O dólar comercial registrou alta de 1,3% na última semana, o maior avanço desde meados de novembro de 2024, impulsionado pela aversão ao risco gerada pelo conflito envolvendo o Irã. Esse movimento levou investidores a ativos de refúgio como a moeda americana, enquanto estrategistas do JPMorgan, em análise liderada por Tania Escobedo, chefe de estratégia de câmbio e mercados locais para a América Latina, inverteram pela primeira vez desde março de 2025 sua visão pessimista sobre o dólar, citando o encarecimento do petróleo.
Reversão tática da visão do JPMorgan sobre o dólar
Os especialistas do banco mantêm intactos os três pilares da tese anterior de enfraquecimento do dólar: postura assimétrica e dovish (acolhedora a reduções de juros) do Federal Reserve, valorizações excessivas da divisa americana e resiliência do crescimento global, que favorece influxos para mercados emergentes. Apesar disso, revertem temporariamente a recomendação negativa, atentos a sinais de desescalada no conflito para retornar à projeção original de baixa.
Forças de curto prazo do conflito no Oriente Médio
O episódio introduz dois vetores favoráveis ao dólar no horizonte imediato: a procura por ativos de refúgio segura durante picos de tensão geopolítica, o que reduz exposição a riscos em portfólios globais; e o salto nos preços do petróleo, beneficiando os Estados Unidos como exportador líquido de energia, em contraste com a Europa, grande importadora. A duração dessa dinâmica permanece incerta, com economistas do JPMorgan descartando cortes nas taxas do Fed por ora, mas alertando que uma guinada para aperto monetário demandaria reformulação total da estratégia cambial.
O real brasileiro sob lentes do JPMorgan
Para a moeda brasileira, o banco adota posicionamento neutro, ancorada no carry trade (estratégia de carregamento que explora diferenciais elevados de juros). Ainda que ocorra redução de 3 pontos percentuais na Selic (taxa básica de juros brasileira), as remunerações locais seguiriam entre as mais elevadas entre emergentes, neutralizando impactos cambiais diretos do ciclo de afrouxamento. Modelos de curto prazo posicionam o real próximo ao valor justo, sem atrativos para posições agressivas compradas ou vendidas. Para mitigar extremos, o banco utiliza opções de venda (puts, contratos que garantem direito de vender a preço fixo) sobre BRL com preço de exercício de 5,40 por dólar.
Panorama das demais moedas latino-americanas
O JPMorgan traça visões diferenciadas para as divisas regionais, destacando resiliências e fragilidades em meio ao cenário global.
| Moeda | Visão Principal | Fatores Chave |
|---|---|---|
| Real (BRL) | Neutra | Carry elevado; risco político em abril pré-eleições 2026 |
| Peso Mexicano | Resiliente | Diferencial de juros em queda; 75% chance de extensão do USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá) por 16 anos; um corte adicional esperado no Banxico |
| Peso Chileno | Mais vulnerável | Posições esticadas de investidores; carry baixo; dependência de importação de petróleo |
| Peso Argentino | Oportunidade tática curta | Reformas fiscais e reservas; influxo sazonal de dólares da safra e emissões; riscos no 2º semestre por inflação |
| Peso Colombiano | Sobrevalorizado | Potencial de correção para níveis mais fracos, apesar de ganhos com petróleo |
O que isso significa para o investidor
Para o investidor pessoa física brasileiro, com exposição a ativos dolarizados ou importadores, a sustentação curta do dólar reforça pressões inflacionárias via commodities energéticas, podendo elevar o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) e influenciar decisões do Banco Central sobre a Selic. Cenário otimista envolve desescalada rápida no Oriente Médio, liberando fluxos para emergentes como o Ibovespa; pessimista prolonga aversão ao risco, ampliando volatilidade no câmbio e custos de hedge. O carry brasileiro mitiga saídas abruptas, mas exige monitoramento do diferencial CDI-Selic ante Treasuries americanos.
Riscos destacados
- Geopolítico: Interrupção prolongada no Estreito de Ormuz (principal rota de petróleo), elevando ainda mais os preços da energia.
- Política doméstica: Volatilidade em abril com pré-candidatos da oposição para eleições de 2026.
- Monetária global: Mudança na trajetória dovish do Fed para aperto.
- Regional: Fragilidades específicas como baixa liquidez no Chile ou inflação argentina no 2º semestre.
A atenção recai sobre a normalização do tráfego no Estreito de Ormuz como gatilho para fraqueza do dólar, avanços na renegociação do USMCA, confirmação da assimetria dovish do Fed e valuations mais acessíveis em emergentes. Abril marca calendário político crucial no Brasil, enquanto moedas como a colombiana testam convergência para patamares realistas.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
