O maior roubo da história cripto e a sombra do EIP-7702

A Binance confirmou na sexta-feira o maior roubo já registrado no mercado de criptomoedas: US$ 6,3 bilhões em ativos digitais, com a promessa de ressarcir integralmente os clientes lesados. A apuração do episódio, que teve a participação da empresa de segurança Blockaid, tira o foco das chaves privadas e o desloca para os sistemas de assinatura da exchange — e leva o EIP-7702, upgrade do Ethereum, ao centro do debate técnico.

A falha que a investigação encontrou

O caminho do ataque, segundo a Blockaid, passou pelo comprometimento da infraestrutura de assinatura, o conjunto de rotinas que autoriza a movimentação de fundos de uma carteira. Richard Teng, CEO da Binance, afirmou que os investigadores não localizaram indícios de vazamento das chaves privadas das carteiras, e a exchange relatou ter identificado pontos adicionais de invasão depois de suspeitar, num primeiro momento, de um laptop comprometido de um de seus engenheiros.

Ido Ben-Natan, cofundador e CEO da Blockaid, avalia que o ponto de entrada mais provável foi o computador de um desenvolvedor comprometido, usado como ponte para a infraestrutura que valida as transações das carteiras da exchange. Ele alertou que ataques com o mesmo desenho ameaçam outras corretoras e defendeu a simulação de transações como forma de identificar pedidos maliciosos antes da aprovação.

ItemDado
Prejuízo confirmado pela BinanceUS$ 6,3 bilhões
Vetor apontado pela Blockaidcomprometimento do sistema de assinatura
Chaves privadasnenhuma evidência de vazamento, segundo a Binance
Upgrade que ativou o EIP-7702Pectra, em maio de 2025

O que o EIP-7702 mudou nas carteiras

O Ethereum ativou a Ethereum Improvement Proposal 7702 em maio de 2025, dentro da atualização Pectra. A proposta autoriza carteiras comuns — aquelas que o usuário controla diretamente — a usar funções antes exclusivas de contratos inteligentes, como agrupar várias operações numa única autorização e patrocinar o gas, a taxa cobrada para processar transações na rede. O ganho de funcionalidade vem acompanhado de mais superfície para ataques.

Os alertas vieram cedo. Ainda em maio de 2025, a casa de negociação Wintermute relatou que, entre os primeiros usos do mecanismo, a maioria se direcionava a contratos maliciosos — programados para esvaziar carteiras invadidas de forma automática. Já em setembro de 2025, investidores que carregavam o token da World Liberty Financial (WLFI) reportaram prejuízos associados a esse mesmo tipo de delegação maliciosa, isto é, a autorização que uma carteira concede a um contrato para operar em seu nome.

O integrante da comunidade Ethereum identificado como VEER resgatou avisos apresentados durante as discussões da proposta, em 2024. Em sua leitura posterior ao ataque, o episódio da Binance é mais amplo do que uma assinatura maliciosa isolada, ainda que o EIP-7702 tenha entregado aos invasores um prático botão de varredura na rede.

O peso do upgrade no episódio

A Blockaid sustenta que o EIP-7702 não foi a causa do roubo: sem o upgrade, os invasores chegariam aos mesmos fundos, mas precisariam de várias transações em vez de uma operação agregada — e, possivelmente, não teriam contornado determinadas verificações de segurança.

Ivo Georgiev, cofundador e CEO da Ambire, provedora de carteiras para Ethereum, minimiza o papel do upgrade, já que os hackers dispunham de meios para autorizar transações. Ele acrescenta um risco operacional concreto: após retomar o controle dos sistemas, equipes de exchange podem deixar de revogar uma delegação maliciosa do EIP-7702, mantendo a porta aberta. Georgiev afirma que o padrão é muito mal compreendido no mercado.

O que isso significa para quem investe

A primeira lição é de custódia. Ausência de vazamento de chave privada não equivale a segurança, porque o elo vulnerável pode estar nos sistemas que assinam operações — e quem mantém ativos em corretoras fica exposto ao padrão de controle delas, não apenas ao próprio cuidado com senhas e dispositivos.

A segunda é técnica e atinge usuários de carteiras próprias: delegações do EIP-7702 precisam ser revisadas e revogadas quando não forem mais necessárias, sobretudo depois de qualquer suspeita de comprometimento do aparelho.

A terceira é de processo. Simular a transação antes de aprovar e conferir o que exatamente se autoriza reduz a chance de um clique validar uma operação indesejada — cuidado que vale tanto para o usuário final quanto para a operação de qualquer plataforma de custódia.