A Eneva (ENEV3) colocou a UTE Azulão I em operação comercial em agosto e abriu uma nova rodada de contratos em quatro usinas do Espírito Santo. O relatório operacional do terceiro trimestre de 2026, divulgado nesta segunda-feira (19), trouxe junto o dado que dimensiona o período: os ativos termelétricos entregaram 2.105 GWh líquidos, 38% abaixo do 3T25.

A geração bruta somou 2.548 GWh, sendo 2.206 GWh provenientes de plantas movidas a gás próprio — combustível que a própria companhia produz e processa. A distância entre o volume bruto e o líquido, que desconta o consumo interno das unidades, somada ao preço mais baixo da energia, ajuda a explicar o tombo.

Com parte do parque migrando para contratos de capacidade, o recuo de volume tende a perder intensidade sobre a receita: nesse modelo, o que a companhia vende é a disponibilidade da máquina, não cada megawatt-hora efetivamente despachado. É esse descolamento que dá sentido ao trimestre.

Azulão I estreia com 4% de despacho e 32 GWh

A unidade no Amazonas recebeu em agosto o COD — sigla em inglês para a data de entrada em operação comercial — e o início do CRCAP. No acumulado do trimestre, despachou 4% de sua capacidade e gerou 32 GWh, patamar coerente com o começo da vida operacional de uma térmica.

O CRCAP, ou Contrato de Reserva de Capacidade, remunera a disponibilidade do ativo e não apenas a energia que ele injeta na rede. Por isso o percentual baixo de despacho informa mais sobre o ritmo de entrada em carga do que sobre a receita contratada.

Quatro usinas capixabas trocam de regime contratual

A UTE LORM opera sob o CRCAP 2021 desde julho de 2026. Viana 1, Povoação 1 e LORM 1 passaram ao CRCAP 2026 em agosto. São quatro ativos capixabas mudando de regime em dois meses, movimento que tende a alongar o horizonte de receita contratada do parque.

O retrato da geração no 3T26

Indicador3T26
Geração bruta total2.548 GWh
Geração bruta com gás próprio2.206 GWh
Geração líquida termelétrica2.105 GWh (-38% vs 3T25)
Complexo Solar Futura 1 (líquida)320 GWh
UTE Jaguatirica II122 GWh
UTE Azulão I32 GWh
UTE Porto de Sergipe I4 GWh
Disponibilidade média — Complexo Parnaíba99%

O Complexo Parnaíba concentrou a maior fatia do resultado e fechou o trimestre com 99% de disponibilidade média. A UTE Jaguatirica II contribuiu com 122 GWh; a Porto de Sergipe I, com 4 GWh.

Por que a geração caiu com despacho ainda relevante

O PLD — preço de liquidação das diferenças, referência para a energia negociada no mercado de curto prazo — recuou no período. Mesmo assim, o despacho termelétrico seguiu relevante no sistema nacional, sustentado pela queda sazonal da geração hídrica e por inflexibilidades contratuais que atingem parte do parque térmico.

A queda de 38% na geração líquida reflete, segundo a companhia, justamente esse ambiente de preços mais baixos e a mudança no perfil de despacho.

No Complexo Solar Futura 1, a geração líquida alcançou 320 GWh com 99% de disponibilidade média, mas o resultado foi parcialmente consumido por cortes determinados pelo ONS, o operador do sistema elétrico.

Gás: 0,48 bcm produzidos e 46,1 bcm de reservas 2P

A produção de gás natural no trimestre somou 0,48 bilhão de metros cúbicos. As reservas 2P — provadas e prováveis, medida do volume recuperável com razoável segurança — terminaram o período em 46,1 bcm, distribuídas entre 36,6 bcm na Bacia do Parnaíba e 9,4 bcm na Bacia do Amazonas.

Do gás extraído no Complexo Parnaíba, 4,6% atendeu contratos de venda de GNL em pequena escala, modalidade de fornecimento de gás liquefeito em volumes reduzidos.

Itaqui fora do consolidado e o aporte de R$ 1,77 bilhão do Itaú

A UTE Itaqui deixou de ser consolidada a partir de setembro de 2026, à medida que avança o processo de venda do ativo. A Eneva enquadrou a decisão na estratégia de otimização de portfólio e de concentração em ativos mais aderentes ao plano de crescimento.

Na semana anterior, o Itaú Unibanco (ITUB4) integralizou cerca de R$ 1,77 bilhão em novas ações preferenciais da Eneva Participações III S.A. (Eneva III). O banco ampliou sua posição na subsidiária e mantém a totalidade das preferenciais, enquanto a Eneva segue como única titular das ordinárias.

As partes assinaram um aditamento ao acordo de acionistas da Eneva III para acomodar o novo investimento. O documento concede à Eneva opção de compra sobre todas as preferenciais hoje detidas pelo Itaú.

O que os números mudam para quem acompanha a ação

O trimestre separa duas coisas: energia gerada e receita contratada. Com usinas remuneradas por disponibilidade, o tombo de 38% no volume não tende a se traduzir em perda proporcional de faturamento — o indicador que ganha peso é a disponibilidade, de 99% no Parnaíba e no Futura 1.

A desconsolidação de Itaqui encolhe a base operacional reportada a partir do quarto trimestre e desloca a comparação para os ativos remanescentes. O aporte do Itaú reforça o capital da subsidiária, e a opção de compra preserva na Eneva o caminho para reaver a fatia do banco.

Ficam, de um lado, quatro usinas com contratos renovados e uma térmica recém-ligada no Amazonas; de outro, um parque que entregou 38% menos energia líquida do que um ano antes. A distância entre essas duas realidades é o que a temporada de resultados deve medir.