O mercado de crédito privado brasileiro atravessa um ciclo marcado pela manutenção da Selic em patamares elevados e por um aumento expressivo de pedidos de recuperação judicial, cenário que impõe desafios adicionais à alocação em renda variável de crédito. Marcelo Urbano, gestor de crédito privado multiestratégia da XP Asset, identificou nos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) — veículos que adquirem fluxo de caixa futuro de empresas — a principal fronteira de geração de retorno no crédito estruturado atual, desde que o investidor observe critérios rigorosos de liquidez, análise de fluxo de caixa e qualidade das garantias.

Compressão de Spreads e Assimetria de Risco

O ambiente de taxas de juros persistentes provocou uma compressão nos spreads (diferença entre a rentabilidade oferecida por um título e a taxa livre de risco, como o CDI), reduzindo significativamente a diferenciação entre emissores. Urbano observa que, com o aperto das margens, a distinção entre companhias high grade (alta qualidade creditícia e baixo risco) e high yield (menor qualidade, maior risco e retorno) se tornou tênue. Empresas de crédito mediano chegam a oferecer remuneração até cem vezes superior à de emissoras sólidas, o que pode distorcer a percepção de risco-retorno.

Essa dinâmica gera uma assimetria perigosa para carteiras com carrego (retorno líquido da gestão de ativos) modesto. Um portfólio que busca CDI mais 1% pode ver seu resultado anual completamente comprometido por um único evento de crédito adverso. A disciplina na seleção se torna o principal diferencial operacional.

Expansão do Segmento e Disciplina na Originação

Apesar das tensões, o volume sob gestão em FIDCs já superou R$ 80 bilhões e projeta ultrapassar R$ 100 bilhões até o encerramento do exercício corrente. Urbano, que acumula 30 anos no setor, fundou a Augme Capital em 2018, escalando os ativos sob custódia para quase R$ 4 bilhões antes da integração à XP Asset no ano passado. A estratégia que ele considera mais eficiente para escalar com segurança envolve a construção de esteiras de originação recorrente.

A abordagem consiste em estruturar o veículo desde a base para um originador específico, negociando cláusulas de preferência na alocação dos papéis. A operação inicia com transações sênior (que possuem prioridade no recebimento em caso de inadimplência). Conforme o originador emite cotas subordinadas (que absorvem as primeiras perdas), o gestor expande a participação gradualmente. A popularização da estratégia, contudo, exige blindagem contra a perda de seletividade, mantendo os guardrails (limites operacionais) intactos.

Riscos Operacionais e Armadilhas de Análise

O crescimento acelerado do segmento expõe vulnerabilidades estruturais que demandam atenção redobrada. Os principais pontos de alerta se concentram em dois eixos:

  • Ilusão de liquidez: FIDCs possuem resgate atrelado ao vencimento dos recebíveis subjacentes, o que naturalmente restringe a conversão imediata em caixa. Quando um fundo com prazo curto acumula FIDCs para sustentar o carrego, a exposição pode distorcer rapidamente: uma carteira inicialmente alocada em 10% nesses ativos pode saltar para 20% ou 25% diante de ondas de resgate, gerindo um passivo sem lastro de liquidez correspondente.
  • Simplificação na análise creditícia: Indicadores como a PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) e o percentual da cota subordinada podem transmitir falsa segurança. No consignado privado, um ativo demora de 3 a 4 meses para registrar atraso nas primeiras parcelas. Nos primeiros meses de vigência, os indicadores tradicionais tendem a apresentar volatidade não por deterioração real, mas por efeito de leitura temporal inadequada.

Setores com Espaço para Alocação Estruturada

A triagem de oportunidades revelou três vetores com dinâmica favorável para composição de carteiras de crédito estruturado:

SetorDinâmica de MercadoEstrutura de Garantia
Infraestrutura (armazenamento)Financiamento a instaladores de sistemas de bateria com alta qualidade técnicaGarantia sobre o recebível gerado pelo serviço
Fretamento marítimo (óleo e gás)Diárias operando próximo ao pico histórico; geração de caixa robustaContraparte centralizada na Petrobras
Recebíveis pulverizadosRisco fragmentado e previsível por safraMétrica de perda esperada bem dimensionada e simétrica

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física que busca diversificação na renda fixa, a mensagem central reside na migração do foco para a análise fundamentalista da capacidade de pagamento. Em um ciclo de juros elevados, a sustentabilidade do carrego depende exclusivamente do fluxo de caixa operacional do originador. A hierarquia de recuperação segue uma lógica clara: o plano A e o plano B de pagamento devem vir sempre da geração orgânica de recursos. O plano C, que envolve a execução de garantias reais ou o alinhamento com acionistas para venda gradual de ativos, só deve ser considerado como rede de proteção secundária.

A experiência prática demonstra que mesmo garantias reputadas como robustas, como imóveis não operacionais, podem sofrer com entraves jurídicos e ocupacionais, prolongando a regularização por até 4 anos. A alocação exige, portanto, compreensão da natureza dos ativos subjacentes e paciência para o desdobramento dos fluxos, evitando a confusão entre rentabilidade contábil e liquidez disponível.

O que observar adiante

A trajetória do mercado de FIDCs dependerá diretamente da curva de juros, do comportamento da inadimplência corporativa e da capacidade dos originadores em manter a disciplina de originação. Investidores devem monitorar os comunicados mensais de composição de carteira, o crescimento real dos ativos sob gestão em relação à meta de R$ 100 bilhões, e a evolução dos prazos de regularização de ativos lastreados. A sofisticação exigida pelo crédito estruturado continuará ampliando o abismo entre veículos bem geridos e aqueles expostos a descompassos de maturação.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.