A proporção de famílias brasileiras com dívidas atingiu 80,4% em março, marca histórica segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Esse patamar supera os 80,2% de fevereiro e os 77,1% observados em março de 2025, sinalizando pressão contínua sobre o orçamento familiar em meio a juros elevados.
Evolução geral do endividamento e inadimplência
O endividamento total avançou apesar de leves recuos em indicadores de severidade. A fatia de famílias se declarando muito endividadas recuou de 16,1% para 16,0%, enquanto a parcela média da renda comprometida com dívidas caiu de 29,7% para 29,6%. A inadimplência manteve-se em 29,6%, igual a fevereiro, mas acima dos 28,6% de março de 2025. A proporção de famílias sem capacidade de quitar atrasos encolheu de 12,6% para 12,3%.
Composição das dívidas e contexto macroeconômico
A Peic abrange compromissos como cartão de crédito, cheque especial (crédito rotativo com juros altos), carnê de loja, crédito consignado (descontado em folha), empréstimo pessoal, cheque pré-datado e parcelas de veículos ou imóveis. A CNC atribui a alta ao ciclo prolongado de Selic elevada, com impactos ainda não revertidos pelos cortes recentes.
A taxa Selic elevada desafia empreendedores e consumidores há meses. A redução gradual dos juros iniciou, mas o alívio demorará meses para surtir efeito.Ademais, reajustes nos preços do diesel elevam custos logísticos, pressionando inflação e reduzindo poder de compra, o que impulsiona o uso de crédito para itens essenciais.
Dinâmica por faixas de renda
O avanço do endividamento concentrou-se em grupos de maior poder aquisitivo. Para rendas até três salários mínimos (SM), manteve-se em 82,9%. Na faixa de três a cinco SM (classe média baixa), houve recuo de 82,9% para 82,6%. Já de cinco a dez SM, subiu de 78,7% para 79,2%, e acima de dez SM, de 69,3% para 69,9%.
| Faixa de renda mensal | Endividamento fevereiro (%) | Endividamento março (%) |
|---|---|---|
| Até 3 SM | 82,9 | 82,9 |
| 3 a 5 SM | 82,9 | 82,6 |
| 5 a 10 SM | 78,7 | 79,2 |
| Acima de 10 SM | 69,3 | 69,9 |
Inadimplência segmentada
Na inadimplência, melhoras ocorreram nas rendas mais baixas: até três SM, de 38,9% para 38,2%; três a cinco SM, de 29,1% para 28,7%. Nas faixas superiores, leves altas: cinco a dez SM, de 21,7% para 22,1%; acima de dez SM, de 14,8% para 14,7%.
| Faixa de renda mensal | Inadimplência fevereiro (%) | Inadimplência março (%) |
|---|---|---|
| Até 3 SM | 38,9 | 38,2 |
| 3 a 5 SM | 29,1 | 28,7 |
| 5 a 10 SM | 21,7 | 22,1 |
| Acima de 10 SM | 14,8 | 14,7 |
O que isso significa para o investidor
Para o investidor pessoa física, o endividamento recorde reflete fragilidade no consumo, com potencial para conter expansão econômica e afetar resultados corporativos expostos ao varejo e crédito. Cenário otimista envolve aceleração dos cortes na Selic, aliviando juros e liberando renda; pessimista projeta inflação persistente por combustíveis, adiando alívio e elevando provisões para devedores nos balanços. Monitore IPCA, custos logísticos e reuniões do Copom para calibrar exposição a setores cíclicos no Ibovespa.
Riscos
- Juros altos prolongados: Selic elevada atrasa repasse dos cortes ao crédito ao consumidor.
- Inflação via combustíveis: Alta no diesel pressiona preços de bens, erodindo poder de compra e forçando mais endividamento.
- Reajustes inflacionários: Novas revisões para cima nas expectativas impactam desproporcionalmente rendas baixas, ampliando inadimplência geral.
Adiante, acompanhe a próxima Peic da CNC e divulgações do Copom, que definirão se os cortes na Selic ganharão tração contra a inércia inflacionária. Declarações de Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, alertam para pressões sobre orçamentos familiares em reajustes inflacionários.
