A sessão de negociações desta quinta-feira, 28 de maio, nos mercados de juros futuros foi marcada por movimentos abruptos, impulsionados inicialmente por sinalizações diplomáticas no Oriente Médio e, subsequentemente, pela divulgação de indicadores econômicos domésticos. Após oscilações de alta e baixa de até seis pontos-base, as taxas dos DIs (contratos de Depósito Interfinanceiro que precificam os juros básicos no Brasil) encerraram o pregão praticamente estáveis, refletindo um cenário de indefinição geopolítica aliado a dados trabalhistas aquém das projeções de consenso.
Pressão Geopolítica e a Curva de Juros Globais
Os contratos avançaram nas primeiras horas do dia, sustentados pela bateria de dados macroeconômicos e pela apreensão com o conflito internacional. O panorama se inverteu no meio da manhã quando veículos de imprensa reportaram que Estados Unidos e Irã teriam selado um memorando preliminar para prorrogar um cessar-fogo por 60 dias, medida condicionada à validação do presidente norte-americano Donald Trump. A notícia gerou impacto imediato em ativos de risco: o barril de petróleo Brent recuou e os rendimentos dos Treasuries (títulos da dívida pública dos EUA considerados a principal referência global de juros livres de risco) caíram. O alívio externo pressionou a curva de juros brasileira para baixo, até que a agência iraniana Tasnim divulgou, por volta das 16h53, que o documento não havia sido formalizado. Até o encerramento do pregão nos EUA, o rendimento do Treasury de dez anos registrava queda de 3 pontos-base, operando a 4,455%.
Indicadores Domésticos e Reação no Mercado Brasileiro
No front interno, a curva reagiu fortemente ao Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). O relatório apontou a geração de apenas 85.888 vagas com carteira assinada em abril, número bastante inferior à mediana de 230.000 esperada em levantamento com economistas. Trata-se do pior resultado para o mês desde abril de 2020, quando a economia fechou 981.342 postos devido à pandemia. Paralelamente, a pesquisa do IBGE mostrou que a taxa de desocupação nos três meses encerrados em abril recuou para 5,8%, ante 6,1% no trimestre anterior e 6,6% no mesmo período de 2025. O Tesouro Nacional também reportou um superávit primário (resultado das contas públicas sem o pagamento de encargos da dívida) de R$ 25,198 bilhões em abril, superando os R$ 18,195 bilhões registrados no mesmo mês do ano passado e ficando acima da expectativa de mercado de R$ 24,05 bilhões.
| Vencimento DI | Ajuste Anterior | Mínima da Sessão | Fechamento | Variação (bps) |
|---|---|---|---|---|
| Janeiro de 2028 | 13,849% | 13,785% | 13,83% | -2 bps |
| Janeiro de 2035 | 14,005% | 13,970% | 14,025% | +2 bps |
Atuação do Banco Central e Expectativas Inflacionárias
O Banco Central do Brasil mantém a taxa Selic em 14,50%. A precificação atual do mercado consolida a expectativa de um corte de 25 pontos-base na reunião de junho. Contudo, analistas apontam que a sustentação de um ciclo de flexibilização monetária mais amplo permanece incerta, especialmente diante dos choques geopolíticos que pressionam a inflação. O diretor de Política Monetária da autoridade, Nilton David, enfatizou o desconforto institucional com a escalada das expectativas para 2028. Conforme o último boletim Focus (relatório semanal com a mediana das projeções dos economistas), a inflação projetada para aquele ano subiu para 3,65%, patamar acima dos 3,50% vigentes antes do início do conflito. O centro da meta oficial perseguida pelo BC é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual, estabelecendo um teto de 4,5%. Às 14h34, logo após a divulgação do Caged, o DI para 2028 tocou a mínima de 13,785%, enquanto o contrato para 2035 marcou 13,970%.
“A descompressão nos vencimentos de 2027 e 2028 foi um reflexo direto do relatório do Caged, tratando-se de um movimento pontual. A trajetória de recuo observada hoje foi, de fato, puxada pelo ambiente externo.” — André Muller, economista-chefe da AZ Quest
“A instituição monitora de perto essa perturbação atual e atuará para evitar que os efeitos se traduzam em desancoragem inflacionária para além do horizonte considerado relevante.” — Nilton David, diretor de Política Monetária do BC
O que isso significa para o investidor
Para o investidor pessoa física que acompanha a renda fixa, a dinâmica atual reforça a importância de monitorar a duração (prazo de vencimento) das carteiras. A precificação de um ciclo de cortes da taxa básica de juros extremamente enxuto indica que o mercado não aposta em uma queda rápida da curva. Estratégias de mark-to-market (avaliação a mercado dos títulos antes do vencimento) em ativos prefixados ou atrelados ao IPCA podem sofrer maior volatilidade se as taxas se estabilizarem em patamares elevados por mais tempo. Por outro lado, o recuo do desemprego e o superávit primário acima do esperado oferecem algum colchão fiscal e de demanda, mas não são suficientes, isoladamente, para forçar uma flexibilização monetária agressiva. A alocação deve considerar que os juros reais continuam atrativos, porém o caminho de queda da Selic depende crucialmente da ancoragem das expectativas de longo prazo.
Riscos em Evidência
- Escalada do conflito no Oriente Médio, que poderia elevar o preço de commodities energéticas e reacender pressões inflacionárias globais.
- Desancoragem das projeções de inflação para 2028, forçando o Banco Central a manter a política monetária restritiva por um período prolongado.
- Volatilidade nos rendimentos dos títulos americanos, cujos movimentos de alta historicamente limitam o espaço para cortes da Selic no Brasil.
Perspectiva e Próximos Passos
Nas próximas semanas, o mercado ficará atento às atualizações do boletim Focus e à postura verbal da diretoria do BC em busca de sinais sobre a amplitude do ciclo de cortes. A consolidação ou não do acordo diplomático entre Washington e Teerã continuará ditando o fluxo de capitais e o preço de ativos de risco, enquanto a divulgação de novos dados de preços internos definirá se a política monetária seguirá em trajetória de normalização ou permanecerá em patamar restritivo.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
