O piso de entrada de um fundo tokenizado — aquele cujas cotas são registradas em um livro-caixa digital compartilhado, e não apenas no sistema da gestora — recuou de US$ 1.000 para cerca de US$ 20 no exemplo internacional citado pelo presidente da CVM, Otto Lobo. O número apareceu no IV Congresso de Direito de Fundos de Investimentos, promovido pela Associação de Advogados (AASP), onde o dirigente organizou a agenda da autarquia em três blocos: mercado preditivo, tokenização e inteligência artificial aplicada à supervisão.

A ordem de prioridade foi apresentada na sexta-feira (23) e não veio acompanhada de cronograma. O argumento que amarra as três frentes é escala: na visão de Lobo, o mercado de capitais brasileiro atingiu tamanho e complexidade que tornam obsoleto o modelo de fiscalização desenhado para outra época. A leitura para quem aplica é que a régua regulatória — de acesso, de custo e de capacidade de coibir fraudes — tende a se mover junto com essas três frentes, e não de forma isolada.

Contratos de evento: por que a CVM não quer tratá-los como aposta

A primeira frente é o mercado preditivo. O produto funciona em plataformas nas quais investidores compram e vendem contratos cujo preço acompanha a probabilidade de um acontecimento futuro: pleitos eleitorais, indicadores econômicos, premiações ou episódios geopolíticos. Lobo afirmou que a discussão passará a ocorrer dentro da CVM e fez questão de separar o segmento do setor de apostas, tratando-o como algo distinto das bets. Segundo ele, o assunto volta à mesa em toda conversa com reguladores estrangeiros e é um debate mundial.

A distância não é retórica: aposta e valor mobiliário ocupam caixas regulatórias diferentes.

A distância não é retórica: aposta e valor mobiliário ocupam caixas regulatórias diferentes.

Cada uma dessas caixas traz obrigações próprias de oferta, guarda e publicidade. Ao dizer que o tema entra na pauta da comissão, o regulador sinaliza em qual delas o produto será discutido. Para o investidor pessoa física, a consequência está no desenho do contrato: quem opera eventos passaria a lidar com exigências de transparência e supervisão típicas de valores mobiliários, e não com a lógica de um site de apostas.

Tokenização: três DLTs em teste e uma nova moldura regulatória

A segunda frente já saiu do papel. O Grupo de Trabalho de Tokenização (GTT), montado pela CVM em julho, concluiu a primeira etapa de recomendações e migrou para testes práticos com Tecnologia de Registro Distribuído (DLT) — um registro compartilhado e replicado entre várias instituições, em vez do lançamento isolado em sistemas internos.

Entre as referências internacionais mencionadas está a Franklin Templeton, com cerca de US$ 3 bilhões em ativos de fundos tokenizados distribuídos por diferentes mercados e instituições. Custos menores, operações mais rápidas e rendimentos calculados de forma automática aparecem como os ganhos centrais desse formato.

O ponto que mais interessa ao varejo é o tamanho do bilhete. A redução de US$ 1.000 para cerca de US$ 20 indica um desenho em que a cota de fundo deixa de exigir patrimônio elevado para ser acessada — mudança que, se replicada em escala, tende a ampliar a base de cotistas de estratégias hoje restritas a grandes investidores. A CVM, segundo seu presidente, trabalha em uma estrutura regulatória própria para ativos tokenizados e dará sequência aos testes de infraestrutura para emissão.

Lago de dados e IA: supervisão mais rápida que a fraude

A terceira frente é a inteligência artificial. A autarquia está montando um grande lago de dados — repositório central que concentra informações hoje dispersas do mercado de capitais — para que o material seja processado de forma automatizada por modelos de IA. O uso prioritário apontado é o combate a fraudes e a manipulações de mercado.

A referência citada é uma discussão da OCDE: manipulações e fraudes futuras também devem vir acompanhadas de inteligência artificial, e o enfrentamento precisaria da mesma tecnologia. Na prática, supervisão automatizada tende a encurtar o intervalo entre a anomalia e a detecção, o que eleva o custo de quem tenta distorcer preços. O presidente da CVM acrescentou que o uso da tecnologia terá papel central nesse combate, especialmente diante da expectativa de que invasões a sistemas também passem a contar com IA.

Para ele, o volume alcançado pelo mercado brasileiro inviabiliza fiscalizar como no passado — a modernização é descrita como necessidade, não como escolha de agenda.

O que fica no radar até a próxima sinalização

FrenteDado divulgado
Fundo tokenizado (exemplo citado)Entrada mínima de US$ 1.000 reduzida para cerca de US$ 20
Franklin TempletonCerca de US$ 3 bilhões em ativos de fundos tokenizados
Testes de infraestruturaTrês DLTs em avaliação pela CVM
Grupo de Trabalho de TokenizaçãoCriado em julho, com primeira etapa concluída
Mercado preditivoTema entra na agenda da CVM, sem prazo divulgado

Não houve prazo para consulta pública, minuta de norma ou data de conclusão dos testes. Essa lacuna importa: mudança de regra só altera produto, custo e acesso quando sai do discurso e entra em vigência. O ponto de observação mais objetivo, portanto, é o calendário regulatório — abertura de consultas, definição do perímetro do mercado preditivo e conclusão da fase de infraestrutura dos ativos digitais.

Para quem tem exposição a fundos, os três eixos se conectam por um mesmo fio: baratear a porta de entrada de novas estruturas de investimento enquanto se amplia a capacidade de vigiar o que circula lá dentro. O acompanhamento útil, daqui para frente, é menos sobre o discurso de modernização e mais sobre o texto que a autarquia colocar em consulta.