A oferta de 1,1 milhão de m³/dia de gás natural da União, fatiada em 110 lotes, foi integralmente absorvida por 23 companhias industriais de cinco segmentos na quinta-feira (22), no primeiro leilão de venda direta do insumo a consumidores finais conduzido pela Pré-Sal Petróleo (PPSA). O valor médio apurado, de US$ 5,83/MMBtu — milhões de unidades térmicas britânicas, métrica padrão dos contratos internacionais de gás —, implica descontos de 38% a 57% na comparação com a referência de US$ 12/MMBtu utilizada pelo mercado, segundo uma autoridade do Ministério de Minas e Energia.

Para o investidor exposto a siderurgia, mineração, química e fertilizantes, o dado que separa este certame dos anteriores é o mecanismo de preço, não o volume. O gás da União passou a ser precificado em disputa pública, com entrega programada entre março e dezembro de 2027. Energia costuma responder por parcela relevante da estrutura de custos dessas cadeias, e um referencial menor tende a reduzir a pressão sobre margens industriais — desde que o transporte até a unidade fabril não consuma o desconto obtido no lote. O certame também foi desenhado para ampliar o número de agentes no mercado de gás, o que historicamente costuma encurtar a cadeia de intermediários entre a molécula e a fábrica.

Média de US$ 5,83 convive com pisos de US$ 1,82 a US$ 4,00 por setor

O preço médio superou o lance mais baixo de cada um dos cinco segmentos, indício de que a disputa por determinados lotes ocorreu bem acima dos pisos setoriais. Os menores lances registrados foram US$ 4,00/MMBtu no vidreiro, US$ 1,86/MMBtu no ceramista, US$ 2,30/MMBtu no bloco de siderurgia, metalurgia e mineração, US$ 1,92/MMBtu em química e petroquímica e US$ 1,82/MMBtu em fertilizantes nitrogenados, todos partindo da mesma referência inicial de US$ 1,80/MMBtu.

SetorVolume ofertado (mil m³/dia)Menor lance (US$/MMBtu)Vencedores citados
Químico e petroquímico3501,92Braskem (BRKM5), Rhodia, Evonik, Ingredion, Peróxidos do Brasil
Siderúrgico, metalúrgico e mineração3202,30CSN (CSNA3), Gerdau Aços Longos, Samarco, Ternium Brasil, Vale (VALE3)
Ceramista2001,8611 empresas não identificadas
Fertilizantes nitrogenados1301,82Yara Fertilizantes, Multitécnica Industrial
Vidreiro1004,00não identificadas

Química e petroquímica concentraram a maior fatia ofertada, com 350 mil m³/dia. Entre os nomes do bloco estão Braskem, Peróxidos do Brasil, Rhodia, Evonik e Ingredion. Na sequência vem o grupo de siderúrgicas, metalúrgicas e mineradoras, com 320 mil m³/dia, que teve Vale, CSN, Samarco, Gerdau Aços Longos e Ternium Brasil entre as arrematantes. CSN, Vale e Braskem, todas com ações negociadas na B3, aparecem no rol de vencedoras.

Itaboraí como ponto único de entrega e o frete por conta do comprador

O gás arrematado será retirado no Complexo de Energias Boaventura da Petrobras, o antigo Comperj, em Itaboraí (RJ). Dali em diante, o transporte dutoviário até cada fábrica é negociado individualmente pelo comprador. Isso redimensiona o desconto divulgado: os 38% a 57% valem para a molécula no ponto de entrega, e o custo que efetivamente chega à planta incorpora a tarifa de movimentação, variável conforme distância e contrato.

Ceramistas, vidreiros e fertilizantes fecham os 110 lotes

Ceramistas ficaram com 200 mil m³/dia, rateados entre 11 empresas que a PPSA não identificou individualmente, enquanto o segmento vidreiro respondeu por 100 mil m³/dia. Nos fertilizantes nitrogenados, Yara Fertilizantes e Multitécnica Industrial dividiram 130 mil m³/dia.

Demanda aquecida e uma segunda rodada já marcada para 2027

Renato Dutra, secretário de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, comentou o desfecho do certame.

O presidente da PPSA, Luis Fernando Paroli, adiantou que o Brasil terá um novo leilão de gás da União voltado à indústria em 2027, com 1,8 milhão de m³/dia ofertados — acima do volume colocado nesta primeira edição, o que sinaliza ambição de escala maior na próxima rodada.

Para quem investe, a agenda relevante é a assinatura dos contratos e a entrega efetiva dos volumes a partir de março de 2027. É nesse momento que o desconto na molécula — hoje restrito a 23 companhias — se converte, ou não, em alívio de custo perceptível nos resultados das companhias listadas que arremataram lotes. Até lá, o que existe é um preço de referência novo, formado em disputa, e um caminho logístico ainda a ser contratado por cada vencedor.