesta de 42 tokens e o termômetro Dogecoin
Até agosto, a fatia cripto da carteira dele era restrita a Bitcoin, Ether e Solana. O BTC continua sendo a maior posição, mas o portfólio ganhou uma gama mais ampla de tokens. Para medir o humor desse mercado, ele mantém um índice de pesos iguais com 42 tokens e quatro ações de capital aberto — carteira que, segundo o próprio, supera o Bitcoin desde junho, e da qual pretende manter todos os componentes.
O sinal de varejo que ele observa com atenção é a Dogecoin. A moeda meme funciona como termômetro do apetite especulativo da pessoa física, combustível que ele considera indispensável para sustentar uma alta mais ampla: é a energia que alimenta o setor conforme novos participantes entram.
Privacidade entra na tese
Outro tema já financiado na carteira é privacidade. Visser sustenta que a popularização da IA tornará proteção de identidade e sigilo de dados mais valiosos, na medida em que fraudes e outras formas de abuso se multiplicam. Zcash e Monero estão entre os projetos que se encaixam nessa aposta. A lógica declarada não é escolher uma empresa vencedora isolada, mas comprar a tese de que privacidade vira infraestrutura.
O risco que derruba a tese
Nem tudo é assimetria positiva. O cenário que fura a tese é uma desaceleração forte da IA capaz de arrastar os mercados acionários. Nessa hipótese, o mercado cripto não encerraria o ciclo de alta, mas voltaria a testar as mínimas vistas há pouco. Ainda assim, ele projeta vários anos de expansão na demanda por capacidade computacional puxada por agentes de IA, com a ressalva de que o investidor deve moderar a expectativa de retorno das ações.
O que isso muda para o investidor brasileiro
Para quem investe daqui, a provocação de Visser tem menos a ver com escolher entre cripto e ações e mais com reconhecer que as duas teses já estão entrelaçadas. Uma carteira global montada nos últimos dois anos costuma carregar exposição indireta a capex de IA via fundos de índice e BDRs, enquanto a parcela cripto frequentemente se resume ao Bitcoin — exatamente o ponto que ele diz ter superado com a cesta ampliada.
Dois pontos merecem atenção. O primeiro é que a comparação de volatilidade não é gratuita: quanto mais a cesta de ações de IA se comporta como ativo de risco puro, menor o argumento de diversificação ao manter as duas pontas. O segundo é o risco de execução da própria tese — pagamentos com agentes e ativos tokenizados dependem de infraestrutura, regulação e adoção ainda em formação.
A leitura útil é de alocação: entender quanto da carteira depende, direta ou indiretamente, do mesmo ciclo de investimento em IA — e como uma correção desse ciclo atingiria as duas pontas ao mesmo tempo.
