A prorrogação do horário de votação do segundo turno, determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, das 17h para as 19h no horário de Brasília, acrescentou uma camada nova ao risco que o investidor brasileiro acompanha. O ponto em discussão deixou de ser apenas quem ocupará a Presidência e passou a incluir a previsibilidade do próprio resultado eleitoral.

Quem chamou atenção para o ponto foi Matheus Spiess, estrategista de ações da Empiricus Research, durante a live de apuração do segundo turno do Market Makers. Na avaliação apresentada por ele, a imprevisibilidade e a falta de definição política podem levar a Bolsa brasileira a cair na segunda-feira (26), primeiro pregão depois da votação.

Das 17h às 19h: o que a prorrogação acrescenta ao preço dos ativos

A decisão do ministro veio acompanhada de dúvidas práticas sobre como será aplicada e sobre o ritmo da apuração — e é essa combinação que incomoda o mercado, não o horário em si. Com um vencedor definido sem contestação, o trabalho seguinte é técnico: ler o programa econômico de quem ganhou, projetar as contas públicas e desenhar a provável composição do ministério. Já um processo cercado de questionamentos judiciais adia exatamente essa conta.

Para os mercados, o calendário é informação. Expectativas sobre política fiscal, trajetória dos juros e decisões do próximo mandato só se convertem em preço quando há data confiável para o veredito. Se o cronograma da apuração fica em dúvida, ou se a legitimidade do processo que apontará o novo governo é questionada, a percepção de risco aumenta — e o ajuste de portfólio acontece antes de qualquer anúncio oficial.

O próprio comportamento das campanhas já havia esfriado parte do ânimo que predominava no início, e a postura das mesas passou a ser mais defensiva. A controvérsia jurídica ampliou esse recuo: o risco deixou de estar restrito ao nome do próximo presidente e migrou também para a forma como o resultado será conhecido e aceito.

Prêmio de risco: o que estava no preço antes da decisão

Desde antes da votação, os preços vinham embutindo a hipótese de guinada na condução da economia. As apostas estavam em um esforço de arrumação das contas públicas e, na esteira dele, num prêmio de risco menor embutido na curva de juros — o adicional de rendimento que o investidor exige para carregar títulos públicos de prazos longos, referência para o custo do crédito em toda a economia. Esse arranjo havia favorecido o desempenho dos ativos brasileiros.

A diferença entre o mercado precificar um governo e o mercado não saber quando haverá governo definido é grande para a formação de preços. No primeiro caso, o investidor pode incorporar expectativas sobre política fiscal, trajetória dos juros e decisões do próximo mandato. No segundo, ele passa a cobrar também pela incerteza do calendário e pela legitimidade do processo que definirá esse governo. A avaliação de risco sobe, portanto, por um caminho que não depende de nenhuma proposta econômica específica.

Para quem monta carteira, o canal mais direto é o dos juros futuros: as taxas projetadas para prazos longos embutem o chamado risco fiscal, e qualquer dúvida sobre a capacidade de o próximo governo organizar as contas públicas tende a aparecer primeiro nesses vencimentos. Na Bolsa, o efeito costuma chegar pela via do custo de oportunidade — quanto mais o título público paga, mais caro fica sustentar posições em renda variável.

ItemDado
Horário original da votação17h (horário de Brasília)
Horário estendido por decisão do STF19h (horário de Brasília)
Data do segundo turno25 de outubro de 2026
Primeiro pregão após a votaçãosegunda-feira, 26
Referência externa citadaEWZ, ETF de ações brasileiras nos EUA

EWZ tokenizado: o termômetro de fim de semana do risco Brasil

O EWZ é o ETF listado em Nova York que replica uma carteira de ações brasileiras e virou o termômetro padrão para medir o Brasil lá fora. Os participantes da transmissão notaram que o fundo vinha em trajetória de alta antes de as incertezas ganharem corpo, e que esse fôlego murchou quando a decisão judicial repercutiu.

O detalhe que chamou atenção foi o comportamento da versão tokenizada do EWZ — um contrato que replica o ETF e é negociado 24 horas por dia em plataformas de criptoativos, inclusive no fim de semana, quando a B3 está fechada. O contrato recuou no fim de semana, e os participantes leram o recuo como virada no humor do mercado, antes mesmo da abertura do pregão.

Com a bolsa brasileira fechada, esse tipo de referência ganha peso desproporcional na cabeça de quem acompanha o mercado: serve para medir humor, não para definir tendência. A liquidez é restrita e o horário ampliado favorece movimentos exagerados. Ainda assim, a reversão ilustra como notícias políticas e institucionais conseguem mexer na percepção de risco antes de qualquer resultado oficial.

Ações, câmbio e juros futuros: os três canais onde o impasse aparece

A preocupação não se esgota na orientação fiscal do próximo governo. Ela alcança segurança jurídica, estabilidade institucional e a capacidade das autoridades eleitorais de dar resposta clara ao que for questionado. São elementos que não aparecem em planilha de projeção, mas entram no cálculo de quem decide alocar capital no Brasil.

O efeito tende a se distribuir por diferentes classes de ativos — ações, câmbio e juros futuros. O tamanho do estrago, no entanto, é função de três variáveis: como os fatos evoluem, quanto tempo o impasse dura e o que os investidores acreditam sobre a chance de saída institucional. Um impasse curto costuma produzir apenas ajuste de posição; um impasse longo tende a contaminar expectativas mais estruturais.

O que observar até a apuração fechar

A agenda imediata tem três itens: de que maneira a Justiça Eleitoral colocará a decisão em prática, se a contagem seguirá sem novas paralisações e até onde as instituições conseguem responder ao que for contestado. É nesse terreno que o cenário se define.

Spiess avaliou ainda, na mesma transmissão, que o otimismo inicial pode se dissipar caso o episódio aumente a ansiedade do mercado e estique a indefinição política — cenário em que a leitura favorável perde tração.

Separar ruído de mudança estrutural é o exercício que sobra ao investidor. Oscilações de curto prazo costumam refletir ajustes rápidos de posicionamento; alterações duradouras dependem da evolução das condições fiscais e institucionais. Em ambiente de incerteza elevada, a previsibilidade do processo eleitoral entra como fator adicional na precificação dos ativos brasileiros. A demora em esclarecer o desfecho tem custo próprio: reduz a capacidade de o investidor montar convicções sobre o cenário político e econômico adiante.