Mary Daly, presidente do Federal Reserve de San Francisco (Fed SF, banco regional do Federal Reserve, sistema de bancos centrais dos EUA), alertou que o recente choque nos preços do petróleo, impulsionado pela guerra envolvendo o Irã, prolongará o processo de retorno da inflação americana à meta de 2%. Apesar de uma economia fundamentalmente robusta e um mercado de trabalho estabilizado, esse fator pode manter o Fed em postura de cautela quanto às taxas de juros, atualmente na faixa de 3,50% a 3,75%.
Economia americana em posição favorável, mas pressionada
A dirigente destacou a solidez da economia dos EUA, com o mercado de trabalho em equilíbrio e a política monetária posicionada de forma restritiva, capaz de conter a inflação sem gerar desemprego significativo. Essa configuração, segundo ela, permite pressionar os índices inflacionários para baixo de maneira controlada. No entanto, o conflito no Irã alterou esse panorama ao disparar os preços do petróleo, elevando o custo da gasolina para mais de US$ 4 por galão e impactando consumidores e empresas.
Choque petrolífero redefine cronograma inflacionário
Antes do episódio, o Fed contava com a dissipação da inflação associada a tarifas no fim do ano, abrindo espaço para eventuais reduções nas taxas de juros — possivelmente uma ou duas. A decisão de manter a meta de juros na faixa de 3,50% a 3,75% nas duas reuniões realizadas em 2024 reflete essa estratégia. Com o petróleo em alta, porém, o processo de desinflação se estenderá, especialmente após os contratos de petróleo registrarem queda de cerca de 12% na semana, graças ao cessar-fogo anunciado na terça-feira entre Irã e EUA.
Cenários delineados para política monetária
Daly esboçou trajetórias possíveis. No otimismo, o cessar-fogo se consolida, o conflito arrefece, os preços do petróleo recuam e a economia retoma crescimento vigoroso com emprego estável e inflação em declínio gradual, influenciada pela redução das tarifas — permitindo normalização das taxas. Alternativamente, interrupções persistentes no suprimento manteriam a inflação acima do esperado, justificando a manutenção das taxas atuais até confirmação de controle inflacionário. A elevação de juros surge como opção de menor probabilidade.
O que isso significa para o investidor
Para o investidor pessoa física brasileiro, o alongamento da desinflação nos EUA reforça pressões sobre o câmbio, com o dólar potencialmente mais valorizado ante o real em meio a commodities voláteis como o petróleo. Cenário otimista traria alívio global, favorecendo fluxo para emergentes e possível arrefecimento da Selic; no pessimista, inflação persistente americana pode elevar yields (rendimentos) de treasuries (títulos do Tesouro americano), impactando alocações em renda fixa e ações exportadoras na B3. Fatores como evolução da guerra, relatório de CPI (Índice de Preços ao Consumidor dos EUA) e paridade câmbio-Selic demandam monitoramento atento.
Riscos associados ao conflito
Os riscos incluem:
- Persistência de preços elevados no petróleo, elevando inflação simultaneamente ao crescimento econômico.
- Desequilíbrio entre metas do Fed de pleno emprego e estabilidade de preços, com potencial perda de vagas se a restrição monetária for excessiva.
- Incerteza sobre duração do cessar-fogo, com reflexos em gasolina, fertilizantes, turismo e rotas de navegação.
Adiante, acompanhe o relatório de CPI do mês passado, previsto para mostrar alta no ritmo mais acelerado em quase quatro anos, além de sinais de estabilização do conflito e abertura de rotas marítimas. A duração dos preços energéticos definirá os próximos passos do Fed.
