Durante depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Accioly, revelou uma distorção estrutural nos fundos administrados pela Master: uma relação simbiótica entre gestores e investidores para manter ativos contábeis inflacionados artificialmente. O executivo exemplificou a situação como um jogo de má-fé, onde a ficção patrimonial permitia à instituição continuar emitindo Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com aparência de solidez financeira.

O 'Alinhamento Perverso' nas Gestões de Ativos

Segundo Accioly, o mecanismo operava com incentivos distorcidos: gestores justificavam a sobreavaliação de papéis no portfólio enquanto investidores mantinham aplicações nesses fundos por reconhecer o benefício mútuo.

"Não são os gestores que estão dizendo para ele que a meia furada que ele botou no ativo do fundo vale R$ 500 milhões. Ela foi [...] o promotor ativo desses superdimensionamentos."
Essa dinâmica transformou a Master de vítima potencial em principal agente motor dessa manipulação contábil.

Papel Ativo do Banco na Manipulação do Balanço

Contrariando a narrativa usual de fraudes detectadas passivamente, Accioly destacou o papel proativo da instituição: os superdimensionamentos dos ativos nos fundos onde investia eram conduzidos pela própria Master como estratégia estrutural. Esse artifício contábil gerava balanços aparentemente robustos, fundamentais para a emissão de CDBs com ratings atrativos ao público investidor retail. A prática colocava em xeque a solidez de uma das principais fontes de captação do sistema financeiro.

Limites entre Reguladores: CVM vs. Banco Central

Questionado sobre responsabilidades regulatórias, Accioly separou esferas de atuação: enquanto compete à CVM fiscalizar a conformidade dos fundos de investimento, a regulação da emissão de CDBs pertence ao Banco Central. A demarcação reforça a necessidade de coordenação entre os órgãos para prevenir gaps regulatórios em instrumentos que atuam como depósitos estruturados com garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

O que isso significa para o investidor

Os fatos revelam a importância de revisar práticas de due diligence em fundos que utilizem ativos complexos ou ilíquidos, onde a precificação pode depender de metodologias subjetivas. Em ambiente de taxa Selic reduzida, o apetite por produtos com remuneração elevada amplia o risco de exposição a distorções semelhantes. Investidores devem priorizar transparência na composição dos portfólios e diversificação de contrapartes, evitando concentração em papéis cuja avaliação dependa de premissas duvidosas.

Riscos a Acompanhar

  • Contaminação de confiança no mercado de CDBs estruturados
  • Potencial endurecimento nas regras de emissão sob pressão regulatória
  • Revisão de práticas de valuation de ativos complexos em fundos multimercado

Perspectiva e Próximos Passos

Com a Master sob investigação criminal e regulatória, observa-se a possibilidade de ações judiciais coletivas e revisões retroativas nos balanços. O caso deve impulsionar debates sobre necessidade de maior supervisão na avaliação de ativos de fundos, especialmente aqueles com exposição a instrumentos complexos ou com metodologias não padronizadas de pricing.