As ações da Eneva (ENEV3) registraram recuo de aproximadamente 3% na última terça-feira (19), pressionadas pela divulgação de nota técnica do Tribunal de Contas da União (TCU). O documento analisa supostas distorções no Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) realizado em março, evento que mobilizou a contratação de 19 GW. A corte de controle externo indica que a modelagem econômica adotada pode ter favorecido excessivamente os agentes vencedores, transferindo eventual ônus para a conta final dos consumidores.
Os apontamentos do TCU e a postergação das térmicas
A equipe técnica do TCU recomenda ao Ministério de Minas e Energia (MME) a postergação na assinatura dos contratos vinculados às usinas térmicas. A medida visa abrir janela para auditorias complementares sobre os custos declarados. Paralelamente, a corte autoriza o prosseguimento da contratação de empreendimentos hídricos, que somam cerca de 2,5 GW. Deste montante, aproximadamente 1,9 GW pertencem à Copel, considerados adequados sob a ótica estrita de custo-benefício. O rito processual segue para análise do relator, ministro Jorge Oliveira. O trâmite pode exigir ofícios de esclarecimento à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), à Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e ao próprio MME, antes de eventual deliberação no plenário.
A visão do Bradesco BBI sobre a governança do certame
Para o Bradesco BBI, a reação negativa do mercado reflete ruídos transitórios. A instituição classifica como reduzida a probabilidade de revisão ou cancelamento dos ~16,5 GW contratados para térmicas. Uma anulação completa deterioraria a previsibilidade regulatória brasileira e elevaria o custo de capital doméstico, ignorando os recursos já desembolsados pelos desenvolvedores e os compromissos firmados com cadeias globais de fornecedores. Caso o leilão seja sustado, a necessidade de novas rodadas nos próximos 6 a 12 meses enfrentaria a escalada de preços de combustíveis e a inflação de capex (despesas de capital) no segmento termelétrico internacional.
Em relação aos fundamentos da Eneva, que garantiu 5,3 GW no certame, o banco projeta indicadores de retorno ajustados. A métrica de Taxa Interna de Retorno (TIR), que mensura a rentabilidade esperada de um fluxo de caixa ao longo do tempo, situa-se em patamar elevado para a cobertura da instituição:
| Métrica | Valor Estimado |
|---|---|
| Taxa Interna de Retorno (TIR) real | 12,5% |
| Potencial de valorização (upside) | ~32% |
| Assimetria negativa (cenário conservador) | ~10% |
| Preço justo de referência | R$ 32,00 |
O relatório técnico rebate três pontos críticos levantados pela corte: (i) a revisão do preço-teto, ainda que com transparência inicial limitada, espelhou estimativas independentes que já demandavam patamares superiores para viabilidade técnica; (ii) a crítica sobre menor concorrência e viés termelétrico desconsidera o estágio regulatório incipiente das Baterias de Armazenamento de Energia (BESS) como solução principal para atendimento de picos de carga; e (iii) o volume de 19 GW encontra-se estritamente dentro da banda de projeção de mercado, estimada entre 17 GW e 20 GW, o que se mostra defensável frente aos riscos de aceleração do consumo por data centers, reaquecimento da atividade econômica e anomalias térmicas.
O que isso significa para o investidor
A disputa institucional introduz volatilidade tática aos ativos do setor elétrico. Com a taxa Selic operando em níveis restritivos e a inflação (IPCA) influenciando os custos operacionais, a segurança jurídica é pilar central para a manutenção dos múltiplos de valuation. A continuidade do leilão garante o cronograma de receitas futuras, enquanto uma interrupção postergaria o retorno do capital investido e ampliaria a exposição das concessionárias à variação cambial na importação de turbinas. O investidor pessoa física deve monitorar a relação risco-retorno, ponderando a sensibilidade do setor às diretrizes do MME e ao custo da dívida no ambiente macroeconômico atual.
Riscos e catalisadores do processo administrativo
- Intervenção regulatória que determine renegociação tarifária ou exigência de novas garantias financeiras.
- Compressão de múltiplos de mercado e elevação do prêmio de risco em caso de prolongada insegurança jurídica.
- Pressão de custos em futuras rodadas leiloeiras, derivada da inflação global de equipamentos e da volatilidade em commodities energéticas.
- Prazos dilatados para acórdão definitivo no plenário do TCU, impactando a liquidez e o fluxo de ordens no mercado secundário.
Perspectiva e Próximos Passos
O acompanhamento deve se concentrar nos despachos da relatoria do ministro Jorge Oliveira e nos cronogramas estabelecidos para as respostas técnicas das agências reguladoras. Sinalizações de manutenção do edital, ainda que acompanhadas de exigências pontuais de governança, funcionariam como catalisadores para reprecificação das ações das empresas beneficiadas. O mercado monitora de perto o calendário de assinatura dos contratos e eventuais ajustes na matriz de capacidade firme, elementos que ditarão o ritmo de desembolsos e a competitividade do parque gerador nacional nos ciclos de contratação subsequentes.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
