As taxas dos Depósitos Interfinanceiros (DI) registraram recuos consistentes na segunda-feira, interrompendo quatro dias consecutivos de altas, impulsionadas pelo cancelamento do leilão de títulos atrelados à inflação pelo Tesouro Nacional. Enquanto o ambiente internacional operava sob pressão de expectativas de elevação da taxa de juros americana, o mercado doméstico viu a curva de juros futuros recuar, com destaque para os vencimentos mais distantes que absorviam a tensão recente.
Reação da Curva de Juros e Ações do Tesouro
O anúncio do Tesouro, realizado antes do pregão, removeu temporariamente parte da pressão vendedora concentrada no trecho longo da curva a termo (estrutura que projeta as taxas de juros para diferentes prazos no futuro). A taxa do DI futuro com vencimento em janeiro de 2027 encerrou o dia em 14,22%, registrando queda de 4 pontos-base (centésimos de porcentagem) frente ao ajuste de 14,256% do pregão anterior. Na ponta mais distante, janeiro de 2035 negociou em 14,54%, com recuo expressivo de 19 pontos-base em relação aos 14,729% do dia anterior. A volatilidade intraday foi intensa: após tocar a máxima de 14,715% às 9h09, a taxa para 2035 atingiu a mínima de 14,470% às 12h50, logo após a divulgação da suspensão do leilão de Notas do Tesouro Nacional — Série B (NTN-B), títulos públicos indexados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
| Vencimento | Taxa de Fechamento | Variação (p.b.) | Fechamento Anterior |
|---|---|---|---|
| Jan/2027 | 14,22% | -4 | 14,256% |
| Jan/2035 | 14,54% | -19 | 14,729% |
| Intraday 2035 (Mín.) | 14,470% | -26 | — |
Para normalizar a curva, o Tesouro manteve a oferta de Letras Financeiras do Tesouro (LFT), papéis lastreados na taxa Selic, prevista para terça-feira. Historicamente, ajustes na emissão de NTN-B são ferramentas recorrentes para desinflar o trecho longo. Há duas semanas, foram comercializados apenas 133.400 títulos, montante significativamente inferior aos 900.000 papéis negociados um mês antes. Em março, durante a escalada de tensões no Oriente Médio, a estratégia envolveu a recompra de ativos.
Contexto Macroeconômico e Projeções de Inflação
O movimento doméstico ganhou contorno específico diante das decisões recentes do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Na quarta-feira passada, o colegiado reduziu a taxa Selic em 25 pontos-base, estabelecendo-a em 14,25% ao ano. A leitura da comunicação adotou um viés mais conciliatório, conhecido como postura dovish (branda no combate à inflação), preparando o terreno para uma nova redução de 25 pontos-base em agosto, mesmo com as projeções inflacionárias em trajetória de alta. O boletim Focus reforçou essa percepção: a mediana das estimativas para o IPCA em 2026 subiu de 5,30% para 5,33%, enquanto a projeção para 2027 saltou de 4,10% para 4,15%, e para 2028 ajustou-se de 3,68% para 3,70%.
Para a taxa básica de juros, a expectativa de fechamento deste ano foi elevada de 13,75% para 14,00%, mantendo-se a previsão de 12,00% para o final de 2027.
Pressões Internacionais e Cenário Externo
A dinâmica interna contrastou com o ambiente lá fora. Os rendimentos dos Treasuries (títulos da dívida pública dos Estados Unidos) mantiveram a escalada, puxados pela perspectiva de que o Federal Reserve (Fed) eleve os juros ainda este ano. Às 16h38, o yield do Treasury de dez anos — referência global para precificação de ativos — avançava 6 pontos-base, atingindo 4,509%. No front geopolítico, avanços nas negociações de paz entre Estados Unidos e Irã, mediadas por Catar e Paquistão, sugerem um roteiro para acordo final em até 60 dias. Contudo, declarações do presidente Donald Trump sobre possível retomada de hostilidades e o fechamento do Estreito de Ormuz por Teerã sustentaram a aversão ao risco, equilibrando parcialmente os ganhos obtidos com os avanços diplomáticos.
O que isso significa para o investidor
Para o investidor pessoa física, a interrupção da alta nos juros futuros sinaliza uma janela de reprecificação para a renda fixa pré-fixada e atrelada ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário, índice derivado das operações de DI). A redução temporária do prêmio de risco nos vencimentos longos permite realinhamentos estratégicos em carteiras de longo prazo. Caso a ata do Copom reforce a trajetória de cortes sem comprometer o controle da inflação, a curva pode apresentar movimentos de achatamento (diferença entre juros longos e curtos se reduz). Na hipótese oposta, uma leitura mais restritiva ou sinais de ancoragem inflacionária frágil podem reacender a demanda por indexadores de IPCA, pressionando novamente os contratos futuros para cima. A manutenção do leilão de LFT reforça a preferência do Tesouro por captar recursos atrelados à taxa básica, alinhando-se ao ciclo atual de política monetária.
Fatores de Risco
- Divulgação da ata do Copom com comunicação mais hawkish (viés mais restritivo e favorável a juros altos), renovando a pressão de alta na curva.
- Desancoragem das expectativas de inflação para além do teto da meta, exigindo reaprecificação dos prêmios de risco.
- Escalada de juros nos Estados Unidos e valorização do dólar, reduzindo o fluxo estrangeiro para emergentes e impactando a liquidez local.
- Imprevisibilidade nas negociações internacionais e no Estreito de Ormuz, que pode elevar o preço do petróleo e reacender pressões inflacionárias.
Os olhos do mercado se voltam para a publicação da ata do último encontro do Copom na manhã de terça-feira, documento que definirá se o banco central confirma a guinada branda na condução monetária ou se ajusta o discurso frente à piora nas projeções de preços. Paralelamente, investidores monitoram o leilão de LFT e a reação dos indicadores norte-americanos às decisões de política econômica do Fed, elementos que ditarão a profundidade dos movimentos na curva de juros doméstica nas próximas sessões.
