O Ibovespa pode romper a faixa dos 200 mil pontos no cenário desenhado pelas urnas, com o alívio aparecendo primeiro nos juros de prazo mais longo. A projeção é de Leonardo Mendes, economista e consultor financeiro da Manchester Investimentos: no entendimento dele, o quadro formado após o primeiro turno levaria o DI com vencimento em janeiro de 2031 a recuar para perto de 13,5% já na abertura do pregão de segunda-feira.

Para quem acompanha a B3, a troca de cenário se traduz em dois canais práticos: a queda esperada dos juros de médio e longo prazo, que mexe no retorno exigido por praticamente todo ativo de risco, e a percepção de risco institucional menor, que costuma aparecer com mais intensidade em papéis de companhias controladas pelo Estado. Os dois dependem de como o mercado lê a nova composição do Congresso e a disposição do futuro governo de mexer nas contas públicas — não de um resultado isolado do segundo turno.

Juros longos: DI jan/2031 recuando para 13,5%

Os contratos de DI negociados na B3 funcionam como referência para o custo do dinheiro em cada data de vencimento, e é nos prazos mais longos que o mercado embute sua leitura sobre a saúde das contas públicas. Nessa ponta da curva, o cenário descrito por Mendes aponta para recuo: o vencimento de janeiro de 2031 apareceria perto de 13,5% na abertura do pregão de segunda-feira.

O economista sustenta que a soma de uma percepção fiscal melhor com um ambiente institucional amigável à agenda econômica abriria caminho para juros caindo mais rápido. O movimento de queda da Selic, observa, já é esperado pelo mercado independentemente de quem vença o segundo turno — o que o placar eleitoral altera é o ritmo e o tamanho do corte.

ReferênciaLeitura do cenário
Ibovespaultrapassagem dos 200 mil pontos
DI janeiro/2031recuo para perto de 13,5%
Primeiro turno48,05% (Flávio Bolsonaro) x 43,96% (Lula)

Estatais e câmbio abrem a fila da reação

Na renda variável, a expectativa de Mendes é de resposta positiva, com as companhias controladas pelo Estado entre as mais sensíveis ao novo humor — Banco do Brasil (BBAS3) e Petrobras (PETR4) são citadas nominalmente por ele. Papéis com maior exposição à percepção de interferência política historicamente costumam reagir antes a mudanças desse tipo.

O câmbio segue outro caminho no curto prazo: o real tende a ganhar força, ainda que esse movimento possa se inverter mais adiante, condicionado a oscilações vindas de fora do país.

O placar que alimenta a aposta em ajuste fiscal

Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 48,05% e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 43,96%, na apuração divulgada até o momento. Para Mendes, esse desenho leva o investidor a trabalhar com a vitória do candidato do PL no segundo turno, hipótese reforçada pela eleição de um número relevante de deputados e senadores mais alinhados à direita.

O desdobramento esperado é o de um governo com disposição para reformas que melhorem o resultado primário — a diferença entre receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida — e coloquem a trajetória do endividamento público em curva descendente. Essa é a aposta que passa a ser precificada nos ativos brasileiros.

STF: risco institucional na conta do investidor

Um ambiente político remodelado poderia, ainda, se refletir na atuação do Supremo Tribunal Federal, que passaria a agir de forma mais branda, na avaliação do economista, com potencial redução do chamado risco institucional. A recomposição de forças no Legislativo, acrescenta, tende a ampliar a pressão por maior previsibilidade jurídica — fator que costuma pesar nas decisões de investimento de horizonte mais longo.

Três pontos concentram o que deve ser acompanhado: a confirmação do resultado do segundo turno, a configuração final do Congresso e a abertura do pregão de segunda-feira, quando a curva de juros mostrará se o alívio descrito por Mendes se confirma ou se dissipa. Nenhum desses movimentos é garantia de trajetória — as oscilações externas seguem no comando de parte do comportamento do câmbio, como o próprio economista faz questão de lembrar.