O Goldman Sachs identificou uma janela estratégica de alocação no segmento de utilities (empresas de serviços públicos como energia elétrica, saneamento e gás) após as ações do setor registrarem uma correção acumulada de aproximadamente 16% desde as máximas observadas em meados de abril. Segundo o banco, o movimento foi pautado por incertezas quanto à trajetória futura da taxa básica de juros (Selic), pelo aumento da volatilidade associado à proximidade do ciclo eleitoral e por fluxos de desinvestimento estrangeiro, realocados para commodities ligadas ao petróleo e empresas com exposição direta ao tema de inteligência artificial. A instituição, no entanto, avalia que o recuo realinhou as avaliações de risco e retorno, reposicionando o setor em um patamar mais favorável para captadores de capital de longo prazo.
A correção recente e o prêmio de risco realinhado
A dinâmica recente do mercado acionário brasileiro retirou o fôlego de setores historicamente defensivos, pressionando as utilities a negociarem com um spread (diferencial) médio de aproximadamente 4 pontos percentuais entre a Taxa Interna de Retorno (TIR) real das ações e o rendimento oferecido pelos títulos públicos indexados à inflação, como as NTN-Bs. Essa métrica de prêmio de risco é tradicionalmente utilizada por gestores para mensurar a compensação extra exigida pelo investidor ao trocar renda fixa indexada por volatilidade de ações. O banco sustenta que esse nível se mostra adequado historicamente, equilibrando a proteção de caixa previsível com a exposição ao risco macroeconômico ainda presente no ambiente doméstico.
Desempenho secular e comparativo global
Apesar da volatilidade recente, as companhias brasileiras do setor consolidaram um histórico de valorização expressivo no longo prazo. Nos últimos dez anos, o segmento acumulou apreciação de cerca de 240% em dólares. Esse desempenho superou amplamente o retorno do iShares MSCI Brazil Capped ETF (EWZ), que avançou 90%, e do índice MSCI Mercados Emergentes, com 110%. O resultado também se manteve à frente do MSCI World (+190%) e praticamente empatou com o S&P 500, que registrou alta de aproximadamente 250% no mesmo intervalo. A trajetória evidencia a capacidade das empresas de gerar fluxo de caixa estável mesmo em ciclos econômicos desafiadores, beneficiando-se de contratos de longo prazo, mecanismos de reajuste tarifário atrelados à inflação e investimentos contínuos em expansão de capacidade.
Vetores de valorização e catalisadores para 12 meses
Os analistas Bruno Amorim, Guilherme Bosso e Huama Belmonte estruturam a tese em sete eixos principais, combinando defesas macroeconômicas com gatilhos microeconômicos capazes de impulsionar o setor no próximo ciclo.
1. Proteção contra cenário adverso: As utilities mantêm características defensivas robustas, funcionando como hedge (proteção) natural contra inflação persistente, desaceleração do Produto Interno Bruto e ambiente de juros ainda restritivo. A receita regulada e os contratos de longo prazo blindam parcialmente o caixa corporativo.
2. Catalisadores não precificados: Embora parte do otimismo já esteja incorporada às cotações, o banco identifica fatores operacionais e regulatórios que ainda não foram totalmente absorvidos pelo mercado.
3. Fusões, aquisições e saneamento: O segmento de distribuição e saneamento segue atrativo para consolidação. O projeto UniversalizaSP, focado na universalização e ampliação de concessões no estado de São Paulo, aparece como vetor central, com potencial para adicionar aproximadamente 10% ao valor justo das ações da Sabesp.
4. Revisão regulatória das distribuidoras: Discussões sobre o marco de distribuição podem avançar no curto prazo, com expectativas de melhorar a remuneração do capital investido. Mudanças nessa estrutura podem elevar em cerca de 8% o valor justo das ações de Equatorial e Energisa, fortalecendo a geração de caixa operacional.
5. Patamar de energia e mercado livre: O mercado trabalha com um preço implícito de longo prazo de aproximadamente R$ 230 por MWh (megawatt-hora), enquanto a projeção do banco aponta para R$ 270 por MWh. Para a Axia Energia, que possui carteira com alta exposição ao Ambiente de Contratação Livre (ACL), cada acréscimo de R$ 10 por MWh pode elevar entre 5% e 6% o valor justo do papel. A instituição também projeta dividend yield (rendimento de dividendos) entre 10% e 14% ao ano para o período entre 2026 e 2028, somado a programas de recompra de ações.
6. Efeito El Niño: A elevada probabilidade de um fenômeno El Niño forte no curto prazo tende a elevar a demanda por eletricidade, pressionar os preços spot (à vista) e melhorar a modulação (gerenciamento da intermitência) da geração, beneficiando tanto usinas quanto distribuidoras.
7. Correção como novo ponto de entrada: A desvalorização de 16% desde os toques de abril não posiciona o setor tão descontado quanto no fim de 2024 e início de 2025, mas restabeleceu uma relação risco-retorno alinhada à média histórica, com prêmio de 4 pontos percentuais sobre a renda fixa indexada.
Projeções de preço-alvo e posicionamento por ativo
O banco detalhou avaliações por companhia utilizando a metodologia de soma das partes (SOTP), que calcula o valor justo somando os segmentos de negócio ou ativos individuais de cada empresa. As projeções e recomendações de classificação seguem estruturadas abaixo:
| Empresa | Ticker | Classificação | Preço-Alvo |
|---|---|---|---|
| Axia Energia | AXIA3 | Compra | R$ 67,00 |
| Copel | CPLE3 | Compra | R$ 18,50 |
| Eneva | ENEV3 | Compra | R$ 31,00 |
| Equatorial | EQTL3 | Compra | R$ 47,00 |
| Energisa | ENGI11 | Compra | R$ 58,00 |
| Sabesp | SBSP3 | Compra | R$ 34,00 |
| CPFL Energia | CPFE3 | Neutra | R$ 51,00 |
| Auren | AURE3 | Neutra | R$ 14,10 |
| Cemig | CMIG4 | Venda | R$ 9,60 |
| Engie Brasil | EGIE3 | Venda | R$ 33,00 |
Mapeamento de riscos setoriais e idiossincráticos
A manutenção de teses de investimento exige monitoramento constante de variáveis regulatórias, macroeconômicas e operacionais. O banco listou os principais fatores que podem impactar negativamente as projeções de valor justo por companhia:
- Axia (AXIA3): Queda nos preços da energia provocada por excesso de oferta no médio prazo.
- Copel (CPLE3): Escrutínio regulatório e federal sobre qualidade de serviço, interferência governamental, abertura do mercado de distribuição, aumento de encargos setoriais para consumidores regulados, avanço da geração distribuída solar, excesso de oferta no médio prazo e exposição a energia descontratada nos próximos cinco anos.
- Eneva (ENEV3): Avanço tecnológico mais rápido que o esperado em sistemas de armazenamento por baterias (BESS), déficits de modulação e cortes de geração superiores ao previsto, mudanças regulatórias e intervenção estatal.
- Equatorial (EQTL3): Ambiente regulatório mais rigoroso, interferência federal, abertura da distribuição, elevação de encargos, crescimento da geração distribuída, recuperação lenta de concessões adquiridas e excesso de oferta energético.
- Energisa (ENGI11): Fiscalização regulatória intensificada, interferência governamental, abertura do mercado, avanço da geração distribuída, excesso de oferta e atrasos ou custos acima do esperado em projetos de transmissão.
- Sabesp (SBSP3): Dificuldades na execução do plano de investimentos de mais de R$ 70 bilhões para o período entre 2024 e 2029, atrasos na captura de ganhos de eficiência e interferência do poder público.
- CPFL Energia (CPFE3): Aquisições destruidoras de valor, pressão regulatória, crescimento da geração distribuída, aumento de subsídios pagos por consumidores cativos, desempenho inferior de ativos eólicos e manutenção de cortes de geração renovável. Como contraponto, a expansão de data centers de inteligência artificial em Campinas e decisão favorável no processo CPFL Piratininga aparecem como fatores positivos.
- Auren (AURE3): Preços de energia abaixo do esperado, subdesempenho eólico, crescimento da geração distribuída, excesso de oferta, riscos hidrológicos, mudanças regulatórias e intervenção governamental. Catalisadores positivos incluem indenizações por ativos não amortizados das usinas de Jupiá, Ilha Solteira, Jaguari e Paraibuna, além de solução sobre indenizações por cortes.
- Cemig (CMIG4): Privatização, crescimento econômico acima da expectativa, melhora operacional e queda de juros representam fatores que poderiam reverter a visão negativa.
- Engie Brasil (EGIE3): Aumento na distribuição de dividendos após o ciclo de investimentos atual (a partir de 2028, sem novas aquisições), preços de energia mais altos e redução de cortes na geração renovável poderiam melhorar a perspectiva.
O que isso significa para o investidor
A análise do banco reforça que o setor de utilities não opera isoladamente da macroeconomia brasileira. A relação entre o prêmio de risco das ações e os títulos indexados à inflação (NTN-Bs) funciona como um termômetro para a alocação de renda variável em momentos de juros elevados. Para o investidor pessoa física, o cenário sugere que a volatilidade recente criou dissonâncias entre preço de mercado e geração de caixa futura, mas também expôs a sensibilidade das empresas a mudanças na regulação setorial e na política energética. A dependência de investimentos em infraestrutura e a transição para fontes distribuídas exigem acompanhamento constante dos marcos legais da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e das agências reguladoras estaduais. Em um cenário otimista, a materialização de revisões tarifárias favoráveis, a consolidação via M&A e a manutenção de preços de energia acima do patamar implícito podem sustentar múltiplos de valuation e fluxos de dividendos robustos. No cenário base ou pessimista, a combinação de excesso de oferta no médio prazo, interferência regulatória e custos de capital elevados pode comprimir margens e adiar a recompra de papéis. A diversificação dentro do próprio setor e o monitoramento do ciclo de capex (investimentos em capital) tornam-se fundamentais para equilibrar retorno e proteção patrimonial.
Os próximos 12 meses demandarão atenção redobrada às sinalizações do Comitê de Política Monetária (Copom), à definição do marco regulatório para distribuição, à evolução dos preços no Ambiente de Contratação Livre e à efetividade dos planos de universalização de saneamento. A materialização dos gatilhos identificados, somada ao comportamento do fenômeno climático El Niño e à disciplina de capital das companhias, ditará o ritmo de reprecificação do setor na Bolsa brasileira.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
