A curva de juros futura brasileira operou em queda pelo quarto pregão consecutivo nesta segunda-feira, com os Depósitos Interfinanceiros (DIs, contratos que projetam a trajetória da taxa básica de juros) cedendo mais de 10 pontos-base (variação de 0,01%). O movimento acompanhou o recuo dos rendimentos dos Treasuries (títulos da dívida pública dos EUA) após o anúncio de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, prevendo a reabertura do Estreito de Ormuz.

Acordo Geopolítico e Pressão de Baixa nos Juros Externos

A assinatura do memorando por Donald Trump, JD Vance e Mohammad Bagher Qalibaf sinaliza o fim do conflito. O protocolo, mediado pelo Paquistão, terá cerimônia oficial na sexta-feira na Suíça. A retomada do tráfego pelo Estreito de Ormuz — rota por onde passam 20% do petróleo e gás comercializados globalmente — pressionou o Brent para a faixa de US$ 83 o barril, queda próxima de 5%.

Investidores ajustaram posições na curva americana: os Treasuries de dois anos recuaram 2 pontos-base para 4,062%, e os de dez anos caíram na mesma magnitude, fechando em 4,469%. Além do cenário interno, os agentes monitoram a decisão do Federal Reserve na tarde de quarta-feira. Os contratos de Fed funds precificam 98,6% de probabilidade de manutenção da taxa americana na banda de 3,50% a 3,75%. Contudo, a projeção de mercado para os próximos meses sinaliza cautela, com participantes esperando ao menos uma elevação dos juros até o encerramento de dezembro.

Curva de Juros Local e Precificação para o Copom

No mercado doméstico, o DI de janeiro de 2028 fechou a 14,35%, recuo de 16 pontos-base frente a 14,512%. A ponta longa, janeiro de 2035, caiu 7 pontos-base para 14,195%, com mínima intraday de 14,090% (-18 pontos-base). A recalibragem ocorre às vésperas do Copom. Opções da B3 indicam 49,05% de chance de corte de 25 pontos-base na Selic (atual 14,50%), contra 44% de manutenção. Para agosto, 70% apontam estabilidade e 27% corte.

Reunião do CopomProbabilidade de Corte (25 pb)Probabilidade de Manutenção
Junho49,05%44%
Agosto27%70%

Projeções do Focus e Debate sobre Índices de Inflação

O boletim Focus trouxe revisões inflacionárias. A mediana para 2026 saltou para 5,30% (antes 5,11%); para 2027, para 4,10% (antes 4,03%). 2028 subiu para 3,68%, refletindo deterioração das expectativas, dado que a meta do BC é 3%. A Selic projetada para o fim de 2026 avançou para 13,75%, e para 2027 pulou para 12,00%. O mercado mantém aposta em corte nesta semana.

AnoProjeção AnteriorNova Mediana Focus
20265,11%5,30%
20274,03%4,10%
20283,65%3,68%

Paralelamente, em podcast da Warren Investimentos, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu iniciar um debate técnico sobre a metodologia do índice oficial de preços no Brasil. Segundo ele, estudos indicam defasagens na estrutura atual, que mantém ponderação elevada para bens e serviços com relevância histórica reduzida, enquanto subestima drasticamente a participação de setores modernos, como plataformas de streaming e computação em nuvem na cesta do consumidor.

O que isso significa para o investidor

A convergência de fatores geopolíticos e domésticos impõe uma recalibragem estrutural na curva de juros. O recuo dos DIs e a queda dos Treasuries demonstram que o mercado já precifica o impacto positivo da normalização das rotas comerciais sobre os custos globais. Para o investidor, observa-se um achatamento momentâneo, com a ponta longa apresentando menor sensibilidade à melhora do risco-país. No cenário base, a efetivação do protocolo e a manutenção do viés acomodativo pelo Banco Central devem sustentar a trajetória descendente, favorecendo o mark-to-market (ajustamento diário ao valor de mercado) em papéis pré-fixados (títulos com taxa travada na emissão). Em um cenário adverso, a desistência das negociações ou a inércia dos dados de preços elevariam o prêmio de risco, comprimindo os ganhos na curva a termo.

Riscos e Fatores de Atenção

  • Execução: atrasos no Estreito de Ormuz reacendem volatilidade no petróleo.
  • Fed: 98,6% de manutenção da taxa em 3,50%-3,75%, mas mercado precifica alta até dezembro.
  • Risco fiscal: elevação do Focus sinaliza convergência lenta à meta de 3%.
  • Copom: corte (49,05%) e manutenção (44%) geram volatilidade intra-pregão.

Na quarta-feira, as decisões do Copom e do Fed definirão os rumos. Na sexta, a assinatura formal na Suíça ditará a desescalada. O monitoramento do fluxo de capitais e da curva validará a consolidação do alívio ou a imposição de novo patamar às taxas brasileiras.