O setor de construção civil brasileiro atravessa um momento de transição estratégica, conforme revelam as prévias operacionais do primeiro trimestre de 2026 (1T26) divulgadas pela Cyrela (CYRE3), Mitre (MTRE3) e Even (EVEN3). Em um pregão marcado pelo otimismo macroeconômico, onde o Ibovespa atingiu a máxima histórica de 199 mil pontos, as ações das construtoras responderam com altas moderadas. A Cyrela registrou avanço de 0,32% (cotada a R$ 28,09), a Mitre subiu 0,76% (R$ 3,98) e a Even valorizou 0,28% (R$ 7,28) por volta das 11h09. O mercado agora processa a desaceleração nos lançamentos sob a ótica da preservação de caixa e foco na qualidade do estoque.

Cyrela (CYRE3): Resiliência na Baixa Renda e Ajuste de Estoque

A Cyrela apresentou vendas líquidas de R$ 2,21 bilhões (participação da companhia), valor que ficou 3% aquém das expectativas do JPMorgan. O volume de lançamentos, totalizando R$ 1,77 bilhão, surpreendeu negativamente ao vir 23% abaixo do projetado. Consequentemente, a VSO (Vendas Sobre Oferta) — métrica que indica o percentual de unidades vendidas em relação ao estoque total — recuou para 16,0%. Este patamar representa uma queda de 5,2 pontos percentuais na comparação anual e de 1,2 ponto percentual frente ao trimestre anterior, sendo o nível mais baixo desde o 1T23. Para efeito de comparação, a concorrente Eztec registrou uma VSO superior, de 18,3%.

Apesar da desaceleração nas vendas totais, a gestão de estoque mostrou sinais de eficiência. O JPMorgan estima que o estoque atual suporte cerca de 14,5 meses de oferta, uma leve melhora frente aos 14,8 meses do trimestre anterior. Um dado de destaque foi a aceleração na venda de unidades prontas, que saltou de R$ 195 milhões no 4T25 para R$ 271 milhões no 1T26. A visão do Bradesco BBI reforça essa percepção positiva ao notar que as vendas de unidades em construção cresceram 24% anualmente, evidenciando uma demanda sólida para projetos em andamento.

Métrica / InstituiçãoRecomendaçãoPreço-Alvo (R$)P/L 2026 (Estimado)
Bradesco BBICompraR$ 41,006,0x
BTG PactualCompraR$ 40,00-JPMorganNeutraR$ 35,50-Goldman SachsCompraR$ 34,00-

Even (EVEN3): Ausência de Lançamentos e Descontos Patrimoniais

A Even enfrentou um trimestre mais árido, caracterizado pela ausência total de novos lançamentos e pela desaceleração da sua VSO. Analistas do Bradesco BBI observam que, embora a companhia possua um cronograma robusto de projetos para o restante de 2026, faltam gatilhos operacionais imediatos que possam impulsionar o papel no curto prazo. O BTG Pactual atribui esse desempenho à sazonalidade e a um ambiente macroeconômico ainda restritivo para os segmentos de média e alta renda, onde a sensibilidade às taxas de juros é maior.

Um ponto de atenção para o investidor é o P/VPA (Preço sobre Valor Patrimonial) da companhia, que negocia atualmente a cerca de 0,8 vez. O P/VPA é um múltiplo que compara o valor de mercado da empresa com o valor contábil de seus ativos líquidos; quando abaixo de 1, indica que o mercado está avaliando a empresa por menos do que seu patrimônio líquido sugere. As recomendações para EVEN3 permanecem neutras, com preços-alvo situados entre R$ 9,50 (BTG) e R$ 10,00 (BBI).

Mitre (MTRE3): Execução em Alta Renda e Valuation Descontado

Diferente de seus pares, a Mitre conseguiu entregar um desempenho operacional considerado positivo pelo Bradesco BBI, impulsionado por um lançamento estratégico no segmento de alta renda. Embora esse novo projeto tenha elevado o estoque total, o volume de unidades prontas permanece em níveis baixos, o que reduz o risco de carregamento financeiro. A companhia apresenta uma posição confortável para as entregas de 2026, já possuindo 95% de nível de pré-venda nessas unidades.

Entretanto, o BTG Pactual pontua que a venda de estoques antigos foi pressionada, mantendo a VSO abaixo de médias históricas. O cenário para média e alta renda continua sendo o principal detrator de retorno. Em termos de valuation, a Mitre negocia a um múltiplo P/VPA de 0,4 vez, um desconto significativo que, no entanto, não tem sido suficiente para alterar a recomendação neutra dos principais bancos, que estabelecem preços-alvo entre R$ 4,80 e R$ 5,00.

O que isso significa para o investidor

O cenário para as construtoras de capital aberto na B3 aponta para uma bifurcação clara. O segmento de baixa renda, beneficiado por programas habitacionais e maior resiliência de demanda, tem sido o porto seguro para companhias como a Cyrela, onde espera-se que essa faixa responda por 40% do lucro líquido em 2026. Para o investidor, o foco deve recair sobre a capacidade de execução e o controle de estoques. A queda gradual da taxa Selic (taxa básica de juros) é o principal catalisador esperado para reaquecer os financiamentos imobiliários de médio e alto padrão, mas a velocidade desse repasse ainda gera cautela.

Riscos Identificados

  • Sensibilidade aos Juros: Manutenção de taxas elevadas por mais tempo pode continuar inibindo o segmento de média e alta renda.
  • Sazonalidade: O primeiro trimestre é historicamente mais fraco em termos de vendas e lançamentos.
  • Estoques de Alta Renda: A dificuldade em desovar estoques de maior valor agregado pode pressionar as margens operacionais.
  • Execução: Atrasos em cronogramas de obras podem impactar o reconhecimento de receita e o fluxo de caixa.

O mercado aguarda agora a divulgação dos resultados financeiros completos para confirmar se a melhora na qualidade operacional e a redução de estoques se traduzirão em ganho de rentabilidade e dividendos. O monitoramento do ciclo de cortes de juros e dos dados de inflação (IPCA) continuará sendo o termômetro para o setor imobiliário nos próximos meses.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.