A Dexco (DXCO3), dona de marcas como Deca, Hidra, Portinari e Ceusa, fechou o terceiro trimestre de 2026 com prejuízo líquido de R$ 142 milhões, revertendo o lucro de R$ 14,2 milhões apurado um ano antes. O dado que reorganiza a leitura do balanço: R$ 136,7 milhões do resultado negativo vieram de itens não recorrentes, sem efeito direto sobre o caixa.

A maior fatia dessa conta não descreve a operação corrente. São R$ 118,4 milhões atrelados à reestruturação e ao encerramento de operações, além de R$ 11,8 milhões de marcação a valor justo dos investimentos da DX Ventures. Excluído esse bloco, o prejuízo recorrente do trimestre encolhe para R$ 5,5 milhões, 87,1% menor do que o registrado no 3T25.

A distância entre as duas leituras aparece também no acumulado do ano. Entre janeiro e setembro, o prejuízo líquido chega a R$ 55,4 milhões, contra lucro de R$ 111,3 milhões em igual intervalo de 2025. Na base recorrente, o período segue positivo, com R$ 100,2 milhões — avanço de 41,2% em doze meses.

Urussanga e Cabo de Santo Agostinho: de onde vem a baixa contábil

O bloco não recorrente tem endereço. A Dexco vendeu a fábrica de revestimentos cerâmicos de Urussanga (SC) e encerrou a unidade de louças sanitárias de Cabo de Santo Agostinho (PE), movimento que gerou baixa contábil de máquinas, equipamentos e estoques. A justificativa da companhia é o ajuste do parque industrial a um mercado de materiais de construção com demanda mais fraca.

A decisão tem contrapartida financeira. A venda da planta de Urussanga rendeu R$ 153,0 milhões recebidos no trimestre, valor que aparece tanto na redução da dívida quanto na composição do fluxo de caixa livre.

Madeira cresce 16,2% e sustenta receita de R$ 2,33 bilhões

A receita líquida consolidada avançou 9,8%, para R$ 2,33 bilhões. O desempenho não é uniforme entre as divisões: Madeira cresceu 16,2%, enquanto Metais e Louças recuou 2,1% e Revestimentos Cerâmicos cedeu 5,2%.

DivisãoReceita líquida (variação anual)
Madeira+16,2%
Metais e Louças-2,1%
Revestimentos Cerâmicos-5,2%

Do lado da Madeira, o avanço combina reajustes de preços de painéis, venda de um mix de produtos de maior valor agregado e receita com bases florestais — composição que ajuda a explicar por que a expansão do faturamento não depende apenas de volume embarcado.

O Ebitda — sigla de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, métrica usada para aproximar a geração operacional de caixa — somou R$ 420,7 milhões, queda de 11,4% na comparação anual. No critério ajustado e recorrente, o indicador subiu 31,6%, para R$ 585,4 milhões, com margem de 25,1%, ganho de 4,2 pontos percentuais.

Indicador3T26Variação anual
Receita líquidaR$ 2,33 bi+9,8%
EbitdaR$ 420,7 mi-11,4%
Ebitda ajustado e recorrenteR$ 585,4 mi+31,6%
Margem Ebitda ajustado25,1%+4,2 p.p.
Prejuízo líquido recorrenteR$ 5,5 mi-87,1%

Fora do consolidado, a joint venture LD Celulose, contabilizada por equivalência patrimonial, contribuiu com ganho de R$ 2,2 milhões no trimestre, alta de 57,6% em um ano, puxada pela recuperação dos preços de celulose no mercado internacional.

Provisão de R$ 20,5 milhões com a Bartira

O crédito comercial cobrou preço entre julho e setembro. As despesas com vendas chegaram a R$ 338,7 milhões, alta de 19,3%, e incluíram provisão de perdas de R$ 20,5 milhões referente ao crédito concedido à Bartira, empresa de móveis da Casas Bahia que entrou em recuperação judicial. O valor decorre de vendas de painéis de madeira feitas pela Dexco com pagamento parcelado e será discutido no processo.

Os custos operacionais somaram R$ 1,38 bilhão, leve alta de 0,2%, com ganhos de produtividade, menor pressão de insumos e corte nas expedições. As despesas gerais e administrativas ficaram em R$ 74,8 milhões, alta de 5,1%, e o resultado financeiro gerou despesa líquida de R$ 219,5 milhões, 3,1% acima de um ano antes, pressionado pelo pagamento de juros da dívida.

Dívida em queda e caixa livre de R$ 636 milhões

A dívida líquida encerrou o trimestre em R$ 4,78 bilhões, recuo de 6,9% frente ao segundo trimestre. A alavancagem — relação entre dívida líquida e geração operacional — caiu para 2,36 vezes, abaixo das 2,72 vezes do 3T25. A companhia atribui o movimento à geração de caixa operacional e à entrada de recursos da venda de Urussanga.

O fluxo de caixa livre alcançou R$ 636 milhões no terceiro trimestre, salto sobre os R$ 121 milhões do segundo, sustentado pela redução de estoques nas três divisões, pelo corte de investimentos em novos projetos e pelos R$ 153,0 milhões recebidos com a planta catarinense.

O que o balanço sinaliza para quem acompanha DXCO3

A leitura que separa o resultado contábil do desempenho operacional tende a ser mais útil ao investidor do que a manchete do prejuízo. O Ebitda ajustado e recorrente cresceu 31,6%, a margem ganhou 4,2 pontos percentuais e a alavancagem recuou — três sinais que apontam para melhora na qualidade da operação, ainda que a receita esteja concentrada em uma divisão.

O contraste entre os dois critérios de Ebitda — queda de 11,4% no reportado e alta de 31,6% no ajustado — é o retrato de um trimestre em que eventos de reestruturação pesaram mais do que a rotina industrial. Distorções desse tipo costumam se repetir enquanto o processo de fechamento de unidades não se esgotar, o que mantém a comparação anual sensível a baixas contábeis.

O presidente da Dexco, Raul Guaragna, classificou o trimestre como forte e associou o desempenho à consistência do plano de transformação da companhia, que chega ao primeiro ano. Ele destacou o avanço do faturamento, da margem operacional e do fluxo de caixa, além da redução da dívida.

Dois pontos merecem atenção. O primeiro é a natureza do crescimento da Madeira: preço e mix explicam boa parte do avanço, o que historicamente deixa a base de comparação mais exigente quando o reajuste perde tração. O segundo é a provisão com a Bartira, que expõe o risco de crédito embutido na cadeia de material de construção — vender a prazo para o varejo do setor segue sendo uma fonte concreta de perda.

Para o acionista, o trimestre mostra uma empresa que trocou parte do resultado contábil por um portfólio menor e mais enxuto. A consistência dessa estratégia depende de a demanda por materiais de construção reagir antes que a alavancagem volte a subir — e de a geração de caixa continuar vindo da operação, não de novas vendas de ativos.