A indústria de fundos brasileira captou R$ 251,7 bilhões nos nove primeiros meses do ano, avanço de 61% sobre o mesmo intervalo do ano anterior e o segundo melhor resultado dos últimos cinco anos, atrás apenas dos R$ 305 bilhões de 2024. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e mostram um fluxo que segue concentrado nas prateleiras de menor oscilação.
A concentração ganha um capítulo regulatório nos próximos meses. A Anbima prepara uma reclassificação dos FIDCs — fundos que adquirem créditos a receber, como duplicatas e faturas de cartão —, com audiência pública prevista para este mês. As regras passam a valer para carteiras novas a partir de janeiro; as já existentes terão adaptação em duas fases, com prazos em abril e junho do ano que vem.
Renda fixa puxa R$ 136 bilhões e define o ranking do ano
As carteiras de renda fixa responderam por R$ 136 bilhões da captação acumulada, o maior volume entre todas as categorias. Os fundos estruturados vieram na sequência, com os FIDCs somando R$ 56 bilhões.
| Categoria | Captação até setembro |
|---|---|
| Renda fixa | R$ 136 bi |
| FIDCs | R$ 56 bi |
| ETFs | R$ 42,5 bi |
| FIPs | R$ 39,1 bi |
| Fiagros | R$ 9,9 bi |
| Ações | −R$ 10,9 bi |
| Multimercados | −R$ 9,3 bi |
ETFs são fundos com cotas negociadas em bolsa, FIPs aplicam em participações societárias e Fiagros direcionam recursos ao agronegócio.
FIDCs: R$ 819 bilhões de patrimônio e varejo quase dobrando
O patrimônio da categoria alcançou R$ 819 bilhões em setembro, R$ 69 bilhões acima do registrado em outubro do ano anterior. A quantidade de carteiras avançou 8,7%, para 4.270 fundos, 342 a mais do que em dezembro.
Na ponta do varejo, o salto é ainda mais visível: as carteiras voltadas ao público geral passaram de R$ 2,7 bilhões no fim de 2025 para R$ 5,1 bilhões em setembro.
A régua dos FIDCs muda a partir de janeiro
As novas regras valem para fundos criados a partir de janeiro. Quem já tem carteira em operação terá até abril do ano que vem para adequar metade do estoque, e até junho para o restante.
Previdência lidera os resgates, com R$ 12,4 bilhões
Os fundos de previdência concentraram o maior volume de saques do período, com R$ 12,4 bilhões resgatados até setembro. Pedro Rudge, diretor da Anbima, associa o movimento às mudanças feitas pelo governo: os fundos exclusivos de previdência foram limitados a R$ 5 milhões, e os aportes mensais acima de R$ 50 mil passaram a ter cobrança de IOF.
Ações e multimercados devolvem R$ 10,9 bi e R$ 9,3 bi
A renda variável ficou do outro lado do balcão. Fundos de ações tiveram resgates líquidos de R$ 10,9 bilhões e multimercados, de R$ 9,3 bilhões, repetindo o desenho do ano anterior.
Rentabilidade: duração alta empata com o CDI
| Categoria | Ganho médio até setembro |
|---|---|
| Renda fixa — duração alta | 10,5% |
| Renda fixa — crédito livre | 8,3% |
| Renda fixa (média) | 8,7% |
| Multimercados livres | 8,2% |
| Multimercados (média) | 7,0% |
| Fundos no exterior | 4,4% |
As carteiras de renda fixa com títulos de vencimento mais distante, de alta duração, lideraram com 10,5%, desempenho que empata com o CDI. Os fundos de crédito livre ficaram na lanterna do segmento, com 8,3%, e puxaram a média da categoria para 8,7% no ano.
O que a nova classificação muda para quem tem FIDC
Para o investidor com posição nesses fundos, o efeito mais imediato da reclassificação tende a ser informacional, não financeiro. Carteiras que hoje compartilham o mesmo rótulo passam a ser separadas por tipo de crédito, o que expõe diferenças de risco entre um fundo de consignado, um de crédito imobiliário e outro ligado a uma cadeia produtiva específica. A comparação com fundos tradicionais de renda fixa fica mais direta.
A própria Anbima condiciona uma retomada do apetite por risco a um ambiente macro mais previsível e à percepção de queda dos juros. Enquanto esses dois elementos não caminharem juntos, o fluxo tende a permanecer concentrado em produtos de menor oscilação, com a disputa pela carteira do investidor pessoa física travada entre renda fixa, FIDCs e ETFs.
