O mercado de juros futuros brasileiro viveu um dia de forte volatilidade e correção técnica nesta segunda-feira. As taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) — contratos que refletem a expectativa do mercado sobre os juros futuros — encerraram a sessão em queda expressiva, superando os 30 pontos-base em diversos vencimentos. Este movimento foi catalisado por uma ação direta do Tesouro Nacional, que realizou duas intervenções extraordinárias para recomprar títulos públicos, visando estabilizar a curva de juros em meio ao estresse gerado por tensões geopolíticas no Oriente Médio e incertezas fiscais. Um ponto-base (bps) é a menor unidade de medida para taxas de juros, onde 100 pontos equivalem a 1%.

A contraofensiva do Tesouro: Cancelamentos e Recompras

No início da jornada, o Tesouro Nacional emitiu um comunicado informando o cancelamento dos leilões tradicionais de títulos indexados à inflação, as NTN-B (Notas do Tesouro Nacional – Série B), e de títulos prefixados, como as LTN (Letras do Tesouro Nacional) e NTN-F (Notas do Tesouro Nacional – Série F), que ocorreriam nesta semana. A estratégia visou reduzir a oferta de papéis em um momento de baixa liquidez e alta aversão ao risco.

Além do cancelamento, a autoridade fiscal promoveu leilões de compra e venda simultânea para prover suporte ao mercado. Segundo o Tesouro, as operações buscam assegurar o bom funcionamento do mercado de títulos públicos. Na primeira intervenção matutina, o volume de recompras foi substancial, focado em papéis prefixados. À tarde, o foco voltou-se para os títulos atrelados ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).

Operação (Horário) Ativo Comprado/Vendido Quantidade (Milhões)
Manhã (10h30) LTN (Letras do Tesouro Nacional) 14,800
Manhã (10h30) NTN-F (Notas do Tesouro Nacional – Série F) 2,450
Tarde (15h30) NTN-B (Recompra) 3,552
Tarde (15h30) NTN-B (Venda Simultânea) 0,150

O alívio na curva a termo e a dinâmica dos DIs

O efeito das intervenções foi imediato nos contratos de DI. Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, destacou que a operação do Tesouro ajudou a suavizar as distorções na curva a termo — a representação gráfica das taxas de juros para diferentes prazos de vencimento. Esse ajuste estrutural no financiamento da dívida pública permitiu que o mercado respirasse, reduzindo o prêmio de risco exigido pelos investidores.

Os contratos com vencimento intermediário e longo apresentaram as maiores retrações. O DI para janeiro de 2027, um dos mais negociados, recuou para 14,075%, vindo de um ajuste anterior de 14,294%. Já na ponta longa, o contrato para 2035 mostrou uma queda ainda mais acentuada, atingindo a mínima de 13,78% durante a tarde.

Macroeconomia: IBC-Br e cenário externo corroboram queda

Não foi apenas a atuação técnica do Tesouro que derrubou os juros. No front doméstico, o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central), considerado uma prévia mensal do PIB, registrou alta de 0,80% em janeiro. Embora positivo, o dado veio abaixo do crescimento de 0,85% projetado pelo consenso de mercado. Um crescimento econômico mais moderado reduz a pressão sobre a inflação, permitindo que as taxas de juros futuras reflitam um cenário menos restritivo.

No exterior, o recuo nos preços do barril de petróleo e a queda nos rendimentos das Treasuries (títulos da dívida dos EUA) ajudaram a aliviar o câmbio e os prêmios de risco. O rendimento do título norte-americano de 10 anos, referência global, caiu para 4,222%, enquanto o de 2 anos recuou para 3,675%.

Impacto nas apostas para o Copom

O conjunto de intervenções e dados macroeconômicos alterou drasticamente as expectativas para a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). Atualmente, a taxa Selic (juros básicos da economia brasileira) está fixada em 15% ao ano. A precificação do mercado para a decisão desta quarta-feira sofreu uma guinada significativa:

  • Corte de 25 pontos-base: Probabilidade saltou de 65% na sexta-feira para 90% nesta segunda-feira.
  • Manutenção da Selic: Chance caiu de 35% para apenas 10%.
"Achamos que o BC vai se valer da cautela que ele colocou na última ata e vai passar este corte para abril. Ele pode até ser levado a iniciar o ciclo de abril com corte mais intenso, de 50 pontos-base", afirmou Felipe Tavares, da BGC Liquidez.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física, a queda nas taxas de DI tem impacto direto na marcação a mercado. Quando as taxas de juros futuras caem, o preço dos títulos de renda fixa prefixados ou indexados ao IPCA tende a subir, gerando ganhos de capital para quem já possui os papéis na carteira. Por outro lado, novas alocações passam a oferecer retornos nominais ligeiramente menores.

O cenário sugere uma transição de percepção de risco. A atuação do Tesouro como comprador de última instância reduz a volatilidade extrema, mas o investidor deve monitorar se essa queda nos juros será sustentável. A precificação agressiva para o Copom indica que o mercado espera que o Banco Central aproveite a janela de oportunidade aberta pelo arrefecimento da atividade econômica (IBC-Br) e pela melhora pontual no ambiente externo.

Riscos no radar

Apesar do fechamento em baixa das taxas, o cenário não está isento de ameaças que podem reverter o movimento:

  • Geopolítica: O prolongamento ou escalada do conflito no Oriente Médio pode voltar a pressionar o petróleo e o dólar.
  • Decisão do Federal Reserve: A reunião do banco central americano na quarta-feira será crucial para determinar o fluxo de capital global.
  • Incerteza Fiscal: A necessidade de intervenções recorrentes do Tesouro sinaliza que o mercado ainda exige garantias de liquidez para financiar a dívida pública.

Investidores devem observar atentamente os comunicados oficiais do Copom e do Federal Reserve nesta quarta-feira, pois serão os principais catalisadores para a definição da tendência das taxas de juros no curto e médio prazo.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.