O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (21) rebaixou a mediana da Selic projetada para 2026 de 13,75% para 13,50% e elevou a do IPCA do mesmo ano de 4,90% para 4,92%. O par de números organiza o cenário da sessão para quem acompanha renda fixa e a bolsa brasileira. No exterior, o petróleo opera em baixa pela quarta sessão consecutiva — o Brent cede 3,28%, a US$ 100,46, e o WTI recua 3,13%, a US$ 97,16 — enquanto os futuros de Nova York avançam, com o Nasdaq Futuro em alta de 1,13%. A semana ainda reserva nova pesquisa Quaest, discurso de Lula na Assembleia-Geral da ONU e o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, na quinta-feira.
A combinação entre a Selic projetada em 13,50% e o IPCA esperado em 4,92% para 2026 é o dado que ancora o dia. Projeção de juros mais baixos tende a sustentar a marcação a mercado de títulos prefixados e a parte longa da curva; inflação mais resistente, por sua vez, corrói o retorno real de qualquer carteira de renda fixa. O petróleo em queda reforça o lado desinflacionário da equação, mas a agenda política doméstica segue sem sinal claro e pode manter o prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros.
Focus revisa Selic de 2026 para baixo e IPCA para cima
O relatório semanal do Banco Central trouxe ajustes pontuais, mas em direções opostas, nas medianas das projeções do mercado. Para 2026, a Selic esperada caiu de 13,75% para 13,50%, enquanto o IPCA subiu de 4,90% para 4,92%. Nos anos seguintes, as estimativas ficaram intocadas: juros a 12% em 2027, 10,50% em 2028 e 10% em 2029; inflação a 4,30%, 3,80% e 3,50% nos mesmos horizontes.
| Indicador | 2026 | 2027 | 2028 | 2029 |
|---|---|---|---|---|
| Selic | 13,50% | 12,00% | 10,50% | 10,00% |
| IPCA | 4,92% | 4,30% | 3,80% | 3,50% |
| PIB | 1,88% | 1,43% | 1,87% | 2,00% |
| Dólar | R$ 5,20 | R$ 5,28 | R$ 5,30 | R$ 5,36 |
As projeções de PIB foram revisadas em dois pontos. Para 2026, a mediana recuou de 1,89% para 1,88%. Para 2027, passou de 1,45% para 1,43%. Em 2028 e 2029, as estimativas permaneceram em 1,87% e 2,00%. Já o câmbio segue sem alteração em todos os horizontes analisados, com o dólar projetado a R$ 5,20 em 2026, R$ 5,28 em 2027, R$ 5,30 em 2028 e R$ 5,36 em 2029.
O conjunto desenha um ambiente de queda gradual dos juros acompanhada de inflação acima do centro da meta. Essa configuração tende a favorecer posições com duration mais longa — o tempo médio até o vencimento de um título, que amplifica a sensibilidade do preço à variação das taxas. Um prefixado longo ganha mais valor quando a curva cede, mas o ganho real depende do IPCA realizado no período. Se a inflação entregue se aproximar do teto da meta, o retorno efetivo do investidor de renda fixa tende a ficar menor do que a taxa nominal sugere.
Do lado da atividade, a revisão para baixo em 2026 e 2027 sugere um ritmo de expansão mais modesto do que o projetado na semana anterior. Historicamente, cenário de crescimento menor combinado com juros caindo costuma favorecer empresas com balanços mais alavancados e receitas previsíveis, enquanto companhias cíclicas domésticas dependem mais da trajetória do consumo das famílias.
Petróleo cai pelo quarto dia e reforça a narrativa desinflacionária
O petróleo aprofunda a queda nesta segunda-feira. O barril do WTI recua 3,13%, a US$ 97,16, enquanto o Brent perde 3,28% e é negociado a US$ 100,46. É a quarta sessão consecutiva de baixa. O movimento ganhou combustível com a expectativa de que as remessas da Arábia Saudita se recuperem depois dos ataques de houthis — milícia do Iêmen apoiada pelo Irã — contra o país no sábado, com mísseis e drones.
Na oferta, as exportações sauditas se recuperaram para pouco mais de 4 milhões de barris por dia até agora em setembro, ante 2,4 milhões de bpd em agosto — o menor patamar desde pelo menos 2013, segundo dados citados na fonte. O fluxo físico também dá sinais de retomada parcial: 17 navios de carga cruzaram o Estreito de Ormuz no fim de semana, abaixo dos 37 da semana anterior. Antes da guerra, o estreito era a rota de passagem de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo, e hoje opera em fluxo mínimo. Entre os rastreáveis, cinco embarcações deixaram o estreito no domingo, enquanto dois petroleiros de pequeno porte entraram no Golfo, segundo dados provisórios da Kpler. O superpetroleiro Pinios está entre os que saíram.
O movimento do petróleo importa para o investidor brasileiro por dois canais. O primeiro é inflacionário: combustível mais barato no atacado tende a aliviar a pressão sobre o IPCA nos próximos meses. O segundo é setorial, já que a Petrobras (PETR3;PETR4) tem parte relevante de suas receitas vinculada ao preço internacional do barril. Uma queda prolongada da commodity tende a reduzir o valor esperado de produção futura da companhia, ainda que o efeito sobre o resultado trimestral dependa do câmbio e do volume exportado.
No minério de ferro, a referência negociada na bolsa de Dalian fechou em leve alta de 0,14%, a 715,00 iuanes (US$ 106,75). O suporte veio da expectativa de que siderúrgicas chinesas ampliem a compra de matéria-prima antes do feriado da Semana Dourada. O avanço foi limitado pelo aumento dos estoques nos portos.
Exterior em alta: IA puxa futuros de NY e Europa e Ásia acompanham
Os índices futuros de Nova York operam em alta, apoiados pela queda do petróleo e pelo otimismo dos investidores em torno da cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping. O Dow Jones Futuro sobe 0,83%, o S&P 500 Futuro avança 0,72% e o Nasdaq Futuro ganha 1,13%. O apetite por tecnologia segue como motor principal, sustentado pelas expectativas de demanda relacionada à inteligência artificial.
Na sexta-feira, o fechamento em Wall Street foi misto. O Dow Jones caiu 0,19% e acumulou -1,70% na semana; o S&P 500 subiu 0,16% e ficou em -0,18% no período semanal; o Nasdaq avançou 0,40% e fechou a semana com +0,72%. Os investidores ajustaram posições após a primeira alta de juros do Federal Reserve em três anos, na quarta-feira (16), e depois de um rali de recuperação das ações de tecnologia.
Na Ásia, o dia foi de ganhos generalizados. O Shanghai SE subiu 0,97%, o Nikkei avançou 1,38%, o Hang Seng Index somou 1,18%, o Nifty 50 ganhou 0,38% e o ASX 200 fechou praticamente estável, com +0,01%. O impulso veio dos setores de tecnologia e imobiliário, na expectativa de que EUA e China prorroguem a trégua comercial durante o encontro dos dois presidentes. As expectativas são moderadas, mas o mercado monitora sinais sobre a continuidade do acordo firmado no ano anterior.
Na Europa, o tom também foi positivo. O STOXX 600 avançou 1,09%, o DAX subiu 1,14%, o FTSE 100 ganhou 0,92%, o CAC 40 acrescentou 0,95% e o FTSE MIB registrou +1,25%. A quarta sessão consecutiva de queda do petróleo ajudou a acalmar os ânimos e a fortalecer o apetite por risco. Investidores avaliam se a retração do barril pode amenizar as pressões inflacionárias depois da alta de juros promovida pelo Banco Central Europeu no início do mês. Economias europeias são especialmente vulneráveis a choques de energia por causa da dependência de combustíveis importados.
A trégua entre Washington e Pequim saiu do campo retórico para o técnico. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, concluíram negociações em Nova York no domingo, e a parte americana propôs um novo mecanismo de notificação de segurança para inteligência artificial. No campo comercial, os EUA também confirmaram a disposição de dialogar sobre IA com os chineses, segundo declaração de Bessent reproduzida pela fonte.
Eleição: BTG/Nexus confirma empate técnico e mantém prêmio de risco no radar
A 15ª rodada da pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta segunda-feira, mostrou redução da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno e manutenção do empate técnico no segundo turno. No primeiro turno, Lula soma 40% das intenções de voto, ante 42% na edição anterior, enquanto Flávio permaneceu com 37%.
O cenário de segundo turno continuou apontando empate técnico, com Lula recuando para 46% (ante 47%) e Flávio também perdendo um ponto percentual, para 45%. O Nexus ouviu 2.006 pessoas entre 18 e 20 de setembro, com margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.
Uma nova pesquisa Quaest sobre o cenário eleitoral é esperada ainda nesta segunda-feira. Historicamente, ativos brasileiros costumam embutir prêmio de risco adicional em períodos de indefinição eleitoral, o que tende a se refletir em curva de juros mais inclinada, câmbio mais volátil e múltiplos de ações domésticas mais comprimidos. O quadro atual, sem vantagem consistente de nenhum dos dois lados, mantém esse prêmio em aberto.
Juros futuros fecham mistos e dólar sobe 0,11% na sexta
Na sexta-feira, os contratos de juros futuros encerraram o dia com movimentos mistos. As taxas dos vencimentos curtos e intermediários subiram, enquanto os longos recuaram, num sinal de que o mercado ajustou expectativas de política monetária no curto prazo sem alterar a visão estrutural sobre a inflação.
| Contrato | Taxa (%) | Variação (pp) |
|---|---|---|
| DI1F27 | 13,555 | 0,000 |
| DI1F28 | 13,630 | 0,025 |
| DI1F29 | 13,840 | 0,020 |
| DI1F31 | 14,020 | -0,020 |
| DI1F32 | 14,095 | -0,025 |
| DI1F33 | 14,130 | -0,035 |
| DI1F34 | 14,145 | -0,025 |
| DI1F35 | 14,135 | -0,040 |
O dólar comercial encerrou a sexta-feira com alta de 0,11% ante o real, interrompendo duas quedas consecutivas. O movimento contrariou o comportamento da moeda americana diante de outras divisas. A combinação entre juros futuros longos em queda e câmbio em leve alta sugere que o mercado ainda não cravou uma direção para os próximos dias, à espera da pesquisa Quaest e da agenda externa.
Combustíveis: defasagem segue ampla e Petrobras acumula dias sem reajuste
Os preços dos combustíveis no Brasil continuam com defasagem ampla em relação à paridade internacional, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). O diesel A S10 registrava, na média nacional, -112%, ou -R$ 3,64 por litro — na sexta-feira, a leitura era de -114%, ou -R$ 3,72. A gasolina A aparecia com -39%, ou -R$ 1,18, ante -38%, ou -R$ 1,15, no fechamento anterior.
A Petrobras (PETR3;PETR4) anunciou o último reajuste da gasolina há 12 dias, enquanto o diesel não tem reajuste há 113 dias. A Abicom publica o estudo diariamente, de segunda a sexta, exceto em feriados.
A defasagem acumulada tende a pressionar a margem da estatal, na medida em que a companhia precisa conciliar preços internos com a paridade de importação. Atrasos prolongados em repasses costumam reduzir a previsibilidade do fluxo de caixa e aumentar a percepção de risco político sobre a política de preços. Do lado do investidor pessoa física, o tema é relevante tanto pela exposição direta à ação quanto pelo efeito indireto na inflação, já que combustíveis têm peso relevante no IPCA.
Ações em foco: sobrecompra da Ultrapar e Hapvida perto da mínima histórica
Duas ações chamam atenção pelos extremos técnicos. A Ultrapar (UGPA3) mantém o rali e o indicador técnico a coloca em região de sobrecompra — situação em que o preço sobe forte e rápido e a probabilidade de correção tende a aumentar no curto prazo. A Hapvida (HAPV3) se aproxima da mínima histórica após nova sequência de quedas, com o indicador apontando para sobrevenda, leitura que sinaliza esgotamento da pressão vendedora em alguns modelos técnicos.
Leituras de sobrecompra e sobrevenda não determinam reversão de tendência, mas costumam funcionar como referência para gestão de risco. No caso da Hapvida, a proximidade da mínima histórica tende a concentrar atenção de investidores que acompanham suportes técnicos; na Ultrapar, a extensão do rali tende a elevar a volatilidade esperada.
Além desses movimentos, a TIM Brasil passou a ter nova controladora indireta após oferta pela Telecom Italia. A liquidação das ações adquiridas na oferta ocorreu em 18 de setembro. A mudança altera a estrutura de controle da companhia e costuma ser acompanhada de perto por investidores atentos a alterações no bloco de comando.
Agenda da semana: Trump-Xi, ONU e nova pesquisa Quaest
A semana concentra eventos de peso. Donald Trump e Xi Jinping se encontram na quinta-feira, num encontro que pode definir sinais sobre a prorrogação da trégua comercial firmada no ano anterior. Antes disso, Trump discursa na Assembleia Geral das Nações Unidas, onde Lula também fará o discurso de abertura da 81ª edição do evento, em Nova York. A fala de Lula deve priorizar temas internacionais, mas incluirá a defesa da soberania brasileira e a condenação a interferências externas no processo eleitoral.
No front doméstico, a pesquisa Quaest desta segunda-feira tende a calibrar o humor do mercado em relação ao cenário eleitoral, especialmente depois da divulgação do BTG/Nexus. Para o investidor, a agenda funciona como uma sequência de gatilhos: cada evento tem potencial de mexer com prêmio de risco, curva de juros e câmbio, e a volatilidade tende a aumentar conforme as datas se aproximam.
Geopolítica: Irã, Rússia e o fluxo em Ormuz
A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã ameaçou promover mudanças na condução da guerra caso o país seja alvo de novos ataques. Em comunicado divulgado por Telegram nesta segunda-feira, o braço armado do regime afirmou que uma nova ofensiva levaria a alterações na geografia do conflito e à entrada em cena de armas com capacidades inéditas. Em outra nota, a Guarda defendeu a relação de boa vizinhança com países da região, criticou a cessão de bases aos Estados Unidos e afirmou que os próprios vizinhos já teriam percebido que tais bases não trazem segurança. Em nota separada, a Guarda manifestou ressentimento com países vizinhos por cederem instalações a uma potência distante.
O conflito entre Rússia e Ucrânia segue ativo em paralelo à apuração das eleições parlamentares russas. Moscou informou ter atacado centros logísticos, armazéns, portos e embarcações ucranianas nesta segunda-feira, e afirmou ter neutralizado 244 drones lançados contra regiões russas. A votação parlamentar russa ocorreu entre sexta-feira (18) e domingo (20), com 111 milhões de eleitores elegíveis e participação de cerca de 57%. Com aproximadamente 58% das urnas apuradas, o partido Rússia Unida, do presidente Vladimir Putin, tinha perto de 58% dos votos para os 225 deputados escolhidos por listas partidárias, segundo a Comissão Eleitoral Central da Rússia. Outros 225 legisladores são escolhidos em disputas de assento único, e o partido de Putin também se encaminhava para maioria nesse bloco. Residentes de quatro regiões ucranianas anexadas desde o início da guerra participaram pela primeira vez do pleito.
O fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz permanece como um dos termômetros do risco geopolítico. Os produtores do Oriente Médio continuam exportando petróleo em petroleiros que navegam com transponders desligados, o que reduz a visibilidade e adiciona prêmio de incerteza ao mercado de energia. Para o investidor brasileiro, a leitura prática é que o petróleo tende a manter volatilidade elevada enquanto o impasse entre EUA e Irã não se resolver, com efeitos diretos sobre a curva de inflação esperada e sobre o desempenho de companhias ligadas à commodity.
