O dólar à vista encerrou a quarta-feira (30) vendido a R$ 5,1750, recuo de 0,81%, pressionado por dois fatores que chegaram juntos ao mercado: a inflação americana mais fraca que o esperado e o ajuste de carteiras às vésperas do primeiro turno presidencial. O alívio da sessão, no entanto, convive com um mês quase estável — em setembro, a divisa cedeu apenas 0,10% frente ao real.

Para quem acompanha o câmbio, a sessão diz menos que o acumulado do mês. A moeda americana segue sem tendência definida, dividida entre o ciclo de juros nos Estados Unidos e o risco eleitoral doméstico — e é essa combinação que deve ditar o comportamento do câmbio nas próximas semanas.

O que o PCE de 0,3% mudou na aposta sobre os juros

O PCE — índice de preços de consumo pessoal usado pelo Federal Reserve como referência de inflação — avançou 0,3% em agosto ante julho, segundo o Bureau of Economic Analysis. No acumulado do ano, a alta chegou a 3,4%: segue acima da meta de 2% do banco central americano, mas veio abaixo dos 3,7% do mês anterior e das projeções do mercado.

Com o número na mão, os operadores reforçaram a aposta em juros americanos parados na reunião de outubro e empurraram para dezembro a chance de um novo aperto. No fim do dia, o FedWatch, ferramenta do CME Group, apontava 60,7% de chance de a taxa seguir no intervalo de 3,75% a 4,00% em outubro. Para dezembro, a aposta em uma elevação de ao menos 25 pontos-base — cada um equivale a 0,01 ponto percentual — reunia 89,4% de probabilidade.

“O PCE trouxe um alívio ao confirmar a desaceleração dos preços na economia norte-americana, estimulando um apetite global por ativos de risco que se converteu em forte fluxo de compras mno mercado brasileiro”, avalia Rebecca Nossig, estrategista da Nomad.

Setembro fecha em -0,10% e destoa do dólar no exterior

O contraste com o mercado externo aparece no fim do dia. Enquanto a moeda brasileira recuava, o DXY — termômetro que mede o dólar contra seis moedas fortes, entre elas o euro e a libra — avançava 0,14%, a 101.508 pontos. A divergência se acentuou na reta final do pregão, sinal de que o recuo teve componente doméstico, e não uma mudança de humor global em relação à moeda americana.

Eleição sem favorito trava o câmbio às vésperas do pleito

A corrida entre o incumbente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chega ao primeiro turno sem favorito definido. O pleito está marcado para domingo (4), daqui a quatro dias. Um levantamento divulgado na quarta-feira aponta empate triplo nos três recortes — espontâneo, primeiro turno e segundo turno —, o mesmo quadro de 20 dias antes.

“Os investidores ampliaram as posições e apostas na resiliência da candidatura de Flávio Bolsonaro, mantendo o câmbio pressionado por baixo na esteira de novas pesquisas e apesar de ruídos institucionais recentes”, afirma Emerson Vieira, head de câmbio e contas internacionais da Convexa Investimentos.

Juros altos nos EUA e fluxo eleitoral puxam o câmbio em direções opostas

Para quem tem exposição ao dólar, seja em ativos no exterior, compras importadas ou dívidas em moeda forte, o cenário combina dois vetores que costumam apontar para lados diferentes. De um lado, um Fed que trabalha com juros elevados por mais tempo, o que historicamente dá suporte à moeda americana. De outro, o fluxo de recursos ligado à expectativa eleitoral, que tende a manter o real firme no curto prazo.

Enquanto nenhum dos dois se resolve, o câmbio tende a operar sem direção clara, e essa falta de rumo costuma vir acompanhada de volatilidade, fator que encarece a proteção cambial de quem precisa se defender de oscilações bruscas. O cálculo de risco de quem carrega posições dolarizadas muda de tom: com o Fed parado na faixa de 3,75% a 4,00% e o mercado atribuindo 89,4% de chance a um aperto em dezembro, o juro americano segue como o principal ímã do fluxo global. O ponto de atenção é o domingo (4): um resultado que prolongue a indefinição tende a estender o período de incerteza e, com ele, a volatilidade do câmbio.

Os números da sessão

IndicadorValor
Dólar à vista (fechamento)R$ 5,1750
Variação da sessão-0,81%
Variação em setembro-0,10%
DXY (17h de Brasília)101.508 pontos (+0,14%)
PCE de agosto ante julho+0,3%
PCE acumulado no ano3,4%
Fed parado em outubro (faixa de 3,75% a 4,00%)60,7% de chance
Alta de 25 pontos-base em dezembro89,4% de chance