A curva de juros brasileira voltou a embutir prêmio de risco fiscal nesta terça-feira, véspera da decisão do Copom, e o movimento se concentrou justamente nos vencimentos usados pelo mercado para medir confiança na política econômica. O DI (Depósito Interfinanceiro, taxa que baliza boa parte da renda fixa e os contratos futuros de juros) para janeiro de 2028 fechou em 14,57%, ante 14,48% do ajuste anterior. Na ponta longa, o vencimento de janeiro de 2035 subiu a 15,4%, contra 15,332% da véspera.
A alta não foi pontual: acompanhou toda a sessão e se concentrou nos prazos mais distantes, padrão que costuma aparecer quando a dúvida é fiscal e não apenas de política monetária.
Lara Resende propõe Selic a 7,5% em 12 meses
O gatilho veio de uma informação divulgada no fim de semana: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontraria com André Lara Resende, um dos criadores do Plano Real. O que pesou não foi a reunião em si, mas o diagnóstico publicado recentemente pelo economista, que defende uma mudança na condução das políticas fiscal e monetária.
Na proposta, a Selic seria reduzida de forma programada e gradual até 7,5% ao ano em 12 meses, com o objetivo declarado de diminuir a dívida pública e ajustar as contas do governo sem cortes profundos de despesas. O texto ainda sugere usar parte das reservas internacionais para conter pressões sobre o real.
O mercado recebeu a ideia com desconfiança. Analistas argumentam que o remédio pode produzir o efeito oposto ao pretendido, alimentando a inflação em vez de ancorá-la e expondo as reservas internacionais a desgaste.
Durigan vê deficiências e nega debate no governo
Ainda na manhã de terça, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tratou de afastar a ideia do radar oficial. Ele afirmou que a proposta de Lara Resende tem deficiências e não está na mesa de discussão do governo, que segue defendendo um ajuste fiscal gradual.
Durigan também falou sobre a troca de diretores do Banco Central: disse que ainda não teve oportunidade de conversar com Lula sobre as indicações, mas garantiu que as nomeações serão feitas com rigor técnico e com diferentes perfis.
Duas expectativas para a mesma reunião
A decisão do Copom, marcada para quarta-feira, chega com o mercado dividido. O relatório Focus mostrou que os economistas consultados pelo Banco Central mantêm a aposta em corte de 0,25 ponto percentual na Selic nesta semana, mas elevaram a projeção para o fim do ano a 13,50%, contra 13,25% da leitura anterior.
Em outra frente, uma pesquisa com economistas apontou expectativa majoritária de manutenção da Selic no patamar atual, de 13,75%, depois da reação negativa dos mercados à reeleição de Lula.
| Referência | Nível |
|---|---|
| DI janeiro/2028 | 14,57% (ante 14,48%) |
| DI janeiro/2035 | 15,4% (ante 15,332%) |
| Selic hoje | 13,75% |
| Focus: corte na quarta | 0,25 ponto percentual |
| Focus: Selic no fim do ano | 13,50% (antes 13,25%) |
| Treasury 10 anos (16h52) | 4,946% (+5 pontos-base) |
Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, separa dois assuntos que o mercado costuma misturar: a chance de alívio já nesta quarta-feira e as condições que sustentariam uma sequência de quedas. Para ele, espaço na ponta curta pode até existir, mas o salto recente dos vencimentos longos desenha um quadro capaz de travar a trajetória de cortes.
O prêmio cobrado na ponta longa
Gabriel Jardim, CEO da Trade Arena, descreve a ordem de transmissão desse ajuste: quando não há sinalização clara sobre a condução da economia e sobre a regra de gastos, a reprecificação chega primeiro ao câmbio e aos vencimentos distantes.
A consequência prática aparece no custo do dinheiro no tempo. A ponta longa funciona como cobrança de prêmio: quanto mais aberta a dúvida sobre a trajetória da dívida, maior o retorno exigido para carregar um título de prazo distante. Esse prêmio tende a encarecer o capital de longo prazo e a ampliar a volatilidade de ativos precificados a partir da curva, inclusive para quem não opera diretamente no mercado futuro de juros.
Treasuries e a eleição americana
O ambiente externo jogou na mesma direção. Por volta das 16h52, o rendimento do Treasury de dez anos — referência global para decisões de investimento — avançava 5 pontos-base (0,05 ponto percentual), a 4,946%, enquanto os investidores acompanhavam as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, pleito que pode mudar o controle do Congresso americano.
O que fica em aberto para quarta-feira
A decisão do Copom encerra a semana com duas perguntas abertas: qual será o tamanho do alívio, se houver, e qual a chance de a autoridade monetária sinalizar perda de fôlego do ciclo. A reação da ponta longa é o termômetro mais imediato disso: se as taxas distantes continuarem subindo enquanto o curto recua, o mercado estará indicando que o prêmio de risco fiscal segue no comando da curva.
